Em livro, jornalista gaúcha conta jornada para superar obsessão pela forma física: “Ninguém nos trata tão mal quanto nós mesmas”

Foto: Maurício Nahas, divulgação
Foto: Maurício Nahas, divulgação

Ao verem a jornalista gaúcha Daiana Garbin na capa de Fazendo as Pazes com o Corpo (Editora Sextante), talvez os leitores tenham o mesmo sentimento de incompreensão do autor do prefácio do livro e marido de Daiana, o apresentador Tiago Leifert: como pode uma mulher tão bonita sofrer tanto com a sua imagem?

Em um relato ao mesmo tempo sincero, bem-humorado e brutal, Daiana descreve episódios traumáticos – de crises de desespero após comer demais ao endividamento em razão de cirurgias plásticas –, fala sobre o quanto sofreu duplamente por isso (com o distúrbio e com a culpa) e como se deu o seu processo de cura – ainda incompleto, como ela faz questão de ressaltar.

Hoje, a farroupilhense transformou seu aprendizado em profissão e missão de vida ao trocar a reportagem de TV pela apresentação do canal Eu Vejo, no YouTube, voltado especialmente às mulheres. Segundo Daiana, as maiores carrascas delas mesmas. Confira a conversa dela com Donna.


No vídeo de apresentação do seu canal no YouTube você fala que a aceitação do corpo é a “nossa próxima revolução”. Como você chegou a essa conclusão?

Percebo que as mulheres estão aprisionadas nos seus corpos. As mulheres estão deixando de aproveitar momentos da vida e oportunidades pessoais e profissionais por vergonha do corpo. Eu tinha essa impressão antes do canal, pelo que eu sentia e pelo que conversava com as pessoas, mas quando lancei o canal e em três meses recebi mais de 3 mil e-mails de todo o Brasil, tive a certeza. É nossa próxima revolução porque, no dia em que pararem de ter vergonha, as mulheres começarão a conquistar coisas e ocupar espaços que hoje deixam de ocupar porque serão julgadas pela aparência. De fato, essa sociedade julga muito. Essa é outra barreira que precisamos romper. Perdemos pessoas brilhantes porque elas têm vergonha do corpo. Eu recebi o e-mail de uma menina que sequer aparecia nas entrevistas de emprego porque certa vez ela foi humilhada por um entrevistador por ser gorda. Então, ela já nem tentava de tanto medo.


Ao mesmo tempo em que ouvimos mais discursos como o seu, observamos o padrão de beleza das musas fitness ganhando força nas redes sociais. Você inclusive fala sobre “blogueiras fake news” no livro. Existe uma forma de esses dois discursos conviverem?

Eu tenho muito medo de discurso fitness. Tudo bem se a pessoa está realmente feliz, e saudável com uma dieta súper restrita e com um corpo súper sarado. Se ela não usa anabolizantes, diuréticos, laxantes, hormônios, anfetaminas e cirurgias plásticas, se tem um corpo lindo somente cuidando dele com alimentação, respeito e carinho, eu assino embaixo: isto é saúde. O problema é que muitas vezes esse corpo vendido na revista e na rede social é fruto de tudo isso que eu citei. E esses recursos não estão nas hashtags, não estão na legenda da foto. As hashtags são #saúde, #foco, #determinação, #lifestyle. Também não é saúde fazer exercício físico até vomitar ou erguer peso até chorar. Isso é machucar o corpo por motivos estéticos.

E do outro lado da tela do celular? Por que o público dessas blogueiras é formado majoritariamente por mulheres que almejam aquele corpo?

Pois é. Em palestras costumo perguntar duas coisas. Primeiro: por que você segue pessoas que não fazem parte da sua vida? Segundo ponto: essas pessoas fazem você cuidar do seu corpo com carinho ou elas só te mostram uma vida que você não tem e passa a achar que a sua é uma droga? Que a vida do outro é sempre melhor? Isso faz você ser mais feliz ou mais frustrada? Cito pesquisas no livro que mostram que as redes sociais têm esse impacto negativo nas nossas vidas. Você compara a sua vida com a dos outros. Aí você esquece que compara as 24 horas da sua vida – com coisas boas, ruins, acertos e fracassos – com uma foto de um segundo da vida de uma pessoa que você acha que é linda e maravilhosa 24 horas.

Raciocínio semelhante pode ser aplicado a você, não? Quem a assistia na TV ou seguia nas redes sociais, não imaginava que você sofria de um distúrbio alimentar. Você inclusive relata ter sentido culpa por sofrer sem achar que havia um motivo para isso, pela falta de um “problema de verdade”. Como foi aceitar e tornar isso público?

