Viviane Bevilacqua: Pequenas histórias

A maioria parece fazer questão de que todo o mundo escute suas conversas

O sanduíche é montado em camadas alternadas de pão
O sanduíche é montado em camadas alternadas de pão Foto: Unilever/Hellmann's, divulgação

Pare por alguns minutos em uma rua movimentada da cidade e observe. Em questão de minutos, verá, com toda a certeza, dezenas de pessoas falando ao celular. Fico me perguntando como é que conseguimos viver tanto tempo sem o telefone móvel. São, sim, uma necessidade, reconheço. Mas, antes deles a gente se virava bem com telefone convencional em casa e orelhões nas ruas.

Naquela época, lembro bem (afinal, não faz tanto tempo assim), fazíamos fila para falar nos telefones públicos. Eu odiava ter que telefonar com alguém atrás de mim, esperando que eu desocupasse a linha, ouvindo (mesmo que não quisesse) tudo o que eu falava. Telefonar era quase que um ato privado, íntimo.

Hoje não. Claro, ainda existem pessoas que procuram um lugar mais reservado para conversar ao celular ou, pelo menos, falam em voz baixa. Mas a maioria parece fazer questão de que todo o mundo escute suas conversas, mesmo que não queira.

Eu esperava a sinaleira abrir para pedestre, dia desses, quando um homem que estava ao meu lado dizia (berrava, melhor dito) ao celular, possivelmente dirigindo-se à mulher dele.

– Eu já disse que não te interessa quanto eu ganho. Alguma vez te perguntei quanto que o salão te rende por mês?

Eu não entendia o que ela dizia do outro lado, claro, mas dava para ouvir uma voz feminina. E ele a interrompia aos berros:

– Este dinheiro é meu. Cada um com o seu. Não foi isso que a gente combinou?

O sinal abriu, voltei a caminhar e deixei o cara discutindo com aquela voz. E, pelo pouco que ouvi, imagino que as coisas não estavam muito bem na vida daquele casal.

Depois, passei por um outro homem que dizia assim, ao celular, também falando muito mais alto do que o necessário:

– Isso, requeijão e batata-palha.

Quase tirei o bloquinho e a caneta para anotar a receita. Meus filhos adoram batata-palha! Será que ele estava ensinando alguém a cozinhar pelo telefone? Ele podia, também, estar encomendando produtos para o seu restaurante, ou para um trailer de cachorro-quente. Vai saber… mas por que estava fazendo isso no meio da rua? E falando alto daquele jeito?

Atrás de pedacinhos de histórias – como se fossem uma colcha de retalhos -, parei próxima a uma moça que ria muito ao celular, encostada na parede de um banco, numa rua movimentada da cidade. Eu não precisei fazer força alguma para ouvir o que ela dizia. Parecia não dar a mínima se alguém ouvisse a conversa:

– Ai amor, para. De noite te mostro o que eu comprei, tá bom?

Ela dizia isso com uma voz melosa, quente, provocante. O cara deve ter insistido para que ela revelasse o que tinha comprado.

– Só te conto a cor: é vermelha, como tu gosta – disse ela, com carinha de safada.

Achei que era hora de sair dali antes que o papo esquentasse mais. Se ela não tem vergonha de falar de coisas íntimas em público, eu me constranjo em ouvir mais do que o suficiente para escrever esta crônica.

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