Viviane Bevilacqua: Como nossos pais

Meus filhos garantem que já pagaram muitos micos por minha causa. E eu?

Fettuccine de ostras é preparado com champanhe
Fettuccine de ostras é preparado com champanhe Foto: Reprodução

Estou aqui, pensando no que escrever, e ouvindo um antigo disco de Elis Regina, com esta composição antológica de Belchior. Eu nunca havia parado para pensar, mas a verdade nua e crua é essa: podemos ter sidos contestadores e rebeldes quando jovens. Mas quanto mais o tempo passa, mais nos tornamos parecidos com os nossos pais.

Quem não disse, algum dia, algo do tipo: quando eu tiver um filho, vou criá-lo diferente. Por que preciso dormir às nove da noite? Meu filho vai dormir a hora que quiser, e comer doce antes de jantar, se essa for a vontade dele. Hum-hum. A gente diz isso. Até ter nossos próprios filhos. Aí, começamos a ver que nossos pais tinham razão, pelo menos na grande maioria das vezes.

Até as situações constrangedoras entre pais e filhos se repetem, de geração em geração. Lembro bem, na minha adolescência, do medo que eu tinha de pagar mico na frente dos amigos. (Só que naquele tempo não se dizia pagar mico. Devia ser outra gíria, mas não recordo qual).

Quando meu pai me levava para o colégio – o que era raro, já que o legal era ir a pé, em turma – eu pedia pra ele me deixar na esquina, porque não queria que pensassem que eu era filhinha de papai. Ir de carro pra aula? Só “patricinha” é que tinha essas mordomias.

E quando a gente ia viajar com a turma de colégio, então? Eu já pedia com bastante antecedência em casa:

– Mãe, pelo amor de Deus, não fica me enchendo de recomendações na frente dos outros. Vão achar que sou uma bebezinha. Nem desce do carro. Só me dá um beijo e sai. Ela ria, me chamava de boba.

Às vezes, minha mãe usava umas roupas que eu achava esquisitas – coloridas demais, listradas, e uns lenços estranhos na cabeça (que devia ser moda, sei lá). E eu dizia:

– Mãe, se tu sair assim comigo, vou atravessar a rua e fazer de conta que nem te conheço!

Ela se divertia. Acredito até que colocava aquelas roupas que eu achava horríveis só pra me provocar. E se eu atravessasse a rua, como ameaçava fazer, era pior ainda. Ela começava a me chamar e abanar. E ainda me chamava de Maninha (meu apelido de casa) na frente de todo o mundo… Eu ficava vermelha de vergonha…

Frescuras

Pois é. Eu cresci, parei com estas frescuras, amadureci, casei e … tive filhos. E como diz a música, acabei fazendo tudo igual com eles. Sempre impus horário para comer e para dormir, em tempo de aula. E, o pior de tudo: eles garantem que também já pagaram muitos micos por minha causa.

Só porque prefiro levá-los de carro nas festas do que permitir que peguem carona com os amigos (acho mais seguro), ou porque peço, mesmo na frente da galera, para levarem um casaquinho quando faz frio à noite… Ah, e exijo que me liguem para dizer que estão bem quando viajam.

Ora essa, só faço o que todas as mães cuidadosas fazem. E que a minha fazia, também, e que eu achava que era excesso de zelo. Agora não acho mais.

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