Cara Ana de 2012: “Haverá diversos loopings pela frente nessa montanha-russa, mas os trilhos serão menos sinuosos e mais prazerosos”

A blogueira Ana Ávila (Foto: André Ávila)
A blogueira Ana Ávila (Foto: André Ávila)

No mês em que se intensifica a campanha pelo combate ao câncer de mama, convidamos três mulheres que passaram pela doença a escrever uma carta para elas mesmas às vésperas do diagnóstico. Mas esta mensagem também é para você, que nunca passou por isso. Para saber que sempre é tempo de se prevenir e que mesmo uma notícia tão temida pode ser o ponto de virada e redescoberta. Veja abaixo o depoimentos da blogueira Ana Ávila, 36 anos.

 

Cara Ana de 2012

Antes de te enviar esta carta, tive que decidir para qual ano eu mandaria. Se escolhesse enviar para antes do teu primeiro diagnóstico de câncer, teria de mandar ainda para a barriga da nossa mãe, já que o rabdomiossarcoma que te custou o olho esquerdo foi diagnosticado com apenas nove meses. Nem eu, nem você lembramos daquilo. Lembramos bem, no entanto, do que a psicóloga fumando um Charm em pleno consultório (ah, os anos 1980) nos disse certa vez: “Sempre que olhar para o espelho, o tapa-olho vai estar lá. É você quem decide se ele vai ser seu amigo ou inimigo”.

Tivemos alta aos sete anos. Acho que fizemos a escolha certa, não é?

Outra opção era te mandar essa carta às vésperas do segundo diagnóstico, mas ele é tão recente! O câncer de mama é uma montanha-russa em que eu entrei há nem dois anos e, aos 36, o carrinho recém parou de rodopiar. Então, escolho te mandar essa carta um pouco antes: 2012, ano tão legal, que começou com aquela viagem à Disney. Em São Paulo, você e o André estão superbem – empolgados e procurando escola para o Vinícius. Daí o alerta importante.

Leia as outras cartas:
:: Querida Beth de 2003: “Esse câncer aí vai mudar muito mais do que a sua mama”
:: Para a Beatriz de 2002: “Essa carta é um alerta sobre o estilo de vida workaholic e a alimentação processada e industrializada

É um certo lugar-comum entre pacientes que o câncer aparece quando outros pontos da nossa vida não vão muito bem. Pode até ser o mais recorrente. Mas, cara, nem sempre funciona assim. No teu caso, tirando um retorno um bocado súbito para o Rio Grande do Sul, tudo corria numa boa. O que vai fazer esse diagnóstico te deixar ainda mais perplexa. O palavrão BRAD 5 do médico, depois de intermináveis minutos examinando a tua mama esquerda na tela, vai parecer ainda mais incompreensível.

Lembra que a mãe teve câncer de mama há sete anos? Lembra também que você costuma fazer uma ecografia mamária todos os anos desde então? Pois é, mais uns aninhos e essas mudanças todas de cidade, de curso, de projeto de vida vão acabar fazendo você deixar esse bom hábito de lado. Quando você fizer de novo, em janeiro de 2016, lá estará ele.

Leia mais:
:: Outubro rosa: três mulheres que passaram por um câncer de mama escrevem uma carta para elas mesmas às vésperas do diagnóstico

Mas assim: câncer é uma merda. É, claro. Todo mundo sabe que é. Mas não vai melhorar nada a situação se você ficar se vitimizando. Então, o que eu vou te escrever aqui é um bocado de toques que eu gostaria de ter ouvido mais cedo e que outras tantas pessoas com a tua idade e teu histórico na família deveriam ouvir.

Um deles, por exemplo, é que esse câncer que a mãe teve te dá direito a investigar (com cobertura dos planos de saúde) se existe propensão genética de desenvolver câncer na família. Pouca gente sabe disso aí, em 2012, mas muitas mais vão saber logo mais, em 2013, quando a Angelina Jolie explicar por que fez uma dupla mastectomia preventiva, e em 2015, quando retirar também o útero e os ovários. Você, lamento, terá de passar por isso também.

Outro toque: seguro de vida. Já pensou sobre isso? Sabia que, quando você tem um bom seguro de vida, é interesse da seguradora que você permaneça viva e ela cobre uma porção de procedimentos caríssimos? Pois então: minha vontade aqui em 2017 é sair sacudindo as mulheres jovens pela rua com histórico de câncer na família e convencê-las a fazer já um seguro.

Ok, não é exatamente o que eu ando fazendo aqui no momento. Mas acho que estou fazendo a minha parte para tornar a vida de outras mulheres com câncer menos pior. Daqui de 2017, por exemplo, eu entendo o que está te travando para trabalhar com moda. Embora você ame o assunto, acredite que moda é algo bacana para aumentar a autoestima da mulher, falta alguma coisa para que você abrace o tema de vez. Para que toque afu aquele blog. Não falta? Então, guria, descobri o que é: um propósito.

Tive que perder uma mama e esse cabelão aí quase até a cintura para descobrir isso? Tive. Mas ganhei uma porção de outras coisas no processo. Pra começar, reconheci a família maravilhosa que me fez com tanto carinho – mesmo com tantos recalls! – e a que eu mesma construí. Também ganhei amigas maravilhosas. Um dia, na sala de espera do Hospital Moinhos de Vento, a médica vai te puxar pelo braço, te mostrar outra paciente e dizer: “Ó, uma blogueira e uma produtora de vídeos. Deve dar em alguma coisa”.

Ela é a Dani Israel, e vocês vão montar um canal no YouTube com dicas de moda e beleza para quem está em tratamento, o Força Gurias. Ele vai nascer de uma necessidade de vocês mesmas, de encontrar informação sem aquele tom deprê de quem está constrangida por ter câncer. Não faz sentido, né? Você é uma pessoa capaz de fazer piada com o fato de passar delineador em menos de cinco minutos porque só tem um olho. Tristeza não combina contigo.

Você também vai receber um convite de outra guria risonha, que já nocauteou um linfoma e já transplantou uma medula, para trabalhar em outra iniciativa para acolher pacientes: o Projeto Camaleão. Ela é a Flavia Maoli, e vocês estarão bem empolgadas com uma casa recém-aberta, no Bom Fim, onde haverá um brechó com a tua curadoria e um café teu e da tua nova “irmã gemula”, a Ju Rizzieri. Teu novo apartamento ficará ali pertinho.

É difícil escrever o quão gratificante isso tudo vem sendo. Ontem, uma menina me mandou uma mensagem dizendo que comprou uma peruca que eu recomendei no vídeo e que copiou um penteado meu para o casamento dela. Uma mensagem dessas, vai por mim, vale mais do que 1 milhão de seguidores.

Então, segura no carrinho aí que haverá diversos loopings pela frente nessa montanha-russa, mas parece que os trilhos serão menos sinuosos e mais prazerosos daqui pra frente. É como eu costumo dizer para as pessoas aqui: se sobrevivemos a um câncer sendo bebê nos anos 1980, não vai ser em 2017 que vão me derrubar.

PS: Você não fica bem loira, para de tentar. E chega de adiar: compre um cachorro de uma vez.

Força guria,

Ana Ávila

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