De peito aberto! Mulheres exibem as cicatrizes que revelam a luta e a beleza da vitória contra o câncer de mama

Textos por Patrícia Lima
Direção e produção executiva de fotografia por Roberta Weber
Assistente de produção Bibiana Goulart

Outubro Rosa virou moda. Que bom! O movimento criado nos Estados Unidos nos anos 1990 tomou, finalmente, grandes proporções. Caminhadas, encontros, palestras e toda sorte de lançamentos por parte da indústria são pensados para nos lembrar da importância da prevenção para a redução de casos de câncer de mama. Tem linha de roupas, lenços, calçados, espumantes, cosméticos, tudo lançado este mês na cor rosa para aludir ao movimento.

Mas nada diz tanto, e com tanta eloquência, quanto a marca impressa em um corpo pelo sofrimento. Nenhuma palavra, campanha ou produto comunica com tanta precisão quanto o rastro deixado na pele por dias sombrios, em que o que era beleza, sensualidade e fonte de vida passou a ser o arauto da desolação. A mensagem de uma cicatriz é clara: aqui houve um trauma. Se esta cicatriz emoldurar, de alguma forma, o delicado contorno de um seio de mulher, aí está um grito que ninguém pode calar.

O câncer de mama é o que mais mata mulheres em todo o mundo. Para seguir cumprindo esta triste sina, no entanto, ele precisa de silêncio. Não somente o silêncio com que se instala e cresce dentro do corpo feminino, mas o silêncio de mulheres que não falam sobre ele, que não conhecem suas artimanhas e que não aprendem como se proteger dos seus efeitos. Por isso, para celebrar mais uma edição do Outubro Rosa, a reportagem de Donna foi em busca dos ruídos capazes de derrotar este inimigo: informação, coragem e solidariedade.

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Para fazer todo este barulho, convidamos algumas vitoriosas para que compartilhassem conosco suas histórias de medo, dor, superação e transformação. Mas não queríamos que estes preciosos relatos estivessem contados apenas com palavras. Achamos que elas não seriam suficientes para traduzir tantos sentimentos. Fizemos o convite, então, para que estas lutadoras mostrassem ao mundo o espólio da guerra que travaram contra o câncer de mama. Convidamos mulheres comuns, como eu ou você, para que retirassem a roupa de suas almas e nos mostrassem, generosamente, as cicatrizes que carregam.

Muitas recusaram o convite – pelo que merecem todo o nosso respeito. Afinal, mostrar a própria intimidade é decisão pessoal, à qual não cabe qualquer recurso. Outras, as quatro que ilustram esta matéria, aceitaram livrar-se de seus pudores para compartilhar, em ato de extrema coragem, as marcas que o câncer lhes deixou. Marcas de dor, de angústia e de perda. Mas também marcas de uma batalha vencida, que simbolizam o começo de uma nova vida, um renascimento. A Rosângela, com sua espontaneidade; a Carla, com sua timidez; a Maria Angélica, com seu desprendimento; e a Fernanda, com muita confiança e bom humor: todas abriram bem mais do que os botões da blusa diante de nossas câmeras. Abriram o coração e a alma para que pudéssemos ver além delas mesmas.

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O tema da campanha Outubro Rosa deste ano é “Para Todas as Marias”, com o objetivo de chamar a atenção dos legisladores e dos administradores da saúde pública para a necessidade de democratizar o tratamento contra o câncer de mama em todo o país. O nome foi escolhido porque todas as mulheres são Marias, ou seja, são iguais quando se trata de prevenção e tratamento da doença. Uma vez feito o diagnóstico, é fundamental que a mulher tenha acesso rápido aos medicamentos de controle, que garantirão sua qualidade de vida e as suas chances de cura. No entanto, muitas Marias ainda padecem meses nas filas do Sistema Único de Saúde e até dos planos privados, à espera de exames ou de remédios. Muitas assistem, impotentes, ao crescimento do seu tumor e à piora de seu quadro clínico.

