Criadora do “Roubadinhas”, Laura Bier ensina como comer sem culpa e não descuidar do corpo

Jovem não dispensa guloseimas e incentiva que se perca as calorias adquiridas com exercícios físicos

Foto: Jefferson Botega

Imagine o semblante de alguém que está prestes a abocanhar um croissant recheado com chocolate. Este alguém já estava há alguns instantes sentindo o cheiro da massa doce recém saída do forno, lutando contra o desejo de atacar o amanteigado. A expectativa fez com que a vontade ficasse quase insuportável.

Quando Laura Bier Moreira, 24 anos, finalmente trouxe para perto do rosto com as duas mãos cheias o pão semifolheado em formato de meia-lua, inclinou a cabeça para o lado direito para que a mordida fosse mais eficaz. Nesse movimento, os cabelos compridos e lisos acompanham o balanço do pescoço. E brilham, dourados. Só não brilham mais do que os olhos, que a essa altura já estão praticamente mareados de felicidade. E eles logo se fecham ainda em busca da melhor técnica para aproveitar o sabor.

Bateu a culpa? Use nossa calculadora e descubra que atividades fazer para queimar as calorias daquele brigadeiro que não estava na lista da dieta:


Engana-se quem pensa que esta cena foi protagonizada por uma glutona que tem zero preocupação com a aparência. Apesar de renegar o título por considerá-lo cafona, trata-se de uma autêntica it girl. Laura é jovem, sorridente, está satisfeita com a própria imagem, influencia o comportamento de outras mulheres e cria tendências, principalmente nas redes sociais. Como já se pode supor, a onda do Instafitness, que coleciona um exército de seguidores movidos a suco verde, shake de proteína e aspartame, definitivamente não é a dela. Laura só sabe dizer “sim”.

? Tá com vontade de comer uma pizza de 12 queijos? Manda ver!

Foi com essa pegada, digamos, permissiva, que a porto-alegrense criou o sucesso roubadinhas.com, perfil que também está no Facebook, no qual declarara diariamente sua paixão pela comida. E aí, cenas como a descrita no começo deste texto são as mais comuns nas postagens de Laura.

Acesse o Roubadinhas:
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A repercussão do fenômeno Roubadinhas causa surpresa. Atualmente são mais de 52 mil likes no Facebook e mais de dois mil seguidores que acompanham os posts no Instagram. A pequena multidão virtual que endossa o hobby foi conquistada em pouco mais de quatro meses e só comprova que a audiência estava faminta por conteúdo que fale de comida com alma e sem culpa.

O status de celebridade começou a partir de uma ideia trivial, após um jantar com a família: postar a sua paixão por comer bem, sem neuras e com muita felicidade. Além de amar comida boa, ela também adora tirar foto dos alimentos e postar na internet. E, como amante das farras gastronômicas, também se empolgava com os sabores que descobria e queria dividir a emoção das refeições com os amigos. Nascia assim, das roubadinhas cometidas a qualquer hora e merecedoras de um click, o site que virou mania.

 
Fotos: Ricardo Duarte

Junto com as extravagâncias de Laura, proliferavam nas timelines Brasil afora as adeptadas da barriga negativa. Só que a Laura, que dos seis aos 18 anos treinou tênis para ser uma atleta profissional, vê com desconfiança o modismo do consumo de suplementos alimentares, acha um saco a ditadura de corpo perfeito e não abre mão de se divertir por receio de chegar no verão com uma celulite a mais. Mas não se engane. Ela se preocupa, sim, com a beleza e o corpão. Na tentativa de trilhar o caminho do meio, com a filosofia do “nem oito nem oitenta”, o perfil do Roubadinhas tem fotos de comilanças e também de exercícios físicos, tudo em nome da lei da compensação. Funciona assim: quer comer? Come. Mas depois vai gastar.

? Eu gosto de incentivar as pessoas a levarem uma vida mais equilibrada e sem neura. Tudo bem tomar um sorvete se depois você praticar um esporte ou pegar leve nas outras refeições ? explica Laura.

Com uma rotina agitada dividida entre o trabalho como sócia da Protenis Promoções Esportivas (fundada pelo seu pai, o empresário e ex-tenista profissional Ennio Moreira), família, namorado, amigas, e com a programação de lazer sendo planejada cada vez mais em função do paladar, o volume de imagens tentadoras da galeria de seu smartphone foi aumentando exponencialmente, assim como a popularidade na rede. Mas, se a iniciativa empolgava e cativava novos seguidores a cada atualização, o passatempo também começou a chatear as meninas que lutam para manter o peso – e postam sua luta nas redes sociais. Foi assim que Laura, formada em Administração de Empresas com ênfase em Empreendedorismo, decidiu separar a água do vinho, ou @laurabiermoreira do @roubadinhas.

