Transtornos de imagem crescem no verão: saiba como a identificar os distúrbios

Familiares precisam estar atentos aos sintomas

Considerada um problema psiquiátrico, a anorexia é um dos que mais matam
Considerada um problema psiquiátrico, a anorexia é um dos que mais matam Foto: Adriana Franciosi

A imagem do corpo extremamente magro da modelo e atriz francesa Isabelle Caro chocou o mundo em 2007. Isabelle, que havia entrado em coma um ano antes ao pesar 25 quilos ? ela media 1m65cm ? , tornou-se símbolo de uma campanha contra a anorexia. No ano passado, anunciou que chegara aos 42 quilos, mas acabou morrendo no dia 17 de novembro, aos 28 anos, o que só foi revelado em dezembro. O fato levantou novamente a polêmica sobre os transtornos de imagem relacionados ao perfil de beleza que nunca é atingido.

Considerada um problema psiquiátrico, a anorexia é um dos que mais matam ? de 20% a 25% dos casos resultam em falência do organismo. Uma boa parcela acaba em internação hospitalar e a maioria consegue conviver bem com a doença ao longo da vida. Assim, aconteceu com a jovem N.*, 20 anos.

Há cinco anos, após uma crise de fúria, precisou ser internada durante um mês. O ataque foi desencadeado depois que a mãe insistiu que a filha comesse uma fatia de bolo. Após receber alta, precisou tomar cinco tipos diferentes de remédios para aplacar a ansiedade e a depressão.

? Em momentos de crise, cheguei a beber xampu para vomitar. Queria parar de me sentir gorda, nojenta. Me chamavam de esquelética, mas a imagem que eu via o espelho refletir era de uma obesa ? conta a jovem, que cursa Nutrição e mora em Canoas.

Medindo 1m58cm, a jovem chegou a pesar 35 quilos. Hoje mantém 43 quilos. Não era o caso de abrir o apetite. Fome ela tinha de sobra. O fato é que se sentia impotente diante de um prato de comida.

? Eu ficava nervosa, as mãos suavam. Isso era pior diante de outras pessoas. Parecia que todo mundo estava me olhando e me julgando. Eu queria comer, mas não conseguia.

A dificuldade em lidar com a comida se desenvolveu na garota por volta dos sete anos, mas foi aos 13 que se tornou mais problemática. Depois de meia década com a doença adormecida, a relação com o alimento mudou bastante, mesmo assim é uma luta diária para não ter recaídas.

? Amo estar viva e comer é algo necessário. Me sentia muito mal ter tanta gente morrendo de fome e eu com essa “doença de rico”? afirma.

A doença da jovem de Canoas preocupa os especialistas e já está se tornando uma epidemia, que tende a aumentar no verão, conforme a psicóloga e terapeuta familiar Ieda Zamel Dorfman. Se antes o descaso com o alimento e a rebeldia dos adolescentes eram vistos como “coisas da idade”, de alguns anos para cá, vem deixado o meio médico em alerta.

? Os pais precisam ficar mais atentos ao comportamento dos filhos. Assim que notarem qualquer sinal do problema devem buscar um especialista e impedir que a doença fique incontrolável. Doenças como essas não são aceitas pela sociedade, mas é o paciente quem menos aceita ? diz a endocrinologista Patrícia Santafé.

*Os nomes foram omitidos a pedido dos personagens

Saiba quem é

A modelo e atriz francesa Isabelle Caro causou polêmica ao posar nua, em 2007, para uma campanha contra a anorexia, mostrando seu corpo devastado pela doença. Isabelle havia sido hospitalizada devido a problemas pulmonares e, segundo amigos, estava bastante fraca. A imagem de seu corpo extremamente magro, feita pelo fotógrafo Oliviero Toscani ? conhecido por suas ideias provocadoras e pelos anúncios da grife Benetton ? para uma campanha organizada pela marca de roupas italiana No- I- ita, rodou o mundo e incitou amor e ódio de diversos segmentos. Na época, Isabelle explicou que tinha aceitado posar para alertar as jovens sobre o perigo das dietas, da ditadura da moda e da anorexia. Ela morreu no dia 17 de novembro, aos 28 anos.

Fique por dentro de…

… ANOREXIA

Fatores desencadeantes

? Baixa autoestima: paciente se acha muito gorda, começa a emagrecer e não sabe a hora de parar.

? Desilusão amorosa: o namoro terminou e ela começa a achar que é porque está gorda e se emagrecer vai se tornar mais atraente.

? Adolescentes em busca da beleza definida pela sociedade

Características da doença

? Atinge a faixa etária entre os 11 e 18 anos, mantendo uma média de 10 meninas para um menino.

? Magreza extrema. A doença se manifesta aos poucos no cérebro, e a paciente chega a perder mais de 10 quilos em três meses.

? O problema não é a ausência de fome, mas sim o pavor de se alimentar e engordar.

? A visão fica distorcida com relação à imagem diante do espelho. Quanto mais emagrecem, mais acham que estão gordas.

Atenção aos sinais

? Deixam de comer. Sempre que chamados para uma refeição, dão alguma desculpa ou mentem que comeram na casa de um amigou ou no colégio.

? Ficam irritados com frequência e sempre acham que as pessoas estão contra ele.

