Uma prosa com Filipa Pato, uma das enólogas mais badaladas do momento

Profissional veio ao Brasil para uma maratona de eventos e conversou com Donna

Na recente vinda ao Brasil, Filipa passou por Brasília, Vitória, Curitiba, São Paulo e Porto Alegre
Na recente vinda ao Brasil, Filipa passou por Brasília, Vitória, Curitiba, São Paulo e Porto Alegre Foto: Ricardo Duarte

Depois de uma maratona de jantares, entrevistas, harmonizações e palestras em Brasília, Vitória, São Paulo e Curitiba, a enóloga portuguesa Filipa Pato, sensação do momento no mundo dos apaixonados pela bebida, chega a Porto Alegre um pouco cansada, é verdade, mas pronta para mais uma entrevista.

– Queres descansar um pouco, comer alguma coisa antes de começarmos? – pergunto, com receio de encontrar uma interlocutora pouco disposta, como é o caso de muitas famosas por aí.

– Não, não te preocupes. Almocei bem, podemos conversar. Podemos já falar dos vinhos agora mesmo – diz ela, com o semblante restabelecido por alguns goles de água e pela possibilidade de discorrer sobre sua grande paixão.

Filipa sempre conviveu com uma relativa fama devido aos vinhos produzidos pelo pai, Luís Pato, posicionados muitas vezes entre os melhores de Portugal. Mas foi com seus próprios rótulos que alcançou renome internacional, especialmente depois de ser reconhecida, em 2011, como enóloga do ano pela prestigiada revista alemã Feinschmeker. A convite da importadora Porto a Porto, que revende seus rótulos por aqui, a enóloga ficou alguns dias em solo gaúcho divulgando suas criações.

A mulher moderna com ares de celebridade que espero encontrar naquela tarde, capaz de transcender os limites dos feitos do pai para brilhar sozinha no concorrido mundo do vinho, é apenas uma ilusão. Os traços marcantes do rosto, fruto dos genes portugueses, estão ali sem máscaras. Nem uma gota de maquiagem tira o foco dos olhos puxadinhos e das sobrancelhas fartas – cultivadas, é claro, longe das pinças. É pequena, veste-se com simplicidade, usa poucos acessórios. Os 37 anos escondem-se no bom humor e na pele saudável, salvo em alguns quase imperceptíveis fios de cabelo branco. Como uma metáfora de si mesma na pele da produtora de vinhos, ela é o que é, sem disfarces. Tudo o que importa está na essência, no interior da garrafa.

De cosmopolita e moderna, Filipa também tem apenas o necessário à profissão. Já viajou o mundo todo provando vinhos e, mais recentemente, divulgando seus produtos. Depois do nascimento dos filhos, Francisco, três anos, e Fernão, 11 meses, deixa a propriedade em que mora, na região da Bairrada, centro de Portugal, apenas para promover seus vinhos (o Brasil e a Inglaterra são os principais destinos) e para passar temporadas na terra do marido, a Bélgica.

Para mostrar ao mundo sua capacidade, precisou libertar-se do pai. Isso não significou, no entanto, um rompimento com o que havia aprendido. Ao conhecimento adquirido pela família, que faz vinhos na Bairrada há gerações, ela somou a técnica obtida no curso de engenharia química na Universidade de Coimbra e a experiência acumulada mundo afora. Estava formada uma das 10 enólogas mais influentes de Portugal.

Apesar da aura de modernidade, tradição é o que realmente importa. Tanto que seu slogan é “Vinhos sem Maquilhagem”. Assim como ela, o vinho que nasce de suas sensações não leva qualquer tipo de aditivo para que se estabilize. Nem os vinhedos são tratados com agrotóxicos. Depois de fermentado, passa pouco tempo em barricas de madeira.

– A madeira tem que ser usada com muita cautela, pois é a moldura do vinho. Serve apenas para realçar a arte que vem de dentro, da característica revelada pelas uvas – garante.

Morar na terra natal, preservar o velho jeito de fazer vinhos, usar castas autóctones da Bairrada, como baga e bical, e até batizar os filhos com nomes que, segundo ela, são clássicos caindo em desuso em Portugal revelam uma personalidade apegada a raízes, tradições. Talvez por isso os sorrisos sejam mais fartos ao comentar seu novo projeto. Recentemente, comprou uma propriedade que, na sua infância, era arrendada pela avó para plantar uvas e elaborar vinhos. Com a crise na Europa, muitos vinhedos estão sendo vendidos, para sorte de gente como Filipa.

– Ali há vinhas velhas, produzindo muito bem. Vou fazer uma reforma para acomodar as barricas no subsolo e construir uma área para degustação. Agora quero que me visitem – planeja.

Com seus rótulos comercializados em 15 países e uma produção que não ultrapassa as 150 mil garrafas por ano, Filipa quer continuar controlando o processo, garantindo a qualidade e ainda tendo tempo para os filhos. Eles, aliás, foram os sonhos que mais lhe custaram sacrifícios. Acostumada a beber, pelo menos, uma taça de vinho todos os dias, ela se viu impedida de praticar o hábito que cultivou desde muito cedo por prazer e profissão.

Às gargalhadas, representa o diálogo que teve com o médico na primeira consulta do pré-natal.

– Olhe, aí tem piada, veja. Fui a um médico que sabia ser apreciador de vinhos, na esperança que ele me deixasse beber só um pouco. Mas ele logo me disse:

– Não podes beber nada!

– Nada?

– Nada!

– Tive que trocar de médico!

O problema foi resolvido com uma médica belga que, sabendo da profissão de Filipa, liberou um cálice diário depois do primeiro trimestre de gravidez.

Para estar mais tempo junto às vinhas, na companhia dos filhos e do marido, Filipa viaja cada vez menos e não tem a menor intenção de expandir os negócios, cultivando uvas e fazendo vinhos em outros locais da Europa ou do mundo. Talvez com uma exceção.

– Provei um vinho que me agradou muito, feito com castas portuguesas na Campanha gaúcha. Não conheço esta região, mas me interessa muito. Pelo que provei, talvez a Campanha fosse o único lugar do mundo em que eu pensaria em fazer vinhos fora da Bairrada. Quem sabe, não é?

Quem sabe, Filipa?

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