A história do atleta Renato Ribeiro, pai de Iasmim e marido de Estrela

Foto: Ricardo Wolffenbüttel

Estas fotos e a história que elas contam ficaram guardadas num arquivo durante mais de três meses. Não estávamos certos se elas deveriam ou não ser publicadas. Havia o receio de invasão de privacidade, tornando pública uma história de amor e ao mesmo tempo uma tragédia familiar que só dizia respeito aos seus três protagonistas: Renato, o pai; Estrela, a mãe; e Iasmim, a filha. Por outro lado, as imagens são tão belas e inspiradoras que acreditávamos que sua publicação seria, antes de tudo, uma homenagem ao grande atleta e pai dedicado que foi Renato Ribeiro.

Ele morreu aos 28 anos de idade, dia 24 de fevereiro deste ano, durante uma manobra no ar, quando participava da segunda etapa do Campeonato Estadual de Asa-Delta. Quem nos ajudou a decidir pela publicação das fotos e da história foi a mulher de Renato, Estrela Terra, 34 anos, com quem ele estava casado havia oito anos. Ela é paulista, chegou a ser campeã amadora de surfe e está se formando em Educação Física na UFSC, onde trabalha no laboratório de esportes adaptados para portadores de necessidades especiais.

Estrela e Renato só tiveram uma filha, Iasmim, hoje com cinco anos. A gravidez aconteceu quando eles moravam em Portugal – foi lá que se conheceram, e em poucos dias já estavam morando juntos. Renato dava aulas de surfe nas praias portuguesas. Decidiram, então, voltar ao Brasil, e a Florianópolis, para que a filha pudesse nascer e crescer perto do mar, junto à natureza.

Na Praia do Campeche, terra de Renato, a família encontrou seu lugar no mundo. Ele era um esportista conhecido e admirado. Deu aulas de surfe para muitos jovens da comunidade, mas sua grande paixão era mesmo voar, gosto que herdou do pai, Rogério Ribeiro, um dos precursores do voo livre em Florianópolis, no começo dos anos 1980, e que comandou uma escola de pilotos até 2007, quando morreu.

De aluno aplicado Renato passou a professor, quando voltou de Portugal. Em pouco tempo, determinado como era, tornou-se o único instrutor habilitado a fazer voo duplo em Santa Catarina. No seu currículo estão mais de dois mil voos. Quando morreu estava em primeiro lugar no ranking estadual e muito bem colocado no nacional. Confiante, acreditava que este seria o seu melhor ano no esporte.

Renato começou a ensinar Iasmim a surfar com apenas dois anos de idade. Estavam sempre juntos, os três, inventando mil aventuras. E é para que a filha nunca se esqueça desses momentos em família que Estrela não só autorizou a publicação das fotos como também decidiu juntar a elas um texto de próprio punho, relembrando a história da sua “pequena e brava família”.

Estrela diz que guardará estas páginas em uma caixa de lembranças que está criando para Iasmim. Um verdadeiro “baú de tesouros”, onde serão depositados objetos que fizeram parte da história dos três e que ajudarão a menina a lembrar para sempre do pai, um homem corajoso e destemido, que, como Iasmim mesmo gosta de repetir, “virou um anjo lá no céu, porque ele gostava muito de asas, para poder voar livre por aí”.

A energia da família surfista, por Ricardo Wolffenbüttel, fotógrafo

Me despedi apressado depois de fazer a última foto de uma escritora para a edição especial sobre o aniversário de Floripa. Ela tinha escolhido como lugar preferido da cidade a praia em frente ao palanque no Campeche. Ao olhar aquele mar verde em uma manhã ensolarada de quinta-feira, pensei que eu também teria escolhido aquele pedaço da Ilha como o preferido.

Já saindo, virei para o mar e vi um homem e uma criança surfando uma onda na última arrebentação. Parei. Na hora a cena me chamou a atenção, primeiro pelo inusitado, a criança era pequena e estava lá no fundo, depois pelo sincronismo nos movimentos. Coloquei a câmera no rosto e aproximei o zoom. Vi a pequena surfista abraçada no pescoço do homem.

Ele remou para entrar na onda e ela ficou grudada. Ele ficou de pé no longboard, ela pulou para a frente da prancha já posicionada. Os dois deslizaram e eu comecei a fotografar. Na primeira sequência os dois caíram depois que a prancha perdeu velocidade. Rapidamente a menina grudou no pescoço do homem como um filhote de macaquinho e os dois voltaram para o meio da crowd.

