Viúva do escritor Barbosa Lessa lembra o que viveu ao lado de seu grande amor

Reportagem foi à casa de Nilza Lessa para entrevistá-la

Foto: Adriana Franciosi

Pelas janelas do apartamento entra o azul do Guaíba, que contrasta com o verde das plantas da cozinha. Na mesa, repousam umas cuecas-viradas recém fritas, trazidas há pouco da padaria. No fogão, uma cafeteira italiana ferve, fazendo exalar o perfume de café. À frente da repórter que saliva pela mistura de aromas, uma senhora vaidosa, de olhos delineados por lápis e unhas bem vermelhas enche uma xícara, depois a outra.

– Antes de me perguntares seja lá o que tu queiras me perguntar, come essas cuecas-viradas. São muito boas, guria, uma beleza!

Tendo em conta a identidade da dona da casa, o “seja lá o que tu queiras me perguntar” parece brincadeira. Nilza Lessa, 80 anos, viúva do escritor e folclorista Luiz Carlos Barbosa Lessa (1929-2002), é um baú de histórias travestido de gente. Tem tantas para contar – e conta com tanto gosto e entusiasmo – que seria possível ouvi-la por horas, com ou sem a companhia do singelo café da manhã. Mesmo assim, ela ainda espera pelas perguntas. Mas não espera muito. Sorte nossa.

– Histórias pra contar? É, tenho algumas… – afirma, entre risos.

Nilza nasceu em Santana do Livramento em 1932 e formou-se professora na Fronteira. Em 1956, durante um Congresso Tradicionalista, conheceu seu grande amor. Lembrada até hoje como a viúva de um dos fundadores do nativismo gaúcho, Dona Nilza está longe de ser apenas a companheira de um grande homem. Em tudo o que pode, perserva a memória do companheiro e reconta as histórias vividas pelo casal em 42 anos de união. Mas faz questão de seguir a própria vida de forma independente e moderna.

A expressão “fazer de tudo um pouco” ganha sentido máximo quando se trata de Dona Nilza. Graduada em Serviço Social pela PUCRS, foi professora no interior gaúcho e na capital. Já casada com Lessa, foi produtora de televisão e de eventos em São Paulo, onde o marido trabalhava como revisor e publicitário quando casaram.

Lá, conviveu com gente famosa, contratou Roberto Carlos e Elis Regina para festas de empresas e passou seus bocados para criar dois filhos e, com a morte de uma das irmãs, mais dois sobrinhos na maior cidade do país. Ao retornar para o Rio Grande do Sul, em 1974, depois de 14 anos, foi gerente da churrascaria do 35 CTG e teve uma loja de artigos gauchescos na Praça XV. Também acompanhou o marido no sonho de morar no interior e cultivar orgânicos, em um sítio em Camaquã.

Barbosa Lessa, que na época dedicava -se apenas à música e à literatura, morreu em 2002. Em 2012, Nilza foi a primeira mulher eleita Patrona dos Festejos Farroupilhas. Sempre vestida de prenda – em modelos que ela mesma costurava, para assegurar a fidelidade da roupa aos trajes originais – ela recebeu toda sorte de homenagens. Quando não estava em algum palco, podia ser encontrada no estande em que vendia seu artesanato.

Em pleno acampamento Farroupilha, entre colchas de patchwork e quadrinhos com versos das músicas do falecido marido, ela mostrava seu maior orgulho, o projeto Bichos do Mar de Dentro, que reproduz em mimos os animais da fauna da Lagoa dos Patos.

Remexer nas memórias de Dona Nilza é aprender um pouco mais sobre a trajetória recente da cultura no Rio Grande do Sul. Ao lado dela, Barbosa Lessa amadureceu as ideias e pesquisas que sustentaram o movimento tradicionalista. Com ela, ele foi publicitário e produtor cultural e floresceu na música e na literatura, artes que já desenvolvia antes de conhecê-la. Quem sabe, graças a ela, manteve a dedicação à arte até os últimos dias de vida.

– Mesmo estando fora da academia, ele fez um trabalho intelectual de formação no Rio Grande do Sul. E ela se encaixou nesse perfil – comenta o professor de Literatura da UFRGS, Luís Augusto Fischer.

Ainda de acordo com Fischer, a obra literária de Barbosa Lessa ainda espera um exame minucioso. Nesse sentido, os relatos de Dona Nilza podem ser preciosos para revelar a rotina, as fontes e o processo de criação do marido. Ou podem ser apenas um bom acompanhamento para um café com cueca-virada.

Tudo começou num baile…

O ano era 1956. O Congresso Tradicionalista de Ijuí teria uma atração especial: o escritor e folclorista Luiz Carlos Barbosa Lessa, já reconhecido como um dos fundadores do movimento que, naquela época, começava a ser chamado de tradicionalismo. Quando o conjunto tocou um xote, um primo do escritor se dirigiu à mesa onde estavam Nilza e uma amiga levando Lessa a tiracolo. Cada um dos rapazes tirou uma moça para dançar. Enquanto dançavam, Lessa pediu Nilza em casamento. Assim mesmo, inesperadamente.

– Daqui a quatro anos eu volto pra te buscar.

