Câncer de colo do útero: saiba como identificar e prevenir a doença

Foto: Deposit Photos
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Stefanie Cirne, especial

Os dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) impressionam: com cerca de 5 mil mortes por ano, uma a cada 90 minutos, o câncer de colo do útero é o terceiro tipo mais comum da doença entre as brasileiras. Com um alcance tão grande e sendo tão perigoso, parece improvável que o mal seja ignorado pelas mulheres. Mas, novamente, as estatísticas surpreendem – e preocupam. Em abril, uma pesquisa encomendada ao Instituto Datafolha pela empresa farmacêutica Roche divulgou que 73% da população não conhece ninguém que sofra ou tenha sofrido da doença. Dentre as mulheres entrevistadas, menos de um terço (29%) disse conhecer os sintomas do problema, indicando que desinformação e risco caminham lado a lado.

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O estudo inspirou médicos e organizações da área da saúde a idealizar, em parceria com a Roche, o Movimento #ForçaAmiga. Lançada em agosto, a campanha busca apoiar dentro e fora da internet as mulheres que enfrentam o câncer, chamando a atenção da sociedade para o problema. A iniciativa aposta no conhecimento como forma de controlar a doença, que, segundo o Inca, deve registrar mais de 16 mil novos casos neste ano.

– A maioria das pessoas não sabe que ela é causada por um vírus sexualmente transmissível – diz Samantha Cabral, oncologista clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP).

O câncer decorre de uma infecção crônica pelo papilomavírus humano (HPV), que ataca a porção mais baixa do útero. Geralmente, o vírus é transmitido pelo contato direto com a mucosa infectada, seja da vagina, seja da boca ou do ânus. Com mais de 150 subtipos, o HPV é bastante comum entre a população, e na sua versão benigna, provoca verrugas genitais. A maioria das mulheres contrai o vírus ainda na adolescência e não chega a desenvolver problemas, eliminando-o naturalmente no período de um ano. Porém, quando o corpo não reage a ele, a infecção persiste e provoca lesões no colo uterino. Sem o tratamento adequado, as lesões evoluem para o câncer e podem se estender para a vagina e outros pontos da região pélvica.

O desenvolvimento da doença é lento e os primeiros sintomas, como sangramentos e dores abdominais, podem surgir até 20 anos após o contágio pelo HPV. Normalmente, esse prazo alcança as mulheres na faixa dos 40 anos, levando à morte prematura. Mulheres de baixa renda, que tenham problemas no sistema imunológico, sejam fumantes ou façam uso da pílula estão entre os grupos de risco para o surgimento do problema.

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Diagnóstico e tratamento
As chances de cura e o sucesso do tratamento dependem do estágio em que o câncer é diagnosticado. Como a evolução da doença é discreta, detectá-la no início nem sempre é fácil. No Brasil, mais de 70% das pacientes chegam ao consultório quando o câncer já está avançado.

– A falta de conhecimento, a vergonha e a dificuldade de acesso aos exames preventivos são fatores que atrasam o diagnóstico – resume Alvaro Machado, integrante da diretoria da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), uma das apoiadoras do #ForçaAmiga.

A saúde do colo uterino é monitorada pelo exame de Papanicolaou, que deve ser feito anualmente por todas as mulheres sexualmente ativas. O teste coleta material para análise em laboratório e, caso haja alterações, encaminha a paciente para uma biópsia (colposcopia).

– O rastreamento não só detecta a lesão antes de ela virar câncer, como também diminui a mortalidade na paciente que é diagnosticada – explica Samantha.

Nos estágios iniciais da doença, a mulher é operada para remover as lesões pré-cancerígenas. Quando o quadro é mais avançado, o tratamento utiliza a radioterapia com quimioterapia associada, além de medicamentos para melhorar a qualidade de vida. Samantha observa que cerca de 60% dos casos mais graves têm boas chances de recuperação, mas a alta demanda nos serviços públicos de saúde ainda deixa muitas pacientes sem a assistência médica necessária.

Prevenção
Ao contrário de outros tipos de câncer, o de colo do útero pode ser evitado. Confira algumas atitudes simples que fazem a diferença no combate à doença:

• Vacinar as meninas contra o HPV: a medida protege contra quatro subtipos do vírus, inclusive os que mais comumente geram câncer. A vacina é aplicada em duas doses e está disponível na rede pública para meninas de 9 a 13 anos. O recorte etário busca imunizá-las antes que sejam expostas ao HPV com o início da vida sexual.

Desde 2014, as campanhas de vacinação no país esbarram na resistência de muitas famílias a levar suas meninas aos postos de saúde:

– Apesar de ser segura do ponto de vista médico e eficaz no seu propósito, a vacina precisa vencer uma barreira cultural: o argumento de que ao imunizar as meninas, estamos liberando o sexo para elas – explica Machado.

O médico conta que na Austrália, onde a vacina é aplicada há dez anos, já foi registrada uma queda de 90% nas infecções pelo HPV e de 50% nos casos de câncer de colo do útero.

• Consultar o ginecologista regularmente: fazer todos os anos o exame de Papanicolaou ou o teste de HPV é fundamental para evitar o desenvolvimento da doença;

• Usar camisinha: o preservativo serve como barreira física à infecção pelo HPV. O risco de contrair o vírus aumenta em mulheres que iniciaram a vida sexual cedo ou têm múltiplos parceiros;

• Atentar para possíveis sintomas: sangramentos anormais (fora do período menstrual, após o sexo ou durante a menopausa, por exemplo) são um importante sinal de alerta para a doença. Em fases mais avançadas, o câncer também causa dores na região pélvica e abdominal e secreções vaginais com mau cheiro.

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