Um passeio pela sedutora Buenos Aires

Na megalópole de vida cultural intensa há sempre o que ver e descobrir

Vista de Buenos Aires, às margens do Rio da Prata
Vista de Buenos Aires, às margens do Rio da Prata Foto: Sec. de Tur. de Buenos Aires

Não tem crise econômica que tire de Buenos Aires o posto de cidade sedutora e orgulhosa, quase pedante. Na megalópole de vida cultural intensa há sempre o que ver e descobrir depois de programas obrigatórios listados por todos os guias turísticos. Depois de constatar que os portenhos de meia idade seguem com as conservadoras melenas roçando os colarinhos, que as cafeterias vivem cheias, mas o que salva são as media lunas porque o café não é grande coisa, alguém ainda poderá se surpreender que restaurante nenhum inclua na conta a gorjeta como obrigatória. Esta é uma prerrogativa do cliente que pagará pelo serviço se considerar justo. Ainda se pode descobrir o mais recente apelido da primeira mandatária do país, “La reina Cristina”, batizada pelo olhar irônico da população. E ninguém se surpreenda, os punguistas seguem no centro da cidade, ávidos por turistas despreocupados.

Palácio Paz

O Palácio Paz não aparece em roteiros turísticos e reportagens que destaquem as atrações de Buenos Aires, mas vale, e muito, a visita. Localizado na Avenida Santa Fé, a poucos metros da Florida e em frente a Praça San Martin, é a atual sede do Círculo Militar e abre as portas aos visitantes às 11h e às 15h para visitas guiadas. Construído pelo proprietário do jornal La Prensa, José Paz, nos primeiros anos do século 20 para ser a residência de sua família, é considerado o mais rico e belo palácio da Argentina, no discurso da orgulhosa guia. São quatro pavimentos, dos quais apenas o primeiro será mostrado. Ainda assim, pode-se ter uma ideia da fortuna despendida ali e do requinte exigido pelo proprietário aos arquitetos franceses. Com pretensões políticas, Paz almejava a presidência da República e antes mesmo de lançar-se a uma campanha construiu o próprio palácio. O prédio, cujo projeto foi trazido da França, onde o proprietário viveu como embaixador da Argentina por alguns anos, ocupa quase uma quadra. Inspirado em castelos franceses, da fachada aos salões de recepção, o Palácio Paz é um eclético mostruário do estilo francês de diferentes épocas.

“Perdicion” na porcelana

Prova incontestável de que os argentinos preservam com fervor seu passado de riqueza está plantada ali em pleno bairro Recoleta. O Alvear Palace Hotel, fundado para receber europeus ricos que descobriam a Argentina na década de 30 do século passado, é um dos destinos mais estrelados para quem busca hospedagem de luxo. À maioria dos turistas, entretanto, o hotel octogenário oferece uma provinha deliciosa, com toda a fidalguia que, acredite, os portenhos são capazes. O chá da tarde, servido de segunda a sábado, a partir das 16h40, é um passeio pelo requinte do passado por cerca de US$ 50 por pessoa. A garçonete, uniformizada até as luvas, prova em poucos minutos que a excelência do serviço se equipara às iguarias servidas. O cardápio impresso oferece o melhor da pâtisserie, entre tarteletes de frutas, doces delicados, pequenos sanduiches, pãezinhos amanteigados escoltados por geleia de framboesa, de laranja e um inesquecível creme de limão siciliano. Tudo acompanhado por uma carta de chás de blends especiais, brancos, verdes e frutas que desfilam na linda porcelana exclusiva do Hotel e pelo serviço de prata tradicional. Para finalizar, mais de uma dezena de tortas milimetricamente dispostas em um carrinho de apoio, estão à escolha. A Alvear, mil folhas crocantes e leves, recheada de doce de leite e nata batida, é o orgulho da casa.

O sorriso cúmplice da garçonete, quase informal, é seguido pelo tom teatral: “Es una perdicion”. Mais uma vez, a qualidade prometida é entregue, mas ninguém se perde no aristocrático Alvear, apenas viaja por algumas horas em um ambiente de luxo e bom gosto.

Siga o rebanho

A fama é justa e não há razão para fugir ao melhor que a Argentina produz para colocar no prato, a carne. Um rebanho aprimorado desde sempre e cortes que destacam ainda mais a maciez garantem o sabor insuperável do bife de chorizo (miolo do contrafilé), do ojo de bife (a parte redonda da ponta do contrafilé) e dos assados. E como os portenhos sabem de tudo isso, o melhor é imitá-los e frequentar os mesmos restaurantes, que são muitos. Em pelo menos dois deles não se encontrarão turistas, apenas os nativos, e a carne tenra e saborosa da qual eles tanto se orgulham. O restaurante Fervor (Calle Posadas, 1519, Recoleta) é um que os portenhos enchem no sábado à noite. Uma fachada simples abre-se para bar e salão amplo, com mezanino sustentado por trilhos. As paredes de espelhos bisotê e piso de ladrilho hidráulico são o cenário onde atuam garçons atenciosos. A carta de vinhos privilegia os bons da terra e o cardápio surpreende com a variedade de carnes, peixes ou frutos do mar. Vai tudo para as brasas mesmo. Um bife de chorizo, que pode atingir até 600 gramas, é a pedida que pode ser compartilhada. Sem reserva de mesa, o melhor é chegar cedo, à hora em que a casa abre, 20hs. Em pouco tempo, estará lotado.

