Treino para o corpo e para o espírito, yoga se ramifica em centenas de modalidades

Como identificar a linha mais adequada às necessidades de cada um

Mulheres acima de 45 anos são as que mais notam mudanças, diz estudo
Mulheres acima de 45 anos são as que mais notam mudanças, diz estudo Foto: Guto Kuerten

Há uma imagem clássica que surge na mente sempre que a palavra ioga é pronunciada: de olhos fechados, com um semblante de quem alcançou um novo patamar de percepção, surge um ser humano em posição de lótus, sentado com as pernas entrelaçadas sem aparente dificuldade e mãos levemente posicionadas nos joelhos. Não deixa de ser uma imagem correta, mas faz bem pouco jus a tudo que essa prática milenar pode oferecer.

A impressão equivocada é reforçada pelos milhares de anúncios de nirvanas de boutique que circulam por aí. Para evitar confusões, é útil se familiarizar com o assunto.

– Toda prática de ioga busca o autoconhecimento. Antes os professores apontavam para os benefícios físicos apenas. Geralmente isso acontece, mas esse não é o objetivo – explica o instrutor Ricardo Sousa, que leciona o hatha yoga.

Apesar das centenas de estilos catalogados ? Ricardo diz que existem cerca de 400 ?, todos eles levam à mesma direção: equilíbrio entre corpo e mente.

Como as várias modalidades trabalham com posições idênticas, a escolha depende do que o aluno espera alcançar.

– Geralmente as posições são iguais. O que vai mudar é a abordagem que cada professor dá à prática que leciona – garante Helton Alves de Azevedo, instrutor de hatha yoga.

E, é bom lembrar, cada indivíduo reage de forma diferente aos estímulos.

Os neófitos não devem se assustar com as numerosas ramificações, afinal, ioga é prática. Mas convém saber qual filosofia está na base dos exercícios. Como uma árvore, a ioga se expande a partir de quatro raízes ? duas consideradas teóricas (o sámkhya e o vêdánta) e as chamadas comportamentais (o tantra e o brahmáchárya).

– O aluno deve saber que a escola em que ele se matricula já detém um direcionamento a partir dessas filosofias – esclarece Ricardo Sousa.

É a mistura dessas matrizes que moldará o estilo de cada centro de estudos.

O sámkhya é naturalista, ou seja, interpreta os fenômenos da ioga como parte da natureza, sem méritos de divindades.

– Como essa teoria é especulativa, muitos sentem a falta do misticismo, que existe no vêdánta, que é a raiz mais espirtualista – diz Helton Azevedo.

Essa crê no divino como explicação última do universo.

Segundo os instrutores Ricardo e Helton, são essas as duas raízes que fazem a diferença entre aulas mais focadas no esforço físico e aquelas em que a devoção é evidente. Já entre as linhas comportamentais, destaca-se o tantra. Pautado pelo matriarcalismo e pela sensorialidade, ele reserva à mulher um papel privilegiado na cadeia familiar, cultivando a sexualidade plena, sem culpa ou malícia. O brahmáchárya, seu oposto, não admite que o poder seja centrado no feminino nem aceita o prazer, a liberdade e a sexualidade como forma de iluminação.

Filosofias complementares

As chamadas raízes da ioga (que significa “poder”, em sânscrito) correspondem a verbos fundadores. Sámkhya é saber; vêdánta é crer; tantra, sentir e brahmáchárya, dominar. A ioga é puramente técnica, o veículo dessas filosofias. Assim, cada instrutor pode lançar mão de uma “qualidade” diferente de ação para direcionar os ensinamentos.

O cruzamento das raízes dá origem aos troncos: tantra-sámkhya, brahmáchárya-sámkhya, brahmáchárya-vêdánta e tantra-bêdánta.

– O autoconhecimento se manifesta por meio da técnica que será empregada. Por isso, a escolha deve ser bem pensada – adverte o instrutor Ricardo Sousa.

A partir desses troncos florescem as modalidades da ioga, cujos ramos principais são oito. Cada um enfatiza diferentes aprendizados e implica em estilos de vida para o seguidor.

– O aluno deve conversar com o instrutor sobre qual objetivo pretende alcançar e, a partir daí, saber qual modalidade é melhor para ele – explica Felipe Alves, especialista em iogaterapia.

Bem-estar sem restrições

A ioga também é democrática e, por deter tantas ramificações, consegue atender aos iniciantes e avançados de forma satisfatória. Felipe Alves garante que é comum agregar em suas aulas praticantes que acabaram de começar com outros que já estão na ioga há muito tempo.

– Tenho jovens e idosos na mesma turma e eles conseguem alcançar suas metas.

Ele é professor de iogaterapia, que agrega conceitos filosóficos de linhas diversas, como hatha yoga e karma yoga, e diz que, apesar das técnicas, a ioga é um processo muito adaptativo, que permite a participação de pessoas com perfis físicos variados.

As modalidades principais e suas indicações

:: Ashtanga yoga
O método interliga posturas em um fluxo contínuo de movimento e respiração, que é a espinha do ashtanga yoga. Por meio do respirar, o praticante consegue interiorizar a atenção e aquieta a atividade mental, em direção a mais tranquilidade e pacifismo.

:: Hatha yoga
Essa modalidade é origem de muitas outras e, apesar de ter o condicionamento físico com um dos principais meios de obtenção do autoconhecimento, não se retringe a ele. A prática melhora o condicionamento, a força e a flexibilidade, além de ajudar na capacidade de concentração.

:: Kundalini yoga
A chamada ioga da consciência tem práticas que fortalecem, alongam e relaxam a musculatura e todo metabolismo. Ajuda no aumento da capacidade respiratória e estimula uma harmonia entre os sistemas nervoso e glandular, em sintonia com os chakras. Acredita-se que seu propósito terapêutico ajuda a curar o corpo rapidamente, ao estimular o sistema imunológico e abrir os centros que regem a mente e o espírito.

:: Yoga clássico
A prática se vale de uma vivência baseada em princípios de comportamento que envolvem o social, práticas de controle do corpo, energia pessoal e da mente, visando a liberdade, respeito a vida e o convívio em harmonia com tudo o que está ao redor.

:: Yoga pré-clássico
Baseado em estudos arcaicos da ioga, tem nos ensinamentos sensoriais tântricos a sua base. Pretende desenvolver o autoconhecimento através da consciência corporal, em uma integração entre a harmonia de corpo, mente, coração e alma.

:: Power yoga
Ramificação do hatha yoga, mistura movimentos fortes com respiração dinâmica, combinando posições da ioga com exercícios físicos.
Os praticantes são aqueles que buscam treinos mais intensos, aumentando a força, a resistência e a flexibilidade.

Leia mais
Comente

Hot no Donna