? Não querem mais participar de atividade familiar e se afastam dos amigos.

? Optam por roupas largas para disfarçar a perda de peso.

? Começam a adotar estratégias para provar que estão se alimentando, como cozinhar. Passam a preparar refeições em demasia e a oferecer para a família, mas não comem.

? Diminuição importante da ingestão de líquidos

Tratamento

? O primeiro passo é fazer com que o paciente ou familiares identifiquem os sintomas.

? Somente um grupo formado por psicólogos, psiquiatras, nutricionistas, endocrinologistas e terapeutas familiares pode ajudar a reverter o transtorno.

? Como os viciados em drogas, os anoréxicos estão sempre sujeitos a recaídas. Por isso, o acompanhamento médico deve ser constante.

? Internação hospitalar é necessária em casos de extrema desnutrição.

Consequências

? A perda exagerada de massa óssea por conta do déficit alimentar pode levar à osteoporose precoce.

? A ausência de nutrientes no organismo pode provocar atraso na menstruação. Interfere na fertilidade.

Dicas para a família

? Mantenha horários para as refeições e organize para que todos compareçam e se sentem à mesa.

? Fique atento aos sinais. Como são confundidos com características da adolescência, muitos pais não dão a devida atenção.

? Tente manter o diálogo e arrume meios de reforçar a autoestima do seu filho. Dizer coisas do tipo “como essa roupa ficou bem em você” ou “como você está bonita hoje” são algumas das dicas.

? Procure ajuda assim que desconfiar do comportamento do seu filho em relação à comida. Quanto mais cedo chegar a ajuda médica, mais fácil é para contornar a doença.

? Provavelmente, seu filho não aceitará que tem algum problema. Insista sem conflitos. Lembre-se: ele não acredita que esteja doente e não se enxerga magro como você o vê.

… BULIMIA

Fatores desencadeantes

? Perdas ? separações, mudanças e outros fatores estressantes para a paciente e/ou para sua família

? Ansiedade

Características da doença

? Compulsão alimentar: a pessoa come mais do que o normal e de maneira voraz.

? Para compensar o descontrole e prevenir o aumento de peso, induz o vômito, abusa de laxantes e diuréticos.

? Preocupação excessiva com a forma corporal e o peso.

? Trata-se de um círculo vicioso, geralmente desencadeado pelo sentimento de baixa auto-estima.

Atenção aos sinais

? Atos exagerados como devorar uma torta inteira ou comer um prato de feijão com arroz no meio da tarde às escondidas.

? Idas imediatas ao banheiro após as refeições para vomitar.

? Queixas constantes de dores no estômago ou na garganta.

? Mudança de humor e irritabilidade, como choro e raiva constantes.

? Inchaço entre o rosto e o pescoço.

? Calosidades nos dedos podem ser um indício de que a pessoa está provocando o vômito.

? Obsessão por exercícios físicos.

Consequências

? Deterioração dos dentes: o vômito tem ácido que compromete o esmalte dos dentes, podendo resultar, inclusive, em cáries

? Gastrite

? Dores de garganta

? Problemas no esôfago, resultado do refluxo do conteúdo do estomago durante os vômitos

? Síndrome de intestino irritável (tem como sintomas dor e distensão abdominal e há um aumento no número de evacuações e amolecimento das fezes).

? Desidratação como consequência do uso de medicamentos como diuréticos

… VIGOREXIA

Fatores desencadeantes

? Baixa autoestima e fragilidade emocional

Características

? Faz parte de um subtipo do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), chamado de Transtorno Dismórfico Corporal.

? Em geral, é o personal trainer quem encaminha o paciente para o tratamento, mas a família deve estar atenta aos sinais de obsessão.

Sinais

? Por mais musculoso que seja, o indivíduo se olha no espelho e enxerga alguém fraco, magro demais.

? Uso de qualquer produto para conquistar a forma física almejada, como anabolizantes e medicamentos veterinários injetáveis, prejudiciais à saúde.

? A vida social e profissional começa a ser afetada, e o paciente tem dificuldade para dispensar energia em outro foco que não seja a malhação.

? O máximo de tempo do dia é gasto com malhação.

? Se isola na academia para conseguir o que ele quer com o corpo.

? Se olha pelo menos seis vezes por dia no espelho.

Tratamento

? Terapia e uso de antidepressivos que repõem a transmissão de serotonina no cérebro.

Consequências

? Exigem demais do coração e também de outros órgãos vitais, podendo desencadear problemas crônicos, como cardiopatias.

? Ansiedade generalizada.

? Insônia.

? Depressão.

? Déficit de atenção.

Dicas

? O excesso de malhação pode causar problemas na musculatura, por isso é bom sempre ter um ortopedista de confiança a quem consultar.

? Procure um especialista e fale sobre as suas angústias para entender o motivo que faz com que os músculos sejam tão importantes para você.

Fontes: Ieda Zamel Dorfman, psicóloga e terapeuta de família, e Patrícia Santafé, endocrinologista (para bulimia e anorexia) e Elisabeth Meyer, terapeuta comportamental, e Willian Gunningham, professor da Faculdade de Psiquiatria da Universidade Federal da Bahia (para vigorexia).

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