Sant Telmo é bairro mais conhecido pelos antiquários e pela feira de quinquilharias aos domingos que enche praça e ruas com milhares de portenhos e forasteiros. Mas lá também há ótimos e reconhecidos restaurantes. A Gran Parrila Del Plata (Calle Chile, 594) foi no passado um açougue, estão lá os ganchos das carnes, os azulejos nas paredes, a imensa serra que esquartejava as reses como prova e decoração. O ambiente simples e acolhedor ganha o tom informal do vozerio de famílias inteiras que vão até lá para comemorações. Não dá para se intimidar diante do cardápio, que indica o peso das porções de carnes que podem chegar a 500 gramas. Um corte de bife de chorizo, grelhado e suculento ao ponto, não é muito quando é tão bom.

Argentina pura

É produzida na Argentina a maior parte das peças de vestuário feminino ou masculino de inverno que se encontra em lojas de centros de compras como Patio Bulrich ou Galerias Pacífico. A etiqueta “Indústria Argentina” acompanhada, quase sempre, de “Pura Lana” está presente na maioria dos casacos 7/8, mantôs, blaiseres, jaquetas, saias e calças. Também lá se encontra a levíssima e macia lã de alpaca, do Equador ou do Peru, em roupas bem cortadas e acabadas pela indústria de confecção argentina. Praticamente tudo por preços menores comparados aos do Brasil e facilmente suportados por bolsos médios. Se os novos estilistas de Palermo Soho oferecem uma moda jovem, e por vezes de gosto duvidoso, o melhor mesmo ainda está na moda bem comportada que a argentina sabe fazer. Se alguém desejar, contudo, investir em grifes internacionais milionárias, poderá satisfazer facilmente o desejo nas luxuosas Louis Vuitton, Hermes, Max Mara, Cacharel e outras que pontilham o bairro Recoleta.

O quesito bolsas vale atenção também. Produzidas lá mesmo, as bolsas de lezard (couro de lagarto) ou de capincho (couro de capivara) em versões esportivas e sociais povoam vitrines e prateleiras. Bonitas e bem feitas, podem custar tanto quanto uma de marca internacional. E uma observação: as argentinas que circulam pelas ruas não parecem seduzidas pelas marcas internacionais que infestaram de “réplicas” o mundo globalizado. A moda masculina, clássica e tradicional, está por todos os lados. Não há quadra onde não se encontre boutiques com sobretudos, paletós, camisas e gravatas de seda combinadas a lenços e fourlands. Vale prestar atenção à beleza e à qualidade dos sapatos masculinos.

Mas como no atual estágio ninguém está imune à força das marcas mundiais e ao desejo irrefreável de consumo, há outlets em profusão. O caminho é o Bairro Palermo e são várias as quadras de lojas com moda masculina, feminina, jovem e infantil para qualquer bolso. Da avenida Córdoba, passando pela Calle Aguirre com Gurruchagas e imediações, há lojas da Lacoste, Adidas, Nike, Brooksfield, Cacharel até Yves Saint Laurent e Christian Lacroix. Mas haja disposição para conferir cada arara. O barato quase sempre entrega menos qualidade e custa tempo.

O morto recebe

Programa corriqueiro é percorrer o bairro Recoleta e observar a arquitetura europeia das mansões antigas transformadas em embaixadas, bisbilhotar as lojas caras, circular pelo Centro di Diseno e dar uma espiada no túmulo de Evita no cemitério que cerca o bairro. Milhares de visitantes fazem isso. Mas o primeiro cemitério de Buenos Aires merece mais.

Construído em 1822, é um monumento histórico e artístico que abriga uma galeria de presidentes da nação, caudilhos, militares, escritores, poetas e políticos em 4,8 mil mausoléus opulentos. A importância está na arquitetura funerária. Protagonistas da história argentina ou não, são reverenciados em jazigos ornados por esculturas monumentais, mármores nobres, dedicatórias desoladas. Mas para conhecer mais da história e até dos hábitos da sociedade bonaerense da época, o melhor ainda é a visita guiada e gratuita que pode durar quase duas horas. E aí se vai descobrir a razão de tantos ataúdes expostos nos mausoléus, próximos à porta, visíveis a qualquer visitante.

Era usual no final do século 19 e início do 20, famílias homenagearem seus mortos em datas especiais abrindo as portas dos mausoléus para receber amigos durante todo o dia. Ali ficavam sentados em cadeiras, junto ao morto, lembrando façanhas e a saudade. Vale ouvir os guias e suas interpretações da sociedade da época, conhecer detalhes da vida e da morte dos habitantes ilustres do lugar.

Duelo de pernas

O assédio na Calle Florida é intenso e chato. São os divulgadores de shows de tango em casas noturnas e restaurantes que reforçam o trabalho de guias turísticos e competem com os ávidos cambistas de pesos e dólares. Agradeça e siga em frente.

Com acesso interno pela Galeria Pacífico, um dos mais antigos centros comerciais da região central da cidade, ou pela Calle Viamonte, 525, o Centro Cultural Jorge Luís Borges tem agenda repleta durante todo o ano. São exposições de artes visuais, teatro, cinema, espetáculos de música e dança.

Em tributo aos 90 anos de nascimento de Astor Piazzola, o Centro Cultural preparou uma agenda de luxo com espetáculos de tango com orquestra ao vivo, cantores e dançarinos às sextas, sábados e domingos a partir das 20hs. Por cerca de US$ 15 dólares o ingresso, muito menos do que o oferecido pelas casas noturnas, os espetáculos com até uma hora e meia de duração fazem um passeio pelo melhor do tango, naquele duelo de pernas de acelerar a respiração. Agora, se tiver a sorte de estar em Buenos Aires por ocasião de alguma apresentação da Orquestra de Tango de Buenos Aires, pare tudo e corra para lá. Não dá para perder.

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