Triatleta e ultramaratonista conta por que se tornou vegano

Daniel Meyer diz que sua consciência não lhe permite viver de outro modo

No último domingo, Daniel fez o seu melhor tempo em um Ironman
No último domingo, Daniel fez o seu melhor tempo em um Ironman Foto: Arquivo pessoal

Uma das ressalvas mais ouvidas por veganos diz respeito à ingestão de proteínas e que isso seria prejudicial à saúde. O fato é que, na maior parte das vezes, comer carne não se dá exatamente por causa dessa preocupação. As pessoas comem carne porque gostam. Para um atleta, no entanto, a falta de nutrientes pode, sim, ser determinante. Afinal, a sua saúde é seu ganha-pão: as decisões à mesa precisam ser muito conscientes.

Na entrevista abaixo, Daniel Meyer conta por que se tornou vegano e como isso não o limita como atleta. Pelo contrário. Ele atribui sua disposição justamente ao cuidado que tem com a alimentação. E que disposição: o Daniel é triatleta e ultramaratonista. No domingo passado, dia 29 de maio, em Jurerê/Florianópolis, ele fez o seu melhor tempo em um Ironman (3.8km de natação + 180km de ciclismo + 42,1km de corrida): 9h28min40s. Mas ele garante:  “Sou vegano, porque minha consciência não me permite viver de outro modo”.

Donna: Você é vegano desde quando? O que o motivou a ser?
Daniel:   Sou vegano desde 2005. No início, o que me motivou foi simplesmente a dieta vegetariana. A filosofia vegana eu nem conhecia naquela época. Foi também em 2005 que comecei a treinar triathlon e participar de ultramaratonas, por conta disto, eu estudava muito sobre nutrição, com a finalidade de otimizar ao máximo minha saúde e desempenho esportivo. Quanto mais eu estudava sobre nutrição, mais eu percebia que os alimentos de origem animal eram totalmente dispensáveis. A partir daí, não demorou muito para eu tomar conhecimento da filosofia vegana e descobrir todas as atrocidades que estão envolvidas na indústria de produtos de origem animal.
Resumindo, eu cheguei ao veganismo buscando melhorar minha saúde e desempenho esportivo, mas me mantenho vegano hoje, por motivos éticos, o benefício que uma dieta vegana pode me prover é secundário para mim. E, sinceramente, não acredito que alguém possa se manter vegano uma vida inteira por algum outro motivo, que não seja a compaixão por seres que assim como nós, são capazes de sofrer. Eu sou vegano, porque minha consciência não me permite viver de outro modo, sou vegano, porque é possível! Estudei e, descobri que para viver bem não precisamos derramar sangue, nem causar dor.

Donna: Como foi a mudança de hábitos?
Daniel: Não posso dizer que foi de um dia para o outro, mas foi um processo bem rápido, pois, a partir do momento em que me convenci de que os produtos de origem animal não eram uma necessidade, mas sim um luxo completamente dispensável, para mim, foi imprescindível mudar. Não poderia mais conviver comigo mesmo sabendo o que sabia e ao mesmo tempo ajudar a perpetuar o mesmo mercado que eu condenava. Minha mudança de hábitos foi rápida, mais foi muuuuuuuito difícil, foi uma batalha dura, árdua, entre o que eu era e o que queria ser. Mas, o que eu desejava ser venceu.
Foi difícil porque eu me alimentava da pior forma possível, tive que abandonar tudo aquilo que eu mais gostava, ou melhor, tudo aquilo que fui condicionado a gostar. Vencido o condicionamento, hoje não vejo dificuldade alguma em ser vegano.

Donna: Como atleta, que precauções tomou no sentido de não perder nutrientes importantes pra um atleta?
Daniel: O veganismo entrou em minha vida praticamente na mesma época que o triathlon e as ultramaratonas. A precaução que tomei foi a seguinte: estudar sobre nutrição! Se todo atleta estudar um pouco de nutrição, verá que é tudo muito simples. A dieta vegana não tem segredo, minha dieta hoje é bem simples, balanceada e barata. A informação e o conhecimento estão ao alcance de todos, só não busca quem não quer. Sou contra esta má vontade das pessoas em tomarem as rédeas da própria vida, sou contra as pessoas pagarem para conquistarem um corpo e mente saudáveis, quando podemos, nós mesmos fazer tudo isso.

Donna: Qual seu melhor tempo em ironman?
Daniel: Esta pergunta eu respondo com muito orgulho. Meu melhor tempo em Ironman é 9h28min40seg, obtido neste último domingo (dia 29). Para quem é leigo no assunto, este tempo não significa nada, mas para quem está envolvido com o Ironman, sabe que é um excelente tempo, foi o 62º melhor tempo entre mais de 1.800 atletas vindos de diversos países. Para você ter uma ideia, a 62ª colocação em qualquer prova de Ironman, eu considero mais importante do que os  primeiros lugares que já conquistei em ultramaratonas. No Ironman  o nível técnico é muito alto, pois é uma seletiva para o mundial, no caso do Ironman Brasil, é a única seletiva Sul Americana. Fiquei muito contente com meu desempenho e tenho certeza que posso vir a baixar de 9 horas e me colocar entre os 10 melhores desta competição de nível internacional. Ainda sou novo neste esporte, apenas 6 anos de triathlon, quando a maioria dos 20 primeiros atletas em um Ironman tem entre 10 e 20 anos de esporte.