Mas não foi somente por estas Marias que as vitoriosas despiram-se diante de nossas lentes. Elas tiraram a blusa por todas nós. Em gesto de descomunal entrega e generosidade, elas expuseram suas dores para que também nós, que as vemos, ouçamos o grito que dão para vencer esta doença que ainda é uma ameaça real a todas as mulheres. Elas acreditam tanto no poder feminino contra este silencioso agressor que usam o próprio seio como testemunha de suas batalhas. E nos mostram, com suas cicatrizes e marcas, que é possível ter uma vida plena e feliz, apesar de tudo.

Observar este trabalho, que esperamos que tenha ao menos um pouco da beleza e da sensibilidade que elas merecem, deve ser para nós, Marias, bem mais do que um exercício estético ou uma leitura de final de semana. Elas fizeram isso por nós. Para que conheçamos cada vez melhor nosso corpo, para que não descuidemos da prevenção, para que tenhamos coragem e fé diante de um diagnóstico assustador. O que elas esperam de nós? Que honremos sua coragem e seu desprendimento, fazendo valer a verdadeira essência do movimento Outubro Rosa: o exemplo e a solidariedade de umas salvando a vida de outras, em um ciclo que nunca tem fim.

Luta de coragem e bom humor

OTOGRAFIA Andrea Graiz | BELEZA Carolina Eleguida | LOCAÇÃO Atelier Maria Tomazelli

A relações públicas Fernanda Weigert, 36 anos, era a vítima menos provável para um câncer de mama agressivo. Sem histórico familiar, fora da idade de risco e já tendo amamentado, ela seria a última aposta de um especialista. Seria. Mas um dia, durante o banho, um nódulo na axila começou a desmentir as estatísticas. Os tumores descobertos em março de 2014 já eram considerados de estágio seis, o mais avançado, e estavam espalhados pelas duas mamas e pelas axilas o maior deles tinha 7,5 centímetros de diâmetro.

O diagnóstico abalou em um primeiro momento a mãe de Tainá, de nove anos. Fernanda chegou a planejar como queria morrer. Tratou dos trâmites legais da guarda da filha com o pai, de quem é separada há alguns anos, para não deixar a pequena desamparada com sua partida. Sofreu, chorou, viu o desespero sufocar o peito doente. Mas levantou a cabeça e, antes de desistir, resolveu lutar.

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Como arma mais poderosa, escolheu o bom humor. Tirou sarro da própria desgraça, espantando para longe a autopiedade. Aguentou firme as oito sessões da quimioterapia mais pesada, que antecederam a cirurgia. Para se ter noção da intensidade do tratamento, Fernanda perdeu todo o cabelo apenas 14 dias após a primeira sessão. A cirurgia devastadora, feita às pressas, já que os tumores não respondiam mais aos medicamentos, extirpou as duas mamas e boa parte do tecido das axilas. Depois, mais 12 sessões de quimio e outras 30 de radioterapia para matar as metástases que poderiam estar espalhadas pelo corpo.

O tratamento terminou em abril deste ano, e Fernanda foi declarada oficialmente vitoriosa. Não que ela não fosse antes, só pelo fato de rir da cara da mais temida das doenças. Mas, agora, com o gosto de ter conseguido eliminar de si a sombra da morte que a rondou por mais de um ano. Enquanto faz o monitoramento de rotina, aguarda o corpo dar sinal verde para a reconstrução das mamas, o que deve ocorrer no final deste ano. No lugar de dor, o câncer deixou em Fernanda uma pilha de aprendizados e de novos sonhos. Além de tornar-se uma pessoa ainda melhor, ela tomou coragem para entrar para a faculdade de Psicologia, para ajudar outras vítimas do câncer a encontrar a sua maneira de encarar o maior de todos os desafios.