E voltou mesmo. Durante um baile da Semana Farroupilha, no final de 1959, os dois se reencontraram em Porto Alegre. Ele estava na cidade para lançar o livro Os Guaxos, mas eles não haviam mais trocado palavra durante todo esse tempo. Antes que Lessa pudesse se desvencilhar dos admiradores e amigos e finalmente chamar sua garota para mais uma dança, outros já haviam tentado levar a morena para o salão. Em vão. Em combinação com uma amiga, se escondia embaixo da mesa a cada aproximação dos rapazes. Até que o escritor conseguiu ter, finalmente, a sua dança.

Cerca de um mês depois do início do namoro, que ocorreu precisamente nesta noite, eles foram a Uruguaiana, onde a família de Nilza morava, para o noivado. Mais dois meses, casaram-se em uma cerimônia matutina na Igreja Sagrada Família, em Porto Alegre, ele de terno, ela de vestido branco e curto. No mesmo dia embarcaram para São Paulo, onde viveram por 14 anos.

Essa música tem autor!

Jantar de lançamento do Festival de Cinema de Gramado. Sentado na mesa de honra, bem em frente ao palco, o casal Lessa assistia ao show de um grupo nativista. Lá pelas tantas, o vocalista anuncia que cantaria a música Negrinho do Pastoreio, recolhida do folclore gaúcho.

 Depois da execução, Dona Nilza chama o cantor para que se retrate, pois a tal música não era recolhida do folclore e tinha autor conhecido e vivo. O cantor, meio envergonhado e desconhecendo o dito autor, pediu desculpas e reafirmou que a música era, sim, de domínio público e autor desconhecido. Nesse momento, a pequena senhora levanta-se da mesa e dispara:

– Continuo insistindo que essa música tem autor. E eu sei bem disso, por que durmo com ele todas as noites!

Projeto para a maturidade

Nascido em Piratini, Barbosa Lessa sempre gostou do campo. Isso não o impediu de viver em São Paulo e Porto Alegre e de viajar bastante, mas nunca escondeu o sonho de voltar para o Interior. Com a aposentadoria, o casal decidiu procurar um refúgio. Assim nasceu o sítio Água Grande, no interior de Camaquã. O local foi adquirido pelos dois por ter despertado pouco interesse em produtores rurais de monocultura ou em pecuaristas. O solo pedregoso e íngreme, banhado por uma grande cachoeira, não se prestava às culturas tradicionais.

E foi justamente neste solo desacreditado que nasceu um dos projetos de comercialização de agricultura ecológica mais bem-sucedidos do Rio Grande do Sul. Como transitava entre Camaquã e Porto Alegre, o casal se reuniu com um pequeno grupo de outros produtores para fundar a feira de orgânicos da José do Patrocínio, que até hoje vende produtos livres de agrotóxicos e provenientes da agricultura familiar.
O que plantaram para vender na feira?

– Nada. Os índios e jesuítas deixaram lá para nós um bom bosque, cheio de árvores de erva-mate. O que fazíamos era colher, secar, moer e vender.

Ainda hoje está de pé o monjolo, movido à água, para a moagem da erva. E algumas árvores ainda podem ser vistas ao redor da casa de madeira. Com a morte de Barbosa Lessa, Dona Nilza vendeu a propriedade para a prefeitura de Camaquã, que fez ali um pequeno museu e um parque ecológico para a preservação da flora e fauna. É possível visitá-lo com agendamento prévio.

O dia em que encontrei os Lessa, por Luis Antônio Araujo, Editor de Mundo

Numa manhã de meia estação, há uns 15 anos, o recepcionista de Zero Hora, Nilton Espinosa, ou simplesmente Seu Espina, como ainda chamamos nosso querido colega hoje aposentado, avisou-me por telefone que um casal me aguardava no saguão. Quando cheguei ao balcão, em frente ao elevador, encontrei um homem de uns 65 anos, calvo, com bigode fino de fios brancos e olhar agudo, acompanhado daquela que era certamente sua esposa, miúda e simpática. Ele me estendeu a mão e disse:

– Sou o Barbosa Lessa.

Eu estava acostumado a receber, a cada 15 dias, um envelope com carimbo de Camaquã em cujo interior havia duas ou três folhas datilografadas assinadas pelo senhor à minha frente. Às vezes, falávamos por telefone, geralmente a respeito de detalhes referentes ao pagamento que recebia por sua colaboração quinzenal com o Cultura. Normalmente, era dona Nilza, sua mulher, que o acompanhava, que ligava para a redação.

– O Lessa quer saber se a coluna chegou – dizia ela, com voz delicada, referindo-se sempre ao marido como “o Lessa”.

Desde aquele primeiro encontro na recepção de ZH, não havia nada mais interessante do que ouvi-los falar de uma vida que parecia abarcar toda a história do Rio Grande. Com a sensibilidade dos grandes interlocutores que sempre foram, Barbosa e Nilza Lessa nunca pareceram se dar excessiva importância.

A conversa sempre começava por algo que fizesse parte do universo daquele a quem se dirigiam. Lembro que, naquela manhã em Zero Hora, Lessa contou da sua passagem pela TV Tupi, a primeira emissora de televisão comercial do Brasil, nos anos 1950, em São Paulo. Era como se soubesse que eu aprendera a cantar Negrinho do Pastoreio, Balaio e Pezinho antes de saber ler e que, portanto, tudo que dissesse ali, em meio ao burburinho de um saguão de jornal, seria inesquecível.

As últimas do Donna
Comente

Hot no Donna