Viviane Bevilacqua: Setenta, com orgulho

Na velhice, as grandes angústias desaparecem

Pequenas bailarinas da escola do Sesc, em Florianópolis
Pequenas bailarinas da escola do Sesc, em Florianópolis Foto: Ricardo Duarte

Por que o medo de dizer a palavra velho? Para que servem os eufemismos? Quando escrevem terceira idade ou, pior, “melhoridade”, assim, tudo junto, me dá vontade de chorar. Envelhecer faz parte da vida, e pode ser uma fase maravilhosa, sim, com toda a certeza.”

Estas palavras não são minhas. Pego-as emprestadas da escritora Lya Luft, que esteve por aqui na última semana lançando o livro de ensaios Múltipla Escolha. Quanto mais leio o que ela escreve, mais a admiro.

Lya tem 72 anos. Parece? Parece. Uma senhora septuagenária bonita, de sorriso tímido e olhos de um azul profundo, sempre curiosos e inquisidores. Mas que não quer parecer ter 30 ou 40. Está feliz com a idade que tem.

Plástica? Fez um lifting aos 50, depois da morte do segundo marido e de um período muito difícil de sua vida.

? Eu tinha 50 com cara de 80, marcada pela tristeza. Aí, fiquei uma cinquentona com cara de 50 ? contou.

E só. Nada contra plásticas, diz a escritora. Tudo contra as auto-mutilações que muitas mulheres cometem na tentativa de voltarem a ser jovens ? o que nunca dá certo, óbvio.

E pra que toda esta ânsia de ser jovem?

? É uma pena que isso aconteça. Que tempo elas perdem na vida querendo voltar atrás no tempo. E olha que a juventude nem é a melhor época da nossa existência ? comenta a escritora.

Opa, como assim, não é? E o corpo esbelto, cheio de curvas? Os cabelos sedosos, o olhar de desejo dos homens, a agilidade nos movimentos, as boas noites de sono, um esqueleto sem dores, o mundo inteiro pela frente? Ser jovem não é o máximo?

Não, diz ela, com a calma de sempre e a certeza de quem responde depois de já ter vivido muito. (Não o bastante, claro. Ainda há muitos livros para escrever e histórias para contar aos netos, a grande paixão e fonte de renovação diária de energia).

A pressão social e familiar em cima dos jovens é muito grande, diz Lya. Eles têm de decidir que rumo dar às suas vidas: precisam escolher o que vão estudar, decidir por uma profissão, se constituem uma família ou não…

? Os jovens se deprimem muito. É um período de grandes descobertas, mas também de muita pressão. Os obituários não mostram, mas o número de suicídios é muito alto entre os adolescentes. Vida é crescimento, e crescer, dói.

Na velhice, as grandes angústias desaparecem. As decisões mais importantes da vida já foram tomadas. Se acertadas ou não, isso é uma outra história.

? Se o corpo encolhe quando se é velho, o coração aumenta. E a vida pode ser muito feliz ? garante.

Tenho jovens pais de 70 anos em casa. E, tirando dores daqui e de acolá, próprias de quem já percorreu um longo caminho, garanto que são felizes com suas rugas e cabelos grisalhos. Lya Luft também, embora ela confesse que pinta os cabelos de louro para ficar mais bonitinha. Nem precisava.

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