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Rir de si mesma

“No momento da ecografia mamária, o médico indagava um monte de coisas à medida que via a minha mama. Queria saber minha idade, se eu tinha câncer de mama na família. Pensei: tem coisa errada. Quando ele me entregou o resultado, falou: procura um mastologista agora. Ali eu já soube que tinha câncer. Sentei-me na calçada, abri o exame e vi umas palavras que não conhecia. Procurei no Google e descobri que eu tinha um câncer muito avançado. Cheguei à médica falando que já sabia o que tinha. E ela me disse que a quimioterapia seria imediata. Liguei para o pai da minha filha e disse: pega a Tainá que eu estou com câncer e preciso administrar essa história.

Bebi três dias sem parar, chorei, me descabelei. E vi que não tinha mais o que fazer, que precisaria tocar para frente e começar o tratamento. Perguntei quais seriam minhas chances, e a médica disse que era impossível prever, tudo dependia de como eu responderia ao tratamento. Me agarrei a isso. O tratamento eu tinha. E a vontade de me curar também não me faltou.

Quando perdi o cabelo, andava sem lenço na rua. As pessoas olham com cara de pena quando tu andas de lenço. Comecei a ficar indignada com isso e pensei: quer saber? Vou sair sem lenço para ver a reação das pessoas. Elas até reparavam em mim, mas não havia mais aquele olhar de piedade. Aquele olhar incomoda, pois eu não sentia pena de mim. Não sei se eu fazia esse olhar para as pessoas antes de ter câncer, mas o fato é que hoje eu noto muito mais a presença de pessoas que enfrentam a doença. Parece que para todo lugar que eu olho tem alguém de lencinho ou com aquela cara de câncer. Porque a gente fica com cara de câncer, né?

Às vezes eu falo isso e as pessoas ficam meio chocadas, não gostam de falar de câncer, de morte. Mas tem que falar. Tem que parar de amenizar as coisas, de chamar de carcinoma ou sei lá de quê. É câncer mesmo, é quimioterapia. Por isso, voltei a estudar e quero trabalhar com pessoas que sofrem de câncer. Não adianta nada eu só contar a minha história e achar que estou ajudando. Quero ajudar de fato, com estudo, com embasamento, um tratamento psicológico especializado, profissional.

Sempre gostei de psicologia, mas a gente vai sempre achando que não tem tempo, não tem dinheiro, e vai protelando. Quando me vi doente, atravessando essa situação sozinha, sem acompanhamento psicológico, percebi a importância. Muito do que tu pesquisas sobre câncer de mama fala sobre a parte estética, mas o que acontece na tua cabeça, nos teus valores, na tua percepção da vida, isso fica em segundo plano em muitos momentos. A mulher não é só cabelo e um par de peitos. E esse é o momento de buscar a essência.

O terapeuta que me acompanha agora, por causa da faculdade, diz que eu desenvolvi um mecanismo muito próprio para enfrentar as situações. Eu tirava sarro de tudo. Tirei sarro de perder o cabelo, depois de perder os peitos, eu tentava rir de tudo. Então, isso me ajudou a enfrentar. Sou bem-humorada por natureza e sempre dizia para as pessoas que o câncer não era uma opção, mas o bom humor, sim. E também é preciso ter fé. Fé em si mesmo. Eu sempre tive fé em mim, na minha força de vontade, na minha garra para sair dessa. Tive meus momentos de luto, claro, mas lá no meu travesseiro, comigo mesma.

Mas a verdade é que um câncer zera a tua vida e muda tudo. Nós achamos que somos imortais. Todo mundo sabe que vai morrer, mas não tem data, não tem uma doença, então acaba achando que nunca vai acontecer. Daí vem o câncer e te faz bater de frente com a morte. E aí tu mudas com todo mundo.

Eu mudei. Hoje tenho mais paciência, sei esperar, aprendi que tudo tem o seu tempo. A gente vive nessa correria louca, mas hoje eu tenho tempo para tudo. Fico com a minha filha, saio com os meus amigos, trabalho, estudo, tenho tempo para tudo. E eu sei que é um grande clichê falar isso, mas é verdade: o sol nasce diferente depois de um câncer. Infelizmente, a gente precisa passar por uma história difícil, dolorosa, para poder evoluir.

