Verissimo: Do outro lado da parede

– Bé! Bé!

Era o som que ouviam do apartamento ao lado. Na maior parte do tempo não ouviam nada. Os vizinhos, um casal de meia-idade, eram silenciosos. Não faziam qualquer ruído. A não ser aquele que atravessava a parede três ou quatro vezes por dia, todos os dias.

– Bé! Bé!

Às vezes, mais intrigante ainda:

– Béééééé! Béééééé!

O que seria aquilo? Os vizinhos não podiam estar criando cordeiros no apartamento. E era uma voz humana.

Uma voz feminina.

– Bé! Bé!

Ou, com ainda mais volume, com raiva:

– Bééééé! Bééééé!

O que seria aquilo, meu Deus?

***

Descartaram a hipótese de ser algum jogo erótico do casal.

Ele:

– Faz ovelhinha, faz.

E a mulher:

– Bé! Bé!

– Mmmm. Faz de novo.

– Bééééé! Béééééé!

– Agora começa a tirar as meias…

Não. O casal não tinha mais idade para isso. E o som não era carinhoso, não era dengoso, não tinha nada a ver com amor. Era estridente, impaciente…

– Bé! Bé!

***

Um dia, não se aguentaram e convidaram o casal do lado para uma visita. Nada formal, um cafezinho. Para se conhecerem melhor. Afinal, tinham se mudado para o prédio havia algumas semanas, logo depois do casamento, já era tempo etc., etc. Não planejavam perguntar, de cara: “Vem cá, que história é essa do “Bé! Bé!”? Mas talvez, no decorrer da conversa, os vizinhos revelassem alguma coisa.

Dessem uma pista. E o mistério do “Bé! Bé!” finalmente se esclarecesse.

***

Na hora marcada, os vizinhos apareceram. Os dois casais já tinham se cruzado no corredor e no elevador mas ainda não tinham se apresentado. Os vizinhos pareciam ter a mesma idade: 65, 66, por aí.

Ele mais bem conservado do que ela. Foi ele quem fez as apresentações:

– Eu me chamo Onófrio, e minha esposa se chama Elizabeth.

Disse o nome dela com pronúncia inglesa. “Beth” com o som de “besta” e o “th” no fim, a língua entre os dentes. Ela revirou os olhos e corrigiu:

– Elizabéti!

– Elizabeth – repetiu ele, sem alterar a voz, sorrindo e enfatizando a pronúncia inglesa.

– Béti, Onófrio. Béti!

– Beth.

– BÉ! BÉ!

***

Durante a visita, só ele falou. Contou que estavam casados há 40 anos. Ela suspirou. Contou que não tinham tido filhos, mas que eram muito felizes. Ela olhou para o alto, como que suplicando a Deus que viesse buscá-la, ou pelo menos fulminasse o marido com um raio.

No fim, ele anunciou o fim da visita, agradeceu a hospitalidade e o cafezinho, e disse:

– Vamos indo, Elizabeth?

– Bééééé! Bééééé!

***

– Imagina como é a vida deles.

– Um inferno. Há 40 anos. Ele chamando ela de um jeito e ela corrigindo.

– Eu não aguentava. Eu já teria fugido de casa. Ou atirado uma frigideira na cabeça dele.

– Mas ela, também… Francamente. Por que não aceita a pronúncia dele e deixa pra lá?

– Mas ele só faz para implicar.

– Pois então? Mais razão para não dar bola e… Escuta.

A vizinha estava gritando, do outro lado da parede:

– Bé! Bé!

– Será que nós um dia vamos ser assim?

– Não sei.

– Promete que nós nunca vamos ser assim.

– Olha…

– Promete!

E do outro lado da parede:

– Bééééé! Béééééé!

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