Uso de pílula por menores de 18 anos divide especialistas

Estudos mostraram que adolescentes que tomaram anticoncepcionais teriam mais câncer

Maioria dos ginecologistas é favorável à prescrição de pílulas a adolescentes
Maioria dos ginecologistas é favorável à prescrição de pílulas a adolescentes Foto: Reprodução, Donna

Primeiro, veio a polêmica moral. Usar a pílula significou a liberdade sexual a partir da metade do século passado, despertando o furor de conservadores, mas servindo como bandeira de revoluções no comportamento das mulheres e dos jovens. Agora, é a vez da polêmica científica. O medicamento anticoncepcional mais utilizado no mundo está sendo colocado contra a parede, tornando-se pivô de um debate polêmico entre especialistas. A suspeita é de que mulheres que tomam o medicamento antes dos 18 anos teriam propensão maior a desenvolver câncer de mama ao longo da vida.

Em tese de doutorado, o presidente da Federação Latino- Americana de Mastologia, Diógenes Baségio, avaliou 300 pacientes e percebeu um aumento nas chances de neoplasia de mama antes dos 40 anos. Em 2003, a doença representava 5,3% dos casos. Em 2007, foi constatado um salto para 16,8%.

– Vários outros estudos, inclusive em Harvard, perceberam ligação entre o uso da pílula e o câncer. Se a cada mil mulheres o risco é de nove delas desenvolverem neoplasia de mama, com o uso do anticoncepcional esse índice subiria para 10,8 pacientes a cada grupo de mil – acrescenta Baségio.

Apesar dos estudos, o médico considera o contraceptivo um método importante e que deve continuar sendo utilizado, desde que sob controle médico. Mas, em linhas gerais, a indicação, para ele, seria suspender a prescrição da pílula para as adolescentes, substituindo-a por preservativos. Segundo o mastologista, protocolos internacionais já tomaram essa posição e, cedo ou tarde, a recomendação também passará a valer no Brasil.

Porém, a ideia é rechaçada por entidades oficiais de ginecologistas e mastologistas. A diretora científica da Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia do Rio Grande do Sul (Sogirgs), Maria Celeste Osorio Wender, afirma que não há qualquer estudo que sugira deixar de recomendar a pílula a adolescentes. Segundo ela, colocar o medicamento de lado pode ter consequências sérias nas esferas social e física.

– Já temos baixa aderência no uso de anticoncepcionais. Se as meninas ficarem preocupadas com essa possibilidade, o problema vai se acentuar, e corremos risco de ver o número de adolescentes grávidas crescer muito no país – opina.

Múltiplas funções

O grupo dos defensores da pílula anticoncepcional para menores de 18 anos também conta com o presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia, Ricardo Chagas, que afirma que não há contraindicação relacionada à incidência de câncer de mama. Ele sustenta que, embora algumas pesquisas mostrem uma probabilidade maior na ocorrência de casos da doença, o risco encontrado continua muito pequeno.

– É um aumento desprezível, ou seja, a pílula continua fazendo mais bem do que mal para as mulheres – defende.

Chagas ainda ressalta que os trabalhos mais recentes não têm observado aumento do risco nas pílulas com as novas fórmulas, que apresentam doses mais baixas de hormônio.

– Embora existam contraindicações em certos grupos, a pílula é um método seguro, conveniente e bem tolerado em um alto número de pacientes. Com a grande variedade de formulações disponíveis, atualmente, pode ser feita uma escolha individualizada para cada paciente – finaliza.

Em nota oficial, o presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Nilson Roberto de Melo, também mantém a orientação de seguir receitando o uso da pílula. O argumento se sustenta no elevado número de mulheres que se envolvem em abortamento inseguro no Brasil: mais de 1 milhão por ano. As complicações podem ser graves, como hemorragias, infecções, esterilidade e até morte.

– O principal meio de reverter esta realidade é a redução das gestações não desejadas – sustenta Melo.

Esta não é a primeira vez que a pílula anticoncepcional é vinculada ao desenvolvimento de câncer. Em 2007, uma pesquisa mundial, liderada pela Universidade de Oxford, da Inglaterra, concluiu que pode haver ligação entre o uso do medicamento e o aparecimento de câncer no colo do útero. Os especialistas pesquisaram 52 mil mulheres que tinham participado de 24 estudos em todo o mundo.

Segundo os resultados, quem toma a pílula durante um longo período está mais exposto. Nas estatísticas, o risco de quem nunca aderiu ao método de desenvolver o câncer de colo do útero é de 3,8 a cada mil. Para quem tomou por uma década, a chance sobe para 4,5. Mas se suspenderem a medicação por 10 anos, o risco volta a cair e fica igual ao das pacientes que nunca usaram o anticoncepcional.

Em substituição à pílula, sobrariam poucos métodos contraceptivos, como explica a ginecologista Maria Celeste Osorio Wender.

– A maioria dos métodos usa o mesmo mecanismo de ação, que é a aplicação de hormônio. Na prática, sobraria apenas o preservativo e o DIU – diz.

Além de impedir a gravidez, a medicação também é adotada para problemas de saúde. A pílula ajuda a diminuir as cólicas e a reduzir o fluxo sanguíneo na mestruação. Outras indicações são ovários policísticos, acne facial e regulação do ciclo menstrual. Sem ela, explica Maria Celeste, cada um desses problemas teria de ser tratado com remédios específicos, que nem sempre são os mais recomendados.

MÉTODOS COM HORMÔNIO
> Injeção
> Adesivo (selo sobre a pele)
> Anéis vaginais
> Pílula de emergência
> Implante subcutâneo

MÉTODOS SEM HORMÔNIO
> DIU
> Preservativo masculino e feminino
> Diafragma 

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