O câncer, para mim, foi um sinônimo de evolução e aprendizado. Se fosse possível voltar atrás e escolher, eu não mudaria nada na minha vida. Agradeço todos os dias por ter tido esse câncer, porque ele tirou pessoas ruins da minha vida e colocou outras que me mostraram o valor da amizade. A questão física, o cabelo e o peito, e todo o sofrimento da quimioterapia, que é pesado, tudo isso passa. Isso foi a minha revolução espiritual e psicológica, foi o meu crescimento.

Hoje em dia, nada mais me derruba.”

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Passaporte para uma vida nova

 FOTOGRAFIA Andrea Graiz | BELEZA Carolina Eleguida | LOCAÇÃO Atelier Maria Tomazelli

Viver o pesadelo do câncer de mama não foi apenas um trauma para a empresária e personal cook Maria Angélica Linden, 54 anos. Foi também uma motivação e tanto para uma reinvenção da própria vida, com o mergulho em uma nova profissão e a descoberta do voluntariado.

Moa, como é carinhosamente chamada pelos amigos que a cercam, recebeu em 2003 o terrível diagnóstico. Em busca da cura, conheceu a mastologista Maira Caleffi, que já trabalhava no apoio às vítimas da doença. Na mesa de cirurgia, selou com a médica uma parceria que já dura 12 anos em benefício do Instituto da Mama do Rio Grande do Sul, no qual hoje atua como segunda vice-presidente. Vencer a doença também proveu a coragem de que ela precisava para aventurar-se em uma carreira na gastronomia, atividade com a qual nunca sequer sonhou, mas que se tornou fonte inesgotável de alegrias.

Graças ao diagnóstico precoce, foi possível preservar a mama afetada pelo tumor. A cicatriz que resta nunca foi motivo de desgosto ou vergonha. Tanto que Moa optou por não fazer a reconstrução do seio, preservando no corpo a marca daqueles dias difíceis e de grande aprendizado. Além da cicatriz, ela também tem duas tatuagens que simbolizam os cinco e os dez anos de vitória contra o câncer – e de seu renascimento como profissional e mulher.

Moradora de Taquara, vive no mesmo prédio da mãe e dos irmãos, os alicerces de sua vida, e nem se importa com o trânsito para Porto Alegre, onde trabalha e milita em favor de tudo o que represente amparo e proteção às mulheres que podem, como ela, ser desafiadas pelo câncer de mama.

00b37d5c Diagnóstico não é final

“Estava vendo um livro de fotos, bem distraída, passei a mão na minha mama e senti, opa!, isso não estava aqui. Logo me deu um arrepio. Esse tipo de coisa a gente sabe que existe, se informa, mas nunca pensa que vai acontecer com a gente. Marquei uma hora na minha ginecologista, que me mandou fazer uma eco mamária. Fiz o exame e saí para curtir o feriado de Carnaval com amigos, fazendo trilhas de quatro por quatro, esporte que eu praticava na época. Engraçado, mas aquilo não ficou me martelando.

 Na volta, fui direto à gineco e ela me disse que havia uma alteração. Fui encaminhada para a mastologista, que começou a investigar mais profundamente. Fiz os exames, mas estava com muito trabalho na cabeça, nem pensava em resultados. Até que a mastologista me falou: deu câncer. Mas ela disse também que era pequeno e que, se eu agilizasse tudo bem rápido, talvez não fosse preciso tirar toda a mama. Daquele momento em diante, não escutei mais nada do que ela me disse. Por isso é legal não ir sozinha ao médico, porque a gente fica muito atordoada. Fiquei pensando como ia fazer para trabalhar. Depois da consulta, enquanto dirigia, liguei para o meu mano, que trabalhava comigo, e contei que tinha câncer. E ele me disse: desse momento em diante, eu assumo a empresa e tu vais cuidar de ti.

