Todas elas em uma: como será a mulher do futuro?

Elas terão as mesmas oportunidades que os homens no mundo coorporativo?

No Brasil, as mulheres têm remuneração em média 30% menor do que a dos homens
No Brasil, as mulheres têm remuneração em média 30% menor do que a dos homens Foto: Reprodução

A mulher do futuro jogará futebol. E bem. A sucessora da jogadora Marta receberá o mesmo reconhecimento de Pelé e um salário igual ao do português Cristiano Ronaldo, craque mais caro do esporte mais popular do mundo. A mulher do futuro também praticará esportes que hoje ainda não têm grande presença na mídia.

No mundo corporativo, terá as mesmas oportunidades que os homens. Daqui a 30 anos, o nascimento de uma menina será comemorado da mesma forma como é comemorado o nascimento de um menino em certos países. A mulher do futuro não será mais mutilada sexualmente. Para a sociedade do futuro, diferença sexual não será mais considerada diferença de destino.

A assertiva da antropóloga Carmen Rial, do Instituto de Estudos de Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pode ser analisada sob dois prismas: o otimista dirá que as conquistas futuras serão justas, resultado das lutas das mulheres de ontem e de hoje; para o pessimista, 30 anos é tempo demais.

Herdeira do feminismo

A advogada Andréa Ventura tem 36 anos e é casada há cinco com o empresário Eduardo Dutra, 35. Eles são pais de Manuela, dois, e de Pedro, cinco. Típico casal de classe média alta com teoria suficiente para fazer passar à prática a divisão de tarefas em casa, ela não é tão efusiva na defesa de uma mudança de comportamento de homens e mulheres.

? Para que a mulher do futuro possa ter as mesmas oportunidades dos homens, teríamos que quebrar alguns paradigmas agora, com a geração da Manu. Não é isso que estamos vendo acontecer. Estamos tentando, mas as meninas ainda vão levar para a vida adulta as diferenças na criação de hoje. Por que meu marido nunca faz a lista do supermercado, por exemplo? ? questiona.

Andréa é herdeira do feminismo, mas não se vê como uma feminista. Isso mostra que, meio século depois, o movimento social idealizado pelas barulhentas militantes nos anos 1960 mudou. Lutar pela igualdade entre os sexos parecia ser o futuro, mas o sentimento é de que algo se perdeu. Talvez porque nem sempre o que a mulher deseja é ser igual. Também porque, em tese, ninguém impede que a mulher priorize a carreira nem a obriga a ser a administradora do lar. É uma decisão individual ? e aí está o complicador.

Terceira Onda

Na internet, a mulher de hoje escreve compulsivamente sobre sexo e moda. São as integrantes do que alguns estudiosos do comportamento feminino classificam de Terceira Onda do Feminismo. Elas acreditam que ser feminista é sentir prazer no sexo sem compromisso com mulheres e homens e consumir de forma incontrolável. Será esse o futuro?

? A nova geração será o resultado disso. Essas jovens não precisaram ir para as ruas, mas sabem se manifestar e, se preciso, até usarão as antigas armas. Mas estão tentando inventar novas e descobriram que é muito melhor lutar politicamente tendo prazer do que sofrendo ? afirma a antropóloga Carmen Rial.

E os homens ? assim como este repórter ? acompanham a transformação das mulheres. Daqui a 30 anos, seremos a soma das características da mulher do futuro. Maridos lidando de uma forma menos neurótica com o envelhecimento e descobrindo juntos como tratar a vida sexual depois dos 60 anos.

Pais educando meninas a partir das premissas de uma sociedade igualitária, em que elas não precisarão temer retrocessos e que sejam responsáveis por suas escolhas. Que isso não leve três décadas para se tornar realidade.

:: Mais sensibilidade

Daniela Borth, 23 anos, vê a mulher daqui a 30 anos em cargos gerenciais de grandes empresas. Atualmente trabalhando como auxiliar administrativo em uma indústria de fundição de peças plásticas na cidade de Rio do Sul, onde mora, Daniela viaja quase 200 quilômetros a cada 15 dias para cursar MBA em Gestão Empresarial na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Única mulher em uma turma formada por engenheiros e administradores, ela colabora para melhorar a situação feminina em cursos de negócios. Donas de seis em cada 10 diplomas concedidos nos cursos de graduação, elas não chegam a formar 35% das turmas nas escolas de negócios do país.

Um ranking publicado em 2010 pelo jornal inglês Financial Times revelou que, em 75 programas considerados de elite no mundo, a participação feminina varia entre 7% e 39%. A explicação deve-se a dois fatores: alto custo e maternidade. No Brasil, as mulheres têm remuneração em média 30% menor do que a dos homens. E a média de idade de quem frequenta MBAs fica entre 30 e 35 anos, justamente o momento em que elas costumam definir se vão ou não ter filhos.

Daniela pretende ser mãe. Também prevê conciliar a criação das crianças com o trabalho:

? As mulheres são mais sensíveis, sempre daremos um jeito. Certamente sobrará um tempinho.

:: Excesso de cobrança

Para Sandra Rodrigues, 35 anos, a mulher do futuro será parecida com a mulher de hoje ? ainda em busca das mesmas oportunidades na carreira e de salários iguais aos dos homens. A principal diferença é que trabalhará ainda mais.

A rotina como gerente de Negócios na Brognoli Negócios Imobiliários inclui reuniões, relatórios e a responsabilidade pela gestão de uma das unidades estratégicas da empresa. Talvez esta seja a origem da análise realista de futuro.

Na pirâmide de ascensão profissional, Sandra já ocupa a parte mais estreita. Uma pesquisa realizada pela Academy of Management Perspectives com as mil maiores empresas norte-americanas revela que quase a metade delas não possui uma única mulher entre seus principais executivos. Entre as demais, 29% têm apenas uma na diretoria, e 23%, duas.

No Brasil, a situação das executivas não é muito diferente, embora o percentual de diretoras tenha dobrado na última década, registrando 11%, de acordo com levantamento do instituto Ethos.

Casada há nove anos e mãe de Pedro, cinco, Sandra também sofre com a dupla jornada. Mas se considera “sortuda”:

? Meu marido divide todas as tarefas domésticas comigo, desde antes do nascimento do Pedro. Mesmo assim, às vezes chego em casa e começo a arrumar as coisas antes mesmo de tirar o salto alto. Ele diz: “primeiro tire os sapatos!

Veja o especial ‘Mulher do Futuro’:

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