Uma das maiores revelações da música portuguesa faz show em Porto Alegre

Carminho é revelação da música portuguesa

Foto: divulgação

De olhinhos fechados, gesticulando com as mãos, o corpo balançando para lá e para cá, Carminho vai cantanto um fado, outro e mais outro. Em pouco tempo, a gente nem repara mais na beleza dos traços da cantora, nem se surpreende com o vozeirão melódico e meio rouco que brota daquela garganta. O único sentimento possível é o arrebatamento. É como se uma fada invisível nos pegasse distraídos, carregasse nossa alma para fora do corpo e a deixasse suspensa, em algum local misterioso entre o palco e a plateia. E até que Carminho pare de cantar, a alma permanecerá ali, fora de controle, fora de nós.

– Comunicação entre as almas é o grande desafio de quem canta fado – comentou certa vez a cantora revelação da música portuguesa que se apresenta em Porto Alegre na próxima quarta-feira, no Salão de Atos da UFRGS, às 20h. Maria do Carmo Carvalho Rebelo de Andrade, 29 anos, vem aprendendo como interagir com outras almas por meio da música desde a infância. Nascida em Lisboa e filha de um casal de músicos – a mãe é a fadista Teresa Siqueira, que chegou a gravar discos e conquistar certa notoriedade entre os cantores do gênero -, Carminho se apresentou pela primeira vez aos 12 anos. Desde então vem buscando a expressão de sua arte por meio do estilo musical que é, também ele, a alma de Portugal.

Acredita-se que o fado tenha nascido nos becos e ruelas da Lisboa do século 19, cantado por gente de baixo, que frequentava ambientes como cafés e casas de prostituição. Ao final dos anos 1800, a guitarra portuguesa fixou-se como instrumento principal para a execução das canções. Por volta de 1930 começaram a ganhar fama as companhias de fado, que já se apresentavam em teatros por todo o país. Nos anos seguintes, a indústria do disco e do cinema consagraram definitivamente o estilo. Na década de 1950 brilhava a primeira estrela do fado a ganhar o mundo: Amália Rodrigues.

Passou-se o tempo e o gênero conheceu o auge e uma espécie de estagnação durante o período em que Portugal viveu sob o peso de uma ditadura militar. Ao restabelecer-se a democracia, em 1976, o gênero voltou ao cenário. Na década de 1980, o fado começa a ser reconhecido como um patrimônio cultural do país.

Recentemente, uma nova geração de fadistas está reinventando a mais genuína música de Portugal. Exemplo mais eloquente é o grupo Madredeus, que misturou fado com influências eruditas para criar uma música original e belíssima, que ganhou o mundo. Outros músicos, em especial cantoras, têm se ocupado de ressignificar a música de seus antepassados e trazê-la de volta, com modernidade e muitas ousadias.

E onde entra Carminho nessa história? Bem, ocorre que, um pouco diferente de seus contemporâneos mais famosos, que praticam um fado à moderna, Carminho é uma intérprete de fados tradicionais. Seu repertório e mesmo o seu estilo de interpretação fazem sentir, em primeira impressão, que estamos entrando em alguma casa de fado cheia de turistas na Alfama ou no Bairro Alto. Ela não esconde a herança da mãe fadista e não tem medo das velhas canções, muitas delas recuperadas do repertório de Amália Rodrigues e outros grandes do passado.

Isso não significa, no entanto, que o sentimento de estar em uma turística casa de fado permaneça ao longo da apresentação. Logo vamos percebendo uma personalidade musical que ora é única, ora bebe em influências claras como a MPB e o jazz. A música brasileira, aliás, é desde sempre uma das paixões de Carminho. No show que fará em Porto Alegre para apresentar o seu segundo disco, Alma (sempre ela), Carminho cantará canções que já foram gravadas com Milton Nascimento e Chico Buarque, seus ídolos. – Gravar com eles era o meu maior sonho musical – disse em uma entrevista para a televisão portuguesa. Uma cantora madura e cheia de segurança derrama sentimentos ao interpretar canções como Meu Namorado, de Chico Buarque, ou A Voz, de seu primeiro disco, Fado. A mesma cantora, agora descontraída e cheia de graça, brinca com seus vibratos em canções clássicas como Marcha de Alfama.

De pele muito clara e cabelos castanhos claros sem tintura, Carminho é uma “rapariga normalíssima”, como ela própria se define. Adora viajar, conhecer gentes e não vive sem arte. Mas também faz questão de passar muito tempo com a família em Lisboa, frequentando teatros, cinemas e, claro, casas de fado. No final de setembro, casou-se com o produtor musical Diogo Clemente, que é um dos guitarristas que a acompanham. Os dois se apaixonaram há uns cinco anos, na produção do primeiro álbum dela. A cerimônia simples ocorreu na Igreja do Menino de Deus, no Centro Histórico de Lisboa, bem perto do Castelo de São Jorge.

No camarim, antes de cada show, gosta de ficar recolhida, quietinha. Enquanto faz a própria maquiagem, se prepara para encontrar as almas que a estarão esperando além dos limites do palco.

“É necessário a disponibilidade de quem canta o fado, para abrir-se e mostrar seus sentimentos, e de quem ouve, para receber”. O risco de abrir-se? Ter a alma levada pela fada do fado de Carminho, para nunca mais a ter de volta.

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