Mas posso dizer que o sofrimento maior mesmo não foi o diagnóstico. Foi contar para o pai e a mãe. Eu sabia que eles iriam sofrer bem mais do que eu. Meus pais sempre foram meus melhores amigos, então foi muito difícil. Meus irmãos já sabiam, mas resolvemos esperar um momento certo para contar. Fizemos uma reunião familiar, com chimarrão, de manhã bem cedo, e daí eu contei. Recebi muita força, desse momento até minha última sessão de radioterapia.

A cirurgia foi muito positiva, pois realmente não precisei retirar toda a mama. Mas a quimioterapia acaba com a gente. Tu continuas trabalhando, tentando viver uma vida normal, mas é difícil. Antes de perder o cabelo, decidi raspá-lo. Discuti com a terapeuta se devia esperar o momento de perder o cabelo e ela me aconselhou a raspar antes, já que ia cair mesmo. Foi tranquilo, porque não fiquei com aquela coisa da perda, de ver os chumaços de cabelo caindo. Não é boa essa sensação. Então, decidi me antecipar.

Quando terminei a quimioterapia, passei a integrar o Imama. Na mesa de cirurgia eu falei para a Maira: me deixa bem que eu vou te ajudar. E ela me respondeu: se depender de mim, tu vais ficar bem. Desde então, ingressei como voluntária no Imama, porque sempre foi muito bom saber que aquilo não estava acontecendo só comigo, eu não estava sozinha. Ali conheci gente de todas as idades, classes sociais e crenças, todas vivendo a mesma coisa. Aquilo foi uma escola para mim. Aquelas mulheres foram minhas inspiradoras. No último dia da radioterapia, havia 18 mulheres no grupo. Levei 18 rosas brancas e presenteei a todas, para simbolizar o fim do meu tratamento. Eu estava em paz e com a sensação de dever cumprido, pois tinha feito tudo o que tinha que fazer para me curar.

E assim fui levando a vida normal, com apoio da família e dos amigos. Mudei minha forma de ver o mundo, passei a encarar tudo com positividade. Sempre fui muito aventureira, pratiquei esportes e gostei de desafios. Depois do câncer fui me dar conta disso. A culinária entrou na minha vida como mais um desafio. Sempre curti conviver na cozinha, por influência das mulheres da minha família. Enquanto fazia quimioterapia comecei a ler muito sobre gastronomia, sobre os alimentos, até para ajudar no tratamento. Minha mãe também procurava me ajudar, preparando pratos que me estimulassem a comer, já que quando a gente faz quimio tudo tem o mesmo gosto. Fui me apaixonando cada vez mais.

Dois anos depois, meu pai faleceu e eu deixei a empresa. Passei a cozinhar com mais frequência e a fazer cursos. Fiquei 25 dias na Itália para aprender a culinária mais tradicional, aquela feita pelas famílias, pelos antigos. Comecei a fazer jantares, foi um grande desafio. E percebi que poderia mudar de vida, fazer isso para viver. Hoje faço o que me encomendarem, bolo, comida, de tudo (risos). Mudei para melhor. Antes, eu era daquelas que acordava às 4h30min para trabalhar e não tinha hora para parar. Reavaliei o que valia a pena, me reinventei.

O que ficou de tudo isso é o que eu digo sempre para as pessoas com quem convivo: quando se trata do nosso corpo, nada é distante. Temos que nos cuidar, ter boa alimentação, fazer atividade física e, principalmente, prestar atenção ao corpo. O companheiro também tem que prestar atenção ao corpo da mulher. E é fundamental ir ao ginecologista e pedir os exames. Para quem tem o diagnóstico, eu digo que os primeiros momentos não são nada bons, cai um piano na nossa cabeça. Mas, aos poucos, a gente coloca as coisas nas gavetinhas, vai olhando para tudo com calma e as coisas vão passando. Primeiro a cirurgia, depois a quimio, depois a rádio. A gente vai virando as páginas, vai superando. Confiança na equipe médica também é fundamental, para não precisar ir atrás de Google ou de vizinho que ouviu falar. E coragem. O sofrimento é igual para todo mundo, por isso a campanha Somos Todas Marias, somos iguais depois desse diagnóstico. Sempre desejo coragem, porque esse diagnóstico não é o final.