Donna: Os triatletas que conheço se preocupam muito com a reposição/ suplementação. E falam muito de proteína, de suplementos proteicos e tal. Como você faz? Que produtos veganos usa nesses momentos?
Daniel: Hoje em dia não utilizo nem um tipo de suplemento com exceção à vitamina B12. Acredito que os suplementos podem ajudar sim dependendo do caso, mas o foco maior deve ser sempre uma rotina alimentar variada, que consequentemente será balanceada e fornecerá tudo que precisamos, quanto comer de cada alimento, é algo que cada um pode descobrir sozinho se parar para ouvir o próprio corpo. Durante treinos e provas longas, eu costumo utilizar isotônico caseiro (açúcar, água, sal e suco de limão), melado, banana passa, uva passa, figo seco, etc. No meu dia a dia os alimentos que estão sempre presentes são: banana, aveia ou granola, laranja e pão, estes não faltam nunca! Todos os outros variam bastante, como: todo tipo de fruta, legumes e verduras, arroz, feijão, grão de bico, lentilha, mandioca, batata, leite de soja, hambúrguer de soja, linhaça, castanhas, banana passa, uva passa e, os pratos feitos por mim e minha esposa, como: queijo vegano, pizza, lasanha, macarronada, bolo, torta, entre outros. Como você pode ver eu vario muito, porém, meu café da manhã é sempre o mesmo, a “tigela de campeão”, que nada mais é do que uma tigela com banana amassada, aveia, canela em pó, uva passa, linhaça triturada e castanha do Pará, sempre acompanhada de pão integral.

Donna: Fora da questão “esportiva”, atlética, como vc leva a sua vida, já que veganos não utilizam nenhum produto de origem animal, valendo para roupas, produtos de casa e etc.
Daniel: Eu escolhi levar uma vida bem simples, decidi morar em uma cidadezinha litorânea bem tranquila (fora de temporada) com uma natureza exuberante. Aqui eu passo a maior parte do tempo descalço, sem camisa e de sunga ou short, minha pista de corrida são as trilhas e a areia da praia, minha piscina é o mar e, as ruas e estradas são onde pedalo. As últimas roupas que comprei foram para a prática do triathlon e mesmo assim, nos últimos três anos comprei apenas três peças. Nem me lembro a última vez que comprei roupas “normais”. Para ser sincero, acredito que a quantidade de roupas que possuo hoje  serão suficientes para o resto da minha vida. Posso dizer que somente compro roupas específicas para o esporte que pratico, neste caso são sempre sintéticas.
Quanto aos produtos de limpeza, ainda deixamos a desejar. Apesar de comprarmos somente o necessário, a maior parte dos produtos  de limpeza, temos comprado sem critério. Há algum tempo que eu me cobro uma mudança neste aspecto, eu apenas observo os rótulos procurando algum ingrediente de origem animal na composição do produto e observo se a marca está presente na lista de empresas que não testam em animais, porém, nunca entrei em contato com o SAC das empresas. Mas quero mudar isso o quanto antes. Uma  observação deve ser feita: em minha cidade a oferta de produtos é bem restrita, não possui a variedade dos grandes centros, o que torna difícil, muitas vezes, encontrar algum produto de higiene ou de limpeza que possa ser considerado vegano, de qualquer forma isto não é desculpa.
Os únicos eventos dos quais participo, são competições esportivas, onde geralmente é oferecido um jantar de massas em que  raramente costumo participar, sempre levo minha comida de casa para as competições e se tiver que passar um fim de semana  inteiro, sem comer uma refeição quente, eu passo sem problema.
Eu e minha esposa nunca vamos a festas ou baladas e também nunca comemos fora, sempre que queremos comer algo especial nós mesmos preparamos em casa. Também não participo de eventos familiares, a não ser que um almoço de domingo signifique  um evento familiar, neste caso, toda minha família adere a uma refeição vegana, na verdade todos adoram nossa comida, só meu pai que não gosta de soja texturizada, minha mãe já sabe fazer altos pratos veganos e minha irmã ama a comida que minha esposa faz.
Depois que eu e minha esposa nos tornamos veganos, o consumo de alimentos e todo tipo de produto de origem animal da minha família reduziu drasticamente.

Donna: Qual a parte mais difícil de se tornar vegano? E qual a parte mais recompensadora?
Daniel: O mais difícil de ser vegano é saber que a morte e a tortura de animais dóceis e indefesos, não ocorre por necessidade, mas por pura futilidade humana, e que, algumas das pessoas que você mais ama, apesar de concordarem com você, continuam contribuindo com o derramamento de sangue inocente.
A parte mais recompensadora é poder estar em paz com a sua consciência, com você mesmo. É saber que apesar de todo o ondicionamento imposto pela sociedade, você foi capaz de pensar diferente e teve força de vontade suficiente para mudar e abrir mão de antigos vícios em nome de algo em que você realmente acredita.

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