Terapia de casal estressa os terapeutas

Profissionais enfrentam o estresse da área

Terry Real, terapeuta de casal em Arlington, Massachusetts
Terry Real, terapeuta de casal em Arlington, Massachusetts Foto: Gretchen Ertl

Todos já tivemos esta péssima experiência: você dá uma festa, ou convida um casal para um jantar, e eles começam a brigar bem na sua frente: as difamações, a raiva mal controlada, a transferência neurótica da atração sexual diminuída para – por exemplo – a higiene do cão da família, tudo isso te dá vontade de fingir que se engasgou e se esconder. Mas será que testemunhar conflitos de casal é menos desagradável para os profissionais, os terapeutas de família e casamento dotados de credenciais e remunerados, cujo trabalho é ajudar parceiros a atravessar dificuldades e dores?

“Não”, diz Terry Real, proeminente psicólogo que faz parte de um número cada vez maior de terapeutas familiares que falam sobre como se sentem fazendo terapia de casal. “É muito pior”. À mesa de jantar, explica Real, você é apenas um espectador, um efeito colateral. No consultório, diz ele, “espera-se que você faça alguma coisa”.

O fato de que a terapia de casal estressa os terapeutas é há tempos um segredo aberto. Esse campo, no entanto, parece ter decidido que agora seria um bom momento para que seus praticantes tratassem de seus sentimentos e deixassem sair a pressão. Tudo começou com o número da revista profissional “The Psychotherapy Networker” e sua matéria de capa, “Quem tem medo de terapia de casal?”.

“Já se reconhece amplamente que a terapia de casais é a mais desafiadora”, diz Richard Simon, o editor da revista. “Há muita coisa em jogo. Você lida com volatilidade. Muitas vezes há segredos. Estamos apenas tentando tornar explícito algo que aqueles que fizeram terapia de casal já sabem: você muitas vezes fica confuso, em conflito com ao menos um de seus pacientes, ou fora de controle.”

Parte do problema é que o tipo de pessoa que tende a se tornar terapeuta – empática, sensível, calma, tolerante – não é em geral o tipo de pessoa que se torna um bom terapeuta de casais. “A atitude tradicional e passiva de ficar dizendo ‘hum-hum’ é inútil”, diz Real. “Você tem que gostar de ação. Para lidar com o combate marital, o terapeuta tem de entrar lá, se misturar com os clientes, ser um ninja. Isso intimida.”

“Assusta enfrentar a força de dois indivíduos em colisão”, diz ele.

Peter Pearson e Ellyn Bader, psicólogos e fundadores do Instituto de Casais em Palo Alto, no estado da Califórnia, que oferece tanto terapia quanto treinamento para terapeutas, descrevem a experiência de aconselhamento a casais em conflito agudo através de metáforas igualmente violentas, como “pilotar um helicóptero num furacão.”

Agravando o problema da empatia perdida no tiroteio, a terapia de casais, tal como é praticada hoje em dia – um terapeuta e dois esposos numa sala – começou de modo que, hoje, pode parecer tortuoso. Antes do início dos anos 1960, maridos e mulheres em geral buscavam aconselhamento sozinhos, não juntos; tal aconselhamento era oferecido por um sacerdote, um médico ou um assistente social, e o modo de conversação era didático (eis o que você deve fazer), não terapêutico (vamos descobrir por que você se sente tão mal).

Mas depois disso, ao longo dos anos 1960 e 1970, as taxas de divórcio começaram a subir, e o campo da terapia de casais explodiu. Construindo-o a partir do modelo da terapia familiar, no qual as famílias eram tratadas como um todo  – ou como um sistema, conforme o jargão – os terapeutas começaram a ver a maior parte dos casais em duplas. Era uma ideia interessante, talvez até boa, mas não havia pesquisas que a fundamentassem. Como resultado, a prática, conhecida como terapia conjunta, foi destruída em revistas de psicologia como “seriamente carente de princípios testados empiricamente” e “uma técnica em busca de teoria”. Uma teoria a que o campo se agarrou foi a psicanálise: agora os casais tinham problemas por conta de interações neuróticas e de psicopatologias individuais. (Ótimo, não?)

Outro modelo veio do movimento do potencial humano. Virginia Satir, conhecida como “a mãe da terapia familiar”, foi também a primeira diretora de treinamento no Instituto Esalen em Big Sur, na Califórnia, onde o escritor Jack Kerouac e a cantora Joan Baez, entre outros, faziam retiros para se encontrar. Satir afirmava que o objetivo da terapia de casais “não é manter a relação nem separar a dupla, mas ajudar um ao outro se encarregar de si mesmo.”

