Turma de meninas dedicada às histórias em quadrinhos desponta em Porto Alegre

Apesar do mercado editorial tímido, elas não param de desenhar

No andar de cima, Samanta Flôor e Mauren Veras. No andar de baixo, Chiquinha e Ana Luiza Koehler (cabelo curto)
No andar de cima, Samanta Flôor e Mauren Veras. No andar de baixo, Chiquinha e Ana Luiza Koehler (cabelo curto) Foto: Júlio Cordeiro

Os traços comuns das garotas são a pouca idade, entre 20 e 30 e poucos anos, a formação em Jornalismo e Arquitetura. Elas ainda são gaúchas e o mais determinante: apesar do mercado editorial tímido, não param de desenhar. As quatro garotas enquadradas na foto acima são parte representativa desta turma feminina.

– Sinto que no Brasil, muitas vezes, quadrinho é identificado para criança. Há ainda dificuldade para alcançar um público maior. O preço das publicações, com os impostos, torna tudo muito caro – diz Ana Luiza Koehler.

Pode até ser, mas a tecnologia está atirando estas artistas em outro mercado – de infinitas possibilidades – por meio da rede mundial de computadores. Todas têm blogs, ou postam suas tirinhas, HQs, histórias em quadrinhos (nomes mais conhecidos) em sites coletivos. Foi assim que Ana viu seus desenhos zarparem da mesa em que desenha em Porto Alegre direto para uma editora na França.

– Recebi um e-mail de dois roteiristas belgas que viram meu trabalho em um site francês. Eles mandaram o projeto de uma primeira história e acertamos _ conta.
Simples assim, sem nem mesmo conhecer os roteiristas, Ana dedicou-se a traçar e colorir Awrah, La Rose des Sables. Foi um trabalho detalhado até concluir o livro de 54 páginas já à venda na França e no site Amazon.com. O contrato dela prevê um segundo volume. Ser publicada em solo francês é feito grande, é um dos mercados mais respeitados.

Quem também já deslanchou editorialmente é Chiquinha, nome artístico de Fabiane Bento. Ela conquistou seu lugar publicando em revistas e jornais, como Folha de S.Paulo, Bravo e Gloss.

– Cresci lendo Angeli por influência dos meus irmãos. Essa era a minha linguagem. No colégio, tudo o que eu desenhava eu colocava um balãozinho –  diverte-se Chiquinha.
Valeu a pena a influência dos irmãos. Chiquinha é tida até pelos colegas mais experientes como um dos exemplos bem-sucedidos da nova geração no país.

– Ela é nosso Angeli de saias – brinca Leandro Bierhals, presidente da Grafar (Grafistas Associados do Rio Grande do Sul), a associação que reúne cartunistas, chargistas, quadrinistas, ilustradores.

– Desenho toda a minha vida, nunca parei – diz Chiquinha. – Aqui no Sul tem uma turma grande. Um exemplo mesmo é a Grafar. Nas reuniões, o pessoal mais experiente dá uns toques, dicas de quem já enfrentou o mesmo problema que a gente.

As reuniões as quais Chiquinha se refere são encontros semanais, terças-feiras à noite no bar Tutti Giorni (escadaria do Viaduto da Borges de Medeiros, em Porto Alegre) –tradição desde os anos 90.  Chiquinha, dona de um um humor mais picante em suas histórias, é frequentadora do bar em que os trabalhos de artistas plásticos e gráficos formam a decoração.

Samanta Flôor, 29 anos, também vai aos encontros da Grafar. Ela acaba de publicar de forma independente o gibi Toscomics, cuja personagem principal é ela mesmo.

– Minha personagem vive rindo da própria cara – diverte-se.

Samanta, que é formada em arquitetura, conta que quando está com a mãe ela a apresenta aos amigos como arquiteta e não como quadrinista.

– Se diz qua-dri-nis-ta as pessoas  sempre perguntam: “Quadri… o quê?”.

A maneira que ela brinca sobre a mãe é como a personagem Samanta aparece, rindo dela mesma, na sua revistinha. O desenho é singelo, lembrando traços de criança, e pode ser comprado pelo seu blog. Outro trabalho da garota são as ilustrações da revista Atrevidinha.

Vender pela internet também foi um empurrãozinho para Mauren Veras. Ela começou a desenhar tirinhas (prefere às HQs) inspirada pela Tiras do Bruno, trabalho de um amigo.

– Fiquei encantada qua numa tirinha pode-se ter a capacidade de ser simples, engraçado, mesmo com um desenho sem requinte, tosco – explica Mauren.

Como Bruno, o das tirinhas, vivia em uma ilha, Mauren criou a personagem Nina, que vivia em um barco à procura dele. Mauren também partiu para um humor mais direto e criou nova tirinha, batizada de Reginaldo, o pinto. De brincadeira, rabiscou Reginaldo, o personagem, em um chinelo de borracha e postou no seu blog. A peça customizada agradou um inglês e por e-mail oficializaram a compra.

– Quadrinhos era algo um pouco limitado a um Clube do Bolinha, só homens. Mas agora, assim como aconteceu com a argentina Maitena e a iraniana Marjane Satapri, as mulheres estão despontando no Brasil também – diz o presidente da Grafar.

Outro que faz coro ao bom momento das quadrinistas gaúchas é Marko Ajdaric, editor da newsletter  Neorama, dedicada aos quadrinhhos.

– Nossas gurias têm se destacado muito. Não vejo em outra cidade uma turma com tanto potencial.

Para não dizer que a coluna não deu uma colher de chá para os homens,  a boa notícia é que volta ao mercado, depois de 17 anos, a revista Picabu. Com 12 história, a independente Picabu ganhou lançamentos em São Paulo e Buenos Aires. Adeus, Tia Chica!, outra novidade das independentes gaúchas, está à venda desde junho com criação de oito artistas.

As artistas publicam suas histórias em quadrinhos no Exterior e no Brasil.
Em
www.zerohora.com/blogdafernada você encontra os links para conhecer mais sobre as quadrinistas gaúchas.

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