O personagem que ama comida e não pensa duas vezes antes de abocanhar uma delícia por aí rendeu muita identificação de Laura com um público cada vez maior. Recentemente, estreou como apresentadora da websérie Roubadinhas no YouTube. E nem na frente das câmeras ela abandona o jeito descontraído de lidar com a comida. Enquanto conversa com os entrevistados, continua mastigando alguma iguaria que esteja ao alcance de seus olhos e suas mãos. Tudo, claro, com muita graça e simpatia, o que faz aquele doce ou salgado parecer ainda mais apetitoso.Com produção da MPQuatro, os vídeos trazem desde o início de novembro dicas de esportes e lugares bacanas para comer em Porto Alegre. Greta Paz, sócia da produtora, revela a razão de ter apostado na ideia.

? Enxergamos na Laura um potencial enorme porque além de carismática, ela é muito natural.

Assista ao primeiro episódio da websérie Roubadinhas:


“Só choro pelo leite derramado se for leite condensado”

Ao longo de pouco mais que dois meses, 10 episódios da websérie estão sendo postados na internet. Na primeira temporada, amigos íntimos participam das roubadinhas. Quando o exercício praticado tem alto gasto de calorias, como skate ou stand up paddle, conta com a companhia de quem gosta de extravasar na comida, mas nas situações de exercícios mais leves, como yoga, esgrima e slackline, chama aqueles que curtem os lanchinhos mais saudáveis, as “healthy roubadinhas”.

Além de praticar tênis, a miss das guloseimas corre e faz ginástica funcional.

? Sou viciada em endorfina. Sempre tento intercalar as imagens das roubadinhas com uma malhação pesada, para que o pessoal veja que é possível comer bem e ser feliz sem ficar contando as calorias de tudo. O feed tem ainda frases divertidas como “muita gente se preocupa em ser magro, mas não em ser leve”, “só choro pelo leite derramado se for leite condensado”, “não confio em gente que não gosta de Nutella” e “enquanto eu não encontro o meu peso ideal, vou me divertindo com os carboidratos errados”.

 
Fotos: Ricardo Duarte

O assédio na rua ainda é tímido, mas o treinador de ginástica funcional Gabriel Espíndola, cujo estúdio no Moinhos de Vento serve de cenário para vários posts, já ganhou um punhado de alunas novas desde que o Roubadinhas estreou. Parte do sucesso talvez se justifique por ela ser uma pessoa do tipo bacana, com quem se quer passar uma tarde, ou porque quando fala, quem está por perto sorri.

? Esses dias estava fazendo uma série na funcional e vi que uma guria não parava de me observar. Daí lembrei que algumas colegas novas, que eu nem conheço, entraram ali por causa do Roubadinhas ? revela.

Na linguagem cotidiana, roubada significa uma situação inconveniente ou desagradável. Já no dialeto de Laura, o termo ganhou uma nova conotação.

? A expressão é coisa do meu namorado e dos amigos. Surgiu porque estava todo mundo no “projeto verão” e eu era sempre parceira de fugir da dieta. Logo me apelidaram de rainha das roubadinhas ? explica.

 
Foto: Ricardo Duarte

Segundo Laura. no linguajar das instafitness, a expressão “jacar” é usada quando se foge da dieta.

? Roubadinha é mais tranquilo que uma jaca, né?

Os sonhos de infância, se realizados, colocariam Laura disputando os principais torneios de tênis do mundo na atualidade. Chegou a ganhar títulos nas categorias juvenil e profissional representando o Instituto Gaúcho de Tênis a Associação Leopoldina Juvenil, que foi o seu playground quando criança.

? Morava no prédio em frente ao clube. Chegava da escola e descia direto. Passava o dia treinando e só ia embora quando minha mãe me chamava pelo interfone do clube. Não sentia fome e passava horas sem pensar em comida, coisa que a idade levou embora.

Quando se formou no colégio, quis investir nos treinos de tênis para ser atleta. Aos 18 anos, quando morou em Miami, treinou para ser profissional e recebeu proposta de bolsa para cursar a Barry University, nos Estados Unidas. Lesões sucessivas, no entanto, interromperam o sonho.

? Tive tantas lesões que nem os médicos entendiam. Preferi não me profissionalizar.

Hoje, quando não está no treino, no trabalho ou dando roubadinhas por aí, dedica-se a ajudar quem não teve as mesmas chances que ela. Participa do projeto social WimBelemDo, dando aulas de tênis toda semana para crianças em situação de risco do bairro Belém Novo, e é madrinha do Instituto Renascer da Restinga, que ajuda crianças carentes do bairro da periferia de Porto Alegre.

 
Foto: Ricardo Duarte

Colaborou Júlia Alves
julia.alves@zerohora.com.br

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