Eu nunca achei que ia morrer.”

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Força e fé para se redescobrir

FOTO Manoela DAlmeida (Bandits graphiks) | ASSISTENTE DE FOTOGRAFIA Bruno Meira | TRATAMENTO DE IMAGEM Jorge Gariba Batista | LOCAÇÃO Floricultura Winge

A descoberta de dois tumores na mama direita foi, para a administradora de empresas Carla Salim, de 38 anos, o ponto mais alto de um ciclo de sofrimento que havia começado cerca de um ano antes, quando a irmã mais velha recebeu diagnóstico de câncer hepático com metástases e, em 40 dias, acabou sendo vencida pela doença. Esta morte prematura foi tragédia e salvação familiar ao mesmo tempo, pois motivou a caçula a também investigar a fundo a própria saúde.

Casada e mãe de dois filhos, de cinco e três anos, Carla relembrou, durante a sessão de fotos deste ensaio, o antigo ofício que tinha quando mais jovem. Como modelo, viajou por países como Portugal, Grécia e França, para fotografar e desfilar. Acompanhada do marido, Cristiano, ela reviveu a adrenalina que sempre sentiu diante das lentes, mas dessa vez por uma causa bem diferente: ao longo do seu processo de aceitação e amadurecimento, percebeu que sua história poderia ajudar e inspirar outras mulheres que sofrem do mesmo mal. E é isso o que ela mais quer: tornar o câncer um instrumento de conforto e alegria.

Apenas um dia depois desta entrevista, Carla enfrentou sua primeira sessão de quimioterapia – nos próximos três meses, serão outras três, que podem fazê-la perder os longos cabelos ruivos de que tanto gosta. Mas isso não será problema. Religiosa e otimista, ela alia a fé ao temperamento alegre para passar da forma mais leve possível por todas as etapas do tratamento. Ao final, pretende emergir renovada, carregando para sempre em si as marcas de uma batalha vencida e de uma vida nova que só foi possível graças às dificuldades impostas pelo câncer.

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Alegria e positividade 

“Nunca fui de cuidar de mim, sempre cuidei dos outros. Até que chegou o dia em que tive que olhar para mim mesma. Pouco tempo depois da morte da minha irmã, senti uma dor muscular do lado esquerdo do peito, na altura do seio. Me assustei e procurei o médico. Queria ir ao oncologista porque estava muito assustada com tudo o que havia acontecido com ela (a irmã). Mas os profissionais não se interessavam por mim porque eu não tinha nenhum diagnóstico, nem suspeita. Fiz mamografia e ecografia, e a médica desconfiou de algo estranho, só que na mama direita, lado contrário ao da dor. Quando ela mandou repetir o exame, senti que algo estava errado. Com a chegada do resultado, soube que teria de fazer uma biópsia e que as chances de ser um tumor maligno eram muito grandes. Meu mundo caiu ali.

No dia seguinte já fiz a biópsia, e ela confirmou o carcinoma. Tive muito apoio do meu médico, que foi incansável. Até exames ele marcava para mim. Aliás, fiquei quase um mês só fazendo exames, porque havia uma desconfiança da existência de outros tumores. De fato, uma ressonância confirmou que havia outro nódulo atrás do primeiro. Este episódio da ressonância foi bastante difícil, porque tenho claustrofobia e seria muito difícil permanecer três horas dentro daquela máquina. Rezei muito, busquei apoio em Deus e tentei pensar nos meus filhos o tempo todo para aguentar tudo aquilo.

Depois disso, o médico fechou o diagnóstico: eram mesmo dois tumores no seio direito que não poderiam ser reduzidos por quimioterapia antes da cirurgia. Sabendo disso, encarei a mastectomia total da mama, com muita coragem e a ajuda de muitos amigos. Outra coisa maravilhosa desse período foi que a minha mãe, depois de ter enfrentado tanto sofrimento com a doença da minha irmã, ficou cuidando dos meus filhos enquanto eu me recuperava. Assim, meu marido pôde me acompanhar em todos os momentos, o que foi muito bom.