Enquanto a dupla esperava as ondas, uma surfista se aproximou e todos eles remaram juntos. Brincaram, riram e a menina desceu da prancha do homem e segurou-se na prancha da mulher. Veio a série de ondas maiores, os dois remaram, com a mesma técnica desceram a onda, agora com mais velocidade. A onda emendou em outra, que os trouxe até a beira. Pude ouvir os gritos de vibração da mulher, ao fundo, e consegui capturar uma sequência de fotos. Quando eles pularam da prancha fiz sinal para virem na minha direção.

Sorrisos largos. Renato segurando Iasmim num braço e o pranchão no outro, Estrela logo atrás. Nos apresentamos e a energia daquela família de surfistas me contagiou. Propus uma reportagem elaborada com equipamento mais adequado.

Renato me explicou que dava aulas de surfe e asa-delta. Desde cedo acostumou a filha com o mar. Peguei o telefone dele e antes de sair fiz mais umas fotos da pequena surfista, agora sozinha, deslizando depois de empurrada pelo pai na onda da beirinha.

No caminho de volta à redação, conferindo as fotos no visor da câmera, senti que tinha presenciado algo muito raro e bonito, em uma época em que pais e filhos convivem mais com telas de aparelhos do que entre si, e os programas em família se resumem a um big-lanche qualquer.

Poucos dias depois, no domingo seguinte, dia 24 de fevereiro, chega a informação de que um piloto de voo livre havia sofrido um acidente. Fui para casa no final do plantão enquanto colegas apuravam essa notícia no plantão. Na segunda-feira, lendo o site do DC, vi a foto do pai surfista ao lado da notícia sobre um piloto falecido em um acidente. Renatinho tinha morrido. No mesmo instante, os vinte minutos agradáveis de convívio na praia transformaram-se em um sentimento de revolta. Olhei diversas vezes a sequência de fotos, elas não eram mais leves nem alegres. Tinha a sensação de que elas não me pertenciam mais. Esperei uns dias e comecei a procurar Estrela e Iasmim. Precisava devolver as fotos. O telefone que eu tinha estava mudo.

Alguns dias depois do acidente, toca o telefone na mesa onde estou na redação. Eu atendo, é Estrela, me contando que só me encontrou porque Iasmim lembrou meu nome. Ela me falou do acidente e me perguntou das fotos. Disse que estavam comigo. Conversamos e eu enviei algumas por e-mail. Antes de desligar, ela me disse que existia alguma razão para eu estar naquela praia naquele dia.

Ele apenas mudou de céu, Estrela, esposa de Renato

Passados quatro meses do dia em que inesperadamente Renato Ribeiro ou Renatinho, como todos o conheciam e chamavam carinhosamente fez seu último voo e partiu deste plano sem se despedir, a grande saudade faz com que olhemos fotos e recordações, relembrando os inúmeros momentos maravilhosos que ficaram em nossas mentes e corações.

Eu, como a mulher escolhida para dividir quase oito anos de convivência com este homem tão intenso e sonhador, posso afirmar que recebi dele o melhor presente, pois, entre fases ora melhores, ora nem tanto, como em qualquer relacionamento, o nosso amor gerou um fruto. Um fruto com nome de flor. E assim nasceu a nossa Iasmim.

Nos conhecemos em Lisboa, em 2005, e nos apaixonamos! Depois de uma semana já estávamos pode-se dizer casados, morando sob o mesmo teto, vivendo nossa história de alegrias, contradições, encontros, desencontros, dificuldades, entendimentos, carinho e solidariedade.

Iasmim foi gerada neste contexto, em Lisboa. Retornamos ao Brasil em setembro de 2007 com ela crescendo em meu ventre, já com seis meses de gestação. Voltamos a morar em Florianópolis. Nossa pequena família sempre foi muito aventureira e posso dizer até radical. Iasmim tinha um pai voador. Um voador de asa-delta, que amava o céu e o mar. Eu também compartilhava desta paixão pelo mar e aprendi aos poucos a gostar de viver também a história de amor ao ar.

A pequena Iasmim desde muito cedo foi levada a participar das aventuras do casal, nos acompanhando em viagens e campeonatos. Ela costumava dormir à sombra da asa-delta. O surfe também esteve presente desde muito cedo, por influência deste estilo de vida. Assim, já aos dois anos e meio Iasmim aprendeu a equilibrar-se em cima de uma prancha.

Renato a levava ao fundo. Colada às costas do pai, ela pegava ondas pendurada no pescoço. Assim surfavam juntos. Enquanto isso, na praia, eu vibrava e gritava, sempre contente e muito emocionada, registrando e fotografando cada onda. A praia parava.

Olhando para trás percebemos muitas coincidências que para alguns podem significar somente o acaso. Outros acreditarão em algo mais. Poucos dias antes do acidente que mudou o rumo de nossas vidas, nossos planos e nossos sonhos, fomos surfar atrás de casa, como fazíamos tantas e tantas vezes. E percebemos um fotógrafo registrando aquele momento de tanta felicidade em família.