Eu trabalhei muito isso na terapia. E estudo meditação da aceitação e da autocompaixão para entender que todas as pessoas têm suas dores. Quando a gente vê o outro com dinheiro, com beleza, com tudo o que a gente acha que é sinônimo de felicidade, a gente esquece que não existe vida perfeita pois não existe ser humano perfeito. Eu tive que aprender a minha vulnerabilidade, a minha dor. Perceber e ter coragem de procurar ajuda. Não é fácil ir a um psiquiatra e dizer: olha, eu tenho esse problema e não sei como lidar. O que eu sonho é em tocar o coração das pessoas para que elas não tenham vergonha de procurar ajuda médica. Às vezes, a dor emocional causa mais sofrimento do que a dor física. Se você ficar desqualificando o sentimento, nunca vai conseguir melhorar. Pelo contrário, além de sofrer do distúrbio, se sente fútil por ter essa dor.

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Você relata diversos episódios da infância traumatizantes: as aulas de balé, ter de se pesar na frente dos colegas de Educação Física… Existe uma forma de proteger ou preparar crianças para que tenham menos problemas em relação a isso quando adultas?

Interessante você perguntar isso, porque é justamente o tema do meu último vídeo no canal (uma entrevista com a psicóloga Nara Mendes Estella). Ela explica o seguinte: a gente não deve basear a educação de uma criança na aparência. Se ela começa a comer demais, ganhar peso, e essa família disser pra ela: “Você está gorda, você está feia, ninguém vai querer te namorar”, a chance de ela internalizar que o valor dela como ser humano está no corpo é muito grande. Transtornos alimentares têm causas múltiplas, mas dois fatores socioculturais são muito fortes: o padrão de beleza vigente e o comportamento da família em relação à alimentação e ao corpo. Então você deve ensinar que ela tem de ter uma alimentação saudável, comer verdura, não é para ela ficar magra e bonita, é para ter saúde, ter energia para brincar com os amiguinhos. Outro cacoete nosso é só elogiar a beleza da criança: lindo! Fofo! Princesinha! Por que não chamar de inteligente, de corajosa, de forte, de habilidosa? Quanto menos se referir à aparência, menor a chance de ela rejeitar o corpo no futuro.

Foto: Mauricio Nahas, divulgação

Foto: Mauricio Nahas, divulgação

Você é natural de Farroupilha. Vê relação entre os distúrbios e a cultura da serra gaúcha em relação à comida?

Certamente. A minha educação familiar sempre foi muito baseada na comida. Qualquer alegria ou tristeza se transformava em comida. Cresci com a regra de comer até ficar “sdjonfa”, como dizemos por lá. Significa até estufar e não aguentar mais. Isso fez eu não ter aprendido o que era fome e o que era saciedade. Isso é uma cultura muito forte do Rio Grande do Sul. A gente esquece que o estômago da criança é pequeno. Especialistas dizem que os pais têm que ofertar comida saudável, mas a quantidade é a criança que precisa decidir.

O Brasil oscila entre líder e vice-líder em cirurgias plásticas estéticas. O que há com a brasileira?

Não estudei esse fator local a fundo, mas uma coisa é certa: nós somos um país de muita exposição do corpo. E essa exigência de mostrá-lo ganha um novo impulso com as pessoas exibindo seus próprios corpos em redes sociais. Isso faz com que a cobrança fique mais alta e mais pessoas adoeçam. Minha pergunta é: precisa expor tanto? Por que nossas meninas estão aprendendo que precisam colocar fotos de biquíni para ter likes? Digo que é preciso pegar o corpo de volta pra gente. O corpo virou uma imagem a cultivar para exibir aos outros. Mas ele é dos outros ou ele é seu? É a casa de quem?

Para quem se reconhece no que você passou, qual é o primeiro passo ao identificar um distúrbio?

É exatamente esse. Parar de se comparar com os outros. Olhar para dentro de si e reconhecer as suas qualidades e virtudes. Principalmente as mulheres. Nós somos as nossas piores inimigas. Nossos piores carrascos. Ninguém nos trata tão mal quanto nós mesmas. Temos que voltar a olhar pra gente com carinho, com compaixão. Parar de se comparar e recuperar a autoconfiança. Recuperar a condição além do corpo: de mulher, de mãe, de profissional…

O seu tratamento ainda é recente. O que você já deixou definitivamente para trás?

É importante dizer que ainda hoje não estou curada. Com a questão da comida bem resolvida. Ainda como mais do que deveria. Ainda desconto minhas emoções nela. Fiquei 22 anos – desde os 12 – me alimentando desse jeito, não é em um ano que vou mudar tudo. É um processo longo e demorado. Ainda estou aprendendo. O que parei definitivamente é de machucar o meu corpo. Não tomo mais remédio algum para emagrecer e me exercito de três a quatro vezes por semana, no máximo, porque eu gosto, e não mais duas horas por dia. Respeito meu corpo e minha saúde. Também não acho que a solução é o oposto. Comer pizza e fritura todo dia também não é tratar o corpo com carinho. Eu trato ele como meu amigo. Dou a ele alimentos saudáveis, ginástica, mas também me permito uma taça de vinho e uma macarronada de vez em quando. Isso também é saúde.

daianagarbin03Fazendo as Pazes com o Corpo
Daiana Garbin
Editora Sextante, 2017
168 páginas
R$ 34,90

 

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