Durante todo este processo, tenho tentado manter minha alegria e a minha positividade. Entrei na cirurgia sorrindo, convidei a equipe a fazer uma oração antes do procedimento, e, segundo o meu médico, acordei sorrindo também. Não é fácil, mas tenho tentado manter uma postura mais otimista e alegre diante dessa dificuldade.

Por enquanto, tenho acumulado motivos para agradecer ao longo desse processo. Minha cirurgia foi um sucesso, meu mamilo foi preservado, os linfonodos estavam limpos, não vou perder a força no braço, vou poder continuar segurando os meus filhos no colo. Estou agradecendo sempre por tudo isso. Até pela minha cicatriz, que é a marca física de tudo o que estou passando e que vai simbolizar o meu renascimento.

Agora estou me preparando para os ciclos de quimioterapia, que demorarão três meses. Vou perder o cabelo, e isso me preocupa. Não só pela parte estética, mas principalmente pelas crianças. Mas já pesquisei e vou mandar fazer uma peruca com o meu próprio cabelo. E sei que preciso buscar a vaidade em outros lugares, como na maquiagem, nos acessórios, nos brincos, nos lenços. Não quero ficar com o aspecto de doente, quero manter um otimismo e um pensamento positivo. Também tenho medo de ficar fraca, nauseada, e de não poder cuidar dos meus filhos.

Cheguei a questionar o plano de Deus para mim, a considerar tudo isso uma grande injustiça. Mas penso que a revolta não é a resposta. E estou entendendo, aos poucos, o que está acontecendo. Estou compreendendo que tudo isso veio para que eu me desse conta do que eu estava fazendo comigo mesma. Eu não estava me cuidando como deveria, estava dando pouca atenção a mim mesma. Estava preocupada em ajudar as pessoas a minha volta, meus filhos, meu marido, as pessoas próximas. Mas negligenciava o meu próprio lazer, a minha própria alimentação, a minha própria saúde. Estou aprendendo tudo isso com este processo. Vou te dar um exemplo: eu nunca tinha tempo para ir ao salão me cuidar, ficar mais bonita. Agora, como a cirurgia limita um pouco os movimentos do meu braço, tenho encontrado tempo para ir ao salão toda semana. Não é uma maravilha? (risos)

Ao longo desse processo de crescimento, percebi que quero ajudar outras pessoas que enfrentem esse problema. Às vezes, basta uma conversa para que as elas entendam que câncer não é o fim, perder um seio não é o fim. Pelo contrário. É o começo de uma nova etapa na vida, com muitas possibilidades. Vou sofrer? Vou. Vai continuar doendo ainda por um tempo? É possível que sim. Mas é um novo ciclo na minha vida. Quero viver esse momento intensamente e quero dividi-lo com outras pessoas, para ajudá-las.”

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Caminho para o crescimento

FOTOGRAFIA Carine Wallauer | BELEZA Tais Andrade | LOCAÇÃO agradecimento Mariana Carneiro.

Em exames de rotina, que tinha por hábito fazer anualmente, a bacharel em turismo Rosângela Kelerman, 61 anos, descobriu um pequeno nódulo em uma das mamas que deixou o médico alarmado. Pouco tempo depois, uma biópsia já revelava que a desconfiança tinha fundamento. Tratava-se de um tumor em estágio inicial que deveria ser tratado com cirurgia imediata. Era fevereiro de 2013, e a notícia foi o maior susto da vida de Rosângela.

Hoje, livre do pesadelo, ela ainda está em tratamento. Faz exames de três em três meses e toma religiosamente os medicamentos que inibem a possível formação de novos tumores. A pequena cicatriz que carrega no seio esquerdo é a lembrança de um desafio vencido, mas também a singela marca de algo que poderia ser muito mais devastador – e só não foi graças à prevenção. Como estava em estágio bastante inicial, a doença foi combatida somente com cirurgia e radioterapia, sem necessidade de retirada da mama ou quimioterapia.