Fomos até ele, que nos contou trabalhar no Diário Catarinense. Estava ali fazendo outro tipo de registro, mas que não resistiu ao ver a nossa energia, surfando juntos, os três. E resolveu registrar o que via. Renato trocou telefone com o fotógrafo, que ficou de pensar em algo, quem sabe uma matéria com a pequena surfista.

Poucos dias depois o inesperado acontece, deixando nossa pequena família sem um membro. Tão difícil de acreditar que aquilo havia acontecido. Sem despedidas, nosso homem voador decolou em um voo sem volta. Um voo para o infinito…

Após alguns dias lembrei-me do fotógrafo e dos registros e resolvi tentar encontrá-lo. Queria guardar algumas daquelas fotos que havia tirado, pois foram as últimas que fizemos juntos, e justamente num momento tão bonito, em que estávamos tão felizes. Seria uma boa recordação do pai para Iasmim.

Com a cabeça ainda muito confusa após a perda tão dolorida, liguei para o número que vem impresso na contracapa do DC. A telefonista atendeu e eu expliquei que um fotógrafo havia registrado alguns momentos de minha família. Falei do acidente e ressaltei que não me lembrava do nome do fotógrafo. Neste momento, Iasmim, sempre ligada em tudo, se aproximou e disse:

– É Ricardo, mamãe.

Eu fiquei meio confusa, tendo de dividir a atenção entre Iasmim e a atendente, e acabei dizendo à pessoa do outro lado da linha:

– Desculpe, é que minha filha de cinco anos está aqui ao lado dizendo que é Ricardo o nome do fotógrafo. Mas já faz mais de duas semanas daquele dia e acho que ela não sabe, pois inclusive ele disse o nome rapidamente uma única vez…

A atendente respondeu:

– Só um minuto, vou passar para o Ricardo.

Fiquei muda.

Iasmim, sempre a mais lúcida, muito bem resolvida e com esta memória incrível. Conversei então com Ricardo Wolffenbüttel e soube que ele tinha tentado me ligar quando soube da triste notícia do acidente. Porém, o número que o fotógrafo tinha estava desligado: era o número do telefone de Renato.

Conversamos sobre a possibilidade de contar um pouco da nossa história e, quem sabe, publicar no jornal aquelas fotos tão bonitas. Mas não sabíamos como. Talvez algo parecido com uma homenagem, algo que conseguisse transmitir um pouco daquela energia de nós três que Ricardo pôde sentir naquela manhã, conforme relatou.

Mais um tempo se passou, e fui procurada pela repórter Viviane Bevilacqua. Combinamos que eu escreveria um texto em primeira pessoa, contando um pouco de tudo o que vivemos nestes oito anos juntos. Mas quando sentei para escrever senti que não seria fácil.

Renato era um homem cheio de sonhos, um homem com um largo sorriso, carismático, falante, trabalhador, pai, marido, filho, irmão, amigo, apaixonado pela vida e pela natureza. Um atleta de ponta que vivia intensamente. Estava liderando o Circuito Catarinense de Asa-Delta e queria muito ser o campeão estadual de 2013, pois já havia ficado como vice nos dois anos anteriores. No campeonato brasileiro também estava muito bem colocado e tinha grandes chances, portanto, de ser campeão.

Além de competir, Renato dava aulas de voo. Cerca de 20 alunos formados por ele voam hoje neste céu que ele tanto amava.

Também preciso dizer que Renato era muito ousado e autoconfiante. Arrojado, como dizem. Entre tantas outras coisas era um homem de três mulheres pois cuidava com carinho e dedicação de sua mãe, sua mulher e sua filha.Iasmim herdou do pai o espírito aventureiro. Ele sempre a levou e incentivou nas aventuras de voar, surfar, escalar e pedalar. Sobretudo, de viver.

Surfávamos juntos, pedalávamos juntos, viajávamos juntos, acompanhávamos os voos, dormíamos e sonhávamos juntos.Quando nosso grande companheiro decolou em seu último voo neste plano, nós que aqui ficamos descobrimos o verdadeiro sentido da vida eterna.

Agora este homem-pássaro voa em seu voo mais bonito. Ele, que eternizou tanta coisa aqui na Terra. Sabemos que seus frutos são eternos. A cada vez que falamos sobre ele lembramos tantas coisas boas, sentimos um pouco desta eternidade. É isso que é ser eterno.

Continuamos cultivando os frutos que ele deixou. Seus alunos continuam voando. Nós contamos suas historias. Iasmim continua surfando… E acreditamos, assim, em alguém que nos disse:

“Os homens que voam não morrem. Eles apenas mudam de céu.”

As últimas do Donna
Comente

Hot no Donna