Vida de Equilibrista: as dores e as delícias da mãe que trabalha

Pesquisa traz as dificuldades do retorno das mães ao mercado de trabalho

Psicóloga Cecília Russo Troiano entrevistou mais de 500 filhos de seis a 22 anos sobre o papel dos pais
Psicóloga Cecília Russo Troiano entrevistou mais de 500 filhos de seis a 22 anos sobre o papel dos pais Foto: Divulgação, Editora Generale

A partir do momento que uma pessoa decide ter filhos, suas escolhas passam a afetar não apenas a si própria, mas também à criança. Por isso, após dar à luz, muitas mulheres se perguntam se devem retornar ? ou ingressar ? no mercado de trabalho. Buscando encontrar resposta para questões como essa, a psicóloga Cecília Russo Troiano dedicou 18 meses a um trabalho que resultou no livro Aprendiz de Equilibrista.

Não conhecendo nenhuma obra literária que tratasse do tema sob o olhar dos filhos, Cecília, que também é autora de Vida de Equilibrista: dores e delícias da mãe que trabalha, debruçou-se sobre essa investigação durante meio ano ? um terço do tempo total de produção do livro. Participaram mais de 500 pessoas, de seis a 22 anos, das classes A e B da cidade de São Paulo. Em grupos de discussão e respondendo a questionários, os participantes foram convidados a mostrar qual o retrato que viam dos pais (e o que gostariam de mudar neles) e como organizam o projeto de futuro, pensando em família e carreira.

Confira alguns trechos da entrevista que a autora concedeu ao caderno Meu Filho:

:: Qual foi a principal conclusão tirada com a pesquisa?
Tanto os filhos das mulheres que fizeram a opção por trabalhar, quanto os das que preferiram ser mãe por tempo integral estão bem. Esse é um alento principalmente às mães que trabalham, que se perguntam se os filhos não ficariam melhor se elas estivessem em casa. O que vi é que os filhos acabam se adaptando bem, se os pais estão satisfeitos com suas próprias escolhas. Percebi que, mais importante do que a escolha da mãe, é o quão bem resolvida ela está com essa opção.

:: O que lhe motivou a desenvolver o trabalho?
Eu trabalho com pesquisa de consumo. Então, pesquisar faz parte do meu dia a dia. Somado a isso, tenho dois filhos, de 14 e 17 anos. Em boa parte dos contatos que fiz com mulheres, vi que essa era uma angústia. Eu quis investigar a inquietação dessas mães e, talvez, a minha inquietação. Brinco que tem um pouco de auto investigação.

:: Qual foi sua grande surpresa com a pesquisa?
É curioso ver como os filhos retratam a mãe e como retratam o pai. Eles veem a mãe fazendo muitas coisas relacionadas à casa, à família e ao trabalho. E quando perguntados como enxergam os pais, responderam que trabalhando, descansando ou se divertindo, inclusive com os filhos. É como se eles vissem a mãe como uma tarefeira e o pai com um pouco mais de equilíbrio.

:: Como a senhora enxerga isso?
Como se os filhos estivessem dando um recado às mães: poucas vezes nos veem aproveitando a vida, brincando com o filho. Porque sempre cabe à mãe ficar na tarefa, na educação, dizendo “come bem”, “escova os dentes”. Outra surpresa foi como eles se veem no futuro, como equilibristas. Meninos e meninas se veem trabalhando e com a família. Eles já pressupõe uma divisão mais equilibrada de tarefas.

:: O livro fala do orgulho que os filhos têm dos pais. As razões pelas quais os filhos sentem orgulho das mães são diferentes dos motivos por que se orgulham dos pais?
Eles apontam que o orgulho da mãe é sempre igual, ela trabalhando fora ou não. Acho que tem muito a ver com a capacidade de estar perto deles. Quando falam do pai é curioso, porque o orgulho muda. Quando a mãe trabalha fora, o orgulho do pai diminui um pouco. É como se o pai perdesse um pouco do poder, pois está dividindo com a mulher.
 
:: Curiosidades
Veja alguns dados colhidos na pesquisa:

:: Questionados sobre por que o pai e a mãe trabalham, o repertório de explicações apontam, em primeiro lugar, para ganhar dinheiro. Em segundo lugar, para dar uma vida melhor à família, depois para comprar coisas para os filhos e, em quarto lugar, porque eles gostam;

:: Todos os participantes elegeram uma imagem da mulher na cozinha como representativa da mãe. Ou seja, trabalhe ou não fora, ela ainda é responsável por alimentar a família;

:: O modelo tradicional de paternidade, o do provedor, ainda é a imagem mais forte na mente dos filhos: 64% apontam essa característica para definir o pai;

:: Muitos filhos não sabem qual é exatamente o trabalho dos pais. Em geral, os filhos sabem mais sobre o trabalho das mães do que dos pais.

:: Livro
Aprendiz de Equilibrista, 148 páginas, foi lançado no mês passado (abril) pela editora Generale. Pode ser encontrado nas livrarias por R$ 29,90

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