Casada e mãe de dois filhos, um rapaz de 35 anos e uma moça de 24, Rosângela garante que não tem mais medo de câncer. Pelo contrário. Por isso, mostra a cicatriz sem pudores, como prova de que as mulheres podem ser mais fortes que este inimigo. Com uma receita que alia cuidado e prevenção, confiança na medicina e uma fé inabalável na vida, ela sabe que a vitória é certa.

Processed with VSCOcam with a6 preset Desejo de ser feliz

“Doenças como o câncer de mama, que são graves, a gente nunca imagina que vai ter. A gente ouve falar que tem que prevenir, tem que cuidar, mas a gente acha que pode acontecer com qualquer um, menos conosco. Eu pensava: estou de bem com a vida, isso nunca vai me acontecer. A minha sorte é que sempre fiz meus exames de rotina. Eles me salvaram, pois descobri muito cedo e fiquei dentro daquela estatística de 95% de chance de cura, quando o diagnóstico é precoce. Por ter descoberto o tumor logo no comecinho, não precisei retirar toda a mama e nem fazer quimioterapia, a rádio foi suficiente.

Quando o médico me chamou e me disse que era preciso fazer uma biópsia depois do exame de rotina, vi que a coisa era feia. O mundo caiu, perdi o chão. Me perguntava por que aquilo estava acontecendo, que extensão teria, como seria aquilo tudo, abriu um buraco na vida, uma coisa horrível. Mas com o tempo, com a investigação, tive mais clareza de tudo. Tive algo que é fundamental, que é o acolhimento e o apoio dos médicos e da família. Assim comecei a vencer tudo isso. Tive fé na vida e sempre acreditei que o bem sempre seria maior do que o mal, que o bem sempre iria vencer. Depois que passou o susto inicial, pensava que, se aquilo era para mim, eu teria condições de vencer. Sempre tive essa postura diante da vida, de acreditar que as adversidades vinham para que eu pudesse crescer, sair melhor delas do que entrei. E consegui: sou mais uma vitoriosa entre tantas que enfrentam coisas iguais ou muito piores do que eu.

O pior momento de todos foi a descoberta. Eu sabia que era algo muito ruim, mas não sabia ao certo o que era. E também pensava: quem vai me operar? Como vou escolher? Depois que eu escolhi o médico e criei com ele uma relação de confiança e de identificação, tudo ficou mais claro. Pensei: deixo para ele a medicina e eu vou construir o lado espiritual que era necessário para o meu crescer e o meu curar. A fé em Deus me fez acreditar que eu venceria e sairia melhor das dificuldades que estava passando. Posso dizer que a fé me fez vencer esses obstáculos. Quando a gente entra em uma doença como essa, que nos tira o chão, temos que acreditar que vamos sair dela, que vamos sair dessa briga mais fortes do que entramos.

A família também construiu junto esse crescimento em torno da minha doença. Conversamos entre nós para ver como cada um estava se sentindo dentro desse processo. Foi doloroso, todos adoeceram comigo e tiveram que viver o seu processo de dor e aceitação. Dentro do espiritismo, acredito que estamos juntos, como família, por alguma razão. Então, um de nós foi o portador da doença, mas todos, em algum grau, sofreram com ela também. Mas todos me apoiaram muito. E cresceram junto também.

Saí disso tudo mais gente, mais humana, com mais fé e com mais crença em todas as coisas. Saí querendo viver, querendo ser feliz. Aprendi que nossa função na vida é ser feliz e aproveitar tudo o que aparece para o nosso crescimento como seres humanos. Aprendi também a deixar as coisas pequenas pelo caminho, a não me desgastar com o que não tem importância. Tu não sabes o quanto tu ainda tens de vida, né? Por isso, tens que viver a felicidade hoje, fazendo o bem.

Posso dizer que saí mais forte de tudo isso e aprendi a deixar pelo caminho o que não tem importância.”

 

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