Quem ou o que deve ser salvo ou cuidado permanece em dúvida em algumas práticas terapêuticas para casais. O cliente é um dos cônjuges? Ambos? A relação? O emaranhado de necessidades e obrigações pode levar a problemas desde a primeira sessão.

“Para início de conversa, há sempre o risco de conseguir a aliança de um membro do casal, enquanto se perde o outro”, explica William J. Doherty, professor de ciência social da família na Universidade do Wisconsin, em artigo pioneiro de 2002 que tratava de aconselhamentos estranhos a casais na Networker, intitulado “Má Terapia de Casais”.

“Todas as suas incríveis habilidades de conexão da terapia individual podem se voltar contra você em segundos com um casal. Uma observação terapêutica brilhante pode estourar na sua cara quando um cônjuge pensa que você é um gênio e o outro o acha um idiota – ou, pior, aliado ao inimigo”.

O sentido de oportunidade também é crucial, muito mais importante que na terapia individual, e também gera inquietação nos terapeutas. “Deixe um casal interromper um ao outro por quinze segundos, e logo você os terá gritando um com o outro e pensando porque é que eles precisam de você para fazer o que eles poderiam fazer em casa”, diz Doherty em entrevista por telefone.

Com indivíduos, um terapeuta pode enrolar um pouco. “Você sempre pode dizer, ‘Fale mais sobre isso’, e tomar alguns minutos para entender o que vai fazer em seguida”, diz ele. “Na terapia de casais, a intensidade emocional da dinâmica do casal não te dá esse luxo.”

E há, ainda, a possibilidade de que um dos cônjuges tenha buscado a terapia de modo a cometer o que o professor descreve como “divórcio endossado pelo terapeuta.” Isso raramente fica explícito. Mesmo casais que já desistiram de consertar uma relação podem querer dizer a si mesmos que tentaram de tudo, especialmente se têm filhos. Então eles fazem algumas sessões de aconselhamento de casais, afirmando que querem mudar sua relação, quando o que realmente querem fazer é mudar de parceiro.

“Muitas vezes se vê o Parceiro A trazendo o Parceiro B arrastado, porque o Parceiro B está se comportando de maneiras que são insatisfatórias e intoleráveis”, diz Real. “Já de saída, eu pergunto: ‘O que há de errado com o casamento?’, e o Parceiro A diz ‘Bob’. Então eu pergunto: ‘E o que há de errado com o Bob?’, e o Parceiro A diz ‘O fato de ele ser Bob’.”

O que, então, os profissionais dessa área estão tentando fazer por todos os envolvidos? Junto a essa maior abertura, alguns terapeutas estão tentando se aprimorar, colocando maior ênfase na sua responsabilização e na sua comunicação com os pacientes. Muitos terapeutas não sabem o quanto ajudaram seus pacientes no longo prazo, nem como o seu desempenho pode ser comparado ao de outros nesse campo.

William M. Pinsof, professor de psicologia clínica e presidente do Instituto da Família na Universidade Northwestern em Evanston, no estado do Illinois, está tentando consertar isso. Como parte de um estudo que está realizando, visando uma melhor compreensão da base empírica da mudança psicológica e comportamental _ quais os padrões de mudança e quais comportamentos dos terapeutas que se associam a eles _, ele conseguiu que terapeutas peçam a clientes para preencher um questionário online sobre suas vidas, antes de cada sessão. Após a sessão, os terapeutas preenchem um questionário sobre o que fizeram. O objetivo de Pinsof é criar uma base de dados que possa predizer, tanto para pacientes quanto para terapeutas (por exemplo, casais que começam a terapia pouco confiantes, pouco flexíveis e muito comprometidos tipicamente respondem bem ao tipo X de tratamento), retirando do aconselhamento a casais um pouco da adivinhação envolvida.

Ainda assim, nada disso vai resolver o verdadeiro problema por trás disso. Como diz Pearson, do Instituto de Casais: “Se você está atendendo casais, não importa o que faça, você verá muita raiva e volatilidade. Verá as pessoas brigarem no seu consultório, e isso desencadeia muita insegurança e dúvida _ todas as suas questões de infância, suas próprias relações. E quem é que quer mais disso?”.

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