Faça as pazes com seu prato: saiba identificar se sua relação com a comida está fora do normal

FreePics/Reprodução
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Marque se você se identifica com alguma das alternativas:

( ) Sente remorso e culpa extrema quando come chocolate, salgadinhos ou qualquer comida considerada “proibida”
( ) Sabe de cor a tabela de calorias, soma tudo diariamente e surta se passa da “cota”
( ) Come pouco mesmo quando está com fome (e às vezes come demais mesmo quando já está saciada)
( ) Leva a própria marmita fit no casamento da amiga para não sair da linha na festa

Quem se identifica com um dos perfis acima deve ficar alerta: a forma como você se relaciona com a comida pode estar um tanto desequilibrada. Existe até um nome para esta situação: “comer transtornado”, comportamento que os especialistas identificam como um problema cada vez mais frequente. O conceito é novo e fica em uma linha tênue, no meio do caminho entre a alimentação considerada normal e os transtornos graves (bulimia, anorexia etc). Na teoria, o comer transtornado é quando você recorre a práticas inadequadas para controlar o peso ou emagrecer ou comportamentos pouco saudáveis. Na prática, é quando esse tema ocupa tanto do seu tempo que impacta em diferentes aspectos da vida, com sofrimento físico, social ou emocional.

– Se você passa boa parte do dia pensando em comida, no seu peso ou na sua imagem, tem algo errado aí – explica a psicóloga Silvia Cunha, doutora em Psicologia pela UFRGS, que trabalha com comportamento alimentar.

Silvia passou a observar o perfil de suas pacientes no consultório, a grande maioria mulheres, muitas delas com o mesmo problema. Desde a adolescente que se angustia querendo um corpo inatingível como os que vê nas redes sociais até a que leva seu lanche fit a qualquer ocasião social, os casos relatados demonstram que há um desequilíbrio causado pelo excesso de necessidade de controle do peso e daquilo que é ingerido.

Fotos: Pixabay

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OK, é difícil encontrar alguém que não se preocupe com a própria aparência, ainda mais nós, mulheres. Mas o exagero com este objetivo é que pode ser prejudicial.

– Mulheres sofrem mais neste quesito por um soma de fatores. Existe a cobrança por beleza, temos mais hormônios, a gente acumula mais gordura no corpo e mais tarefas, desde cuidar da casa e manter a geladeira abastecida. Mas saúde não é só a ausência de doença, é um estado de completo bem-estar físico, mental e social. Se você abre mão de eventos normais como ir ao almoço da família por conta disso, sair para jantar com o namorado ou leva uma marmita até a festas, você obviamente tem uma perda social – completa Silvia.

Adepta da linha de estudos da Nutrição Comportamental, a nutricionista Tamara Goldstein Chazan explica que a forma como uma pessoa se relaciona com a comida passa sempre pelo mesmo caminho: as emoções. E, ah, são tantas… Tristeza, tédio, solidão e a campeã de todas, a ansiedade, acabam sendo motivadoras do comer transtornado. Em um grupo de apoio semanal em Porto Alegre, ela orienta mulheres a não classificar alimentos como “bons e ruins” e esquecer aquela regra de comer de três em três horas.

– É preciso incentivar e resgatar o comer intuitivo, fazer com que as pessoas possam ser donas de suas escolhas alimentares. Não há dietas ou planos, não debatemos números, de peso e calorias. O que se busca é saúde – diz Tamara.

Você que marcou algum “x” no início do texto e chegou até aqui deve estar se perguntando: e tem cura, afinal?

– Não falamos em cura, e sim em tratamento, focado em reconceituar a relação com comida e aprender formas de lidar com emoções que a desequilibram. Olhando para si mesma, irá identificar os gatilhos que a atrapalham, trabalhar a autoimagem e mudar hábitos de vida – diz Silvia.

COMO MUDAR SEUS HÁBITOS

O primeiro passo para comer apenas a comida sem o peso das emoções é o autoconhecimento.

• Está muito difícil ficar atento aos sinais de fome e saciedade?
A psicóloga Silvia Cunha sugere que você responda antes de colocar algo na boca:
1) Quando comi pela última vez?
2) Estou com algum tipo de desconforto físico?

• Lembre-se de que não é preciso comer até o estômago ficar supercheio. A barriga roncando é como a sede, um lembrete de que você já deveria ter se hidratado. Cada pessoa deve descobrir seu ponto de fome real.

• Atenção para este detalhe: o cérebro demora até 20 minutos para processar a sensação de saciedade total da refeição.

• Na maior parte das vezes, explica a psicóloga Silvia Cunha, o mais importante é verificar se você está repetindo um comportamento automático. Se devora a comida na frente da TV ou fica no celular durante as refeições, se faz lanches na frente do computador, é hora de revisar os hábitos.

GB-wellness/Reprodução

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Mindfuleating, já ouviu falar?

Comer sozinha pode causar sentimentos de tristeza e, assim, você acaba comendo mais. Mas comer em grupo também não é garantia de comer menos. Em casa, com as panelas todas servidas em cima da mesa da cozinha, você pega uma colher a mais aqui, outra ali, e põe no prato só para fazer companhia ao marido e filhos. No trabalho, refeitórios cheios e barulhentos com colegas falando sobre, ora bolas, trabalho, também podem ser um fator de ansiedade. Como lidar com estas situações?

O mindfuleating é uma das principais ferramentas indicadas para todos os casos acima. Derivado do mindfulness, a técnica propõe comer com atenção, plenamente ciente do que está acontecendo dentro e fora de si, sem distrações.

– Quando estamos treinados com esta consciência, nossa alimentação acontece equilibradamente, sem a necessidade de julgamentos e proibições. Quando não temos esta consciência, os problemas se misturam aos momentos das escolhas alimentares e acabam desequilibrando as nossas energias – explica o chef César Sperotto, que atua como food coach na Capital, usando ferramentas de orientação, motivação e de escuta profunda para equilibrar o corpo e a mente pela alimentação.

A boa notícia é que é possível exercitar esta atenção plena tanto em casa quanto no ambiente de trabalho. Dez a 20 minutos diários de exercícios de respiração em um local tranquilo garantem uma mente menos agitada – bônus extra se forem feitos antes das principais refeições. Não tem todo esse tempo? Faça cinco minutinhos, então. A família estranhou o novo hábito ou fez pouco caso? Respire (mais) fundo ainda e explique sua estratégia:

– É normal sentirmos dificuldade quando alteramos o nosso comportamento dentro de algum grupo, família ou trabalho. Principalmente quando se trata de almoço e jantar, os momentos mais importantes do dia. No que você prioriza sua saúde, isso pode ser um fator motivacional para que quem estiver ao redor também perceba a diferença e talvez mude a postura – avalia César.

Grandes corporações já tomaram ciência dos benefícios de locais tranquilos para as refeições dos funcionários: o Google, por exemplo, criou o Search Inside Yourself (busque dentro de você mesmo, na tradução). Há uma sala especial de meditação para que o colaborador possa ficar alguns minutos antes do almoço tentando aquietar a mente. E mais: um dia da semana na empresa é dedicado à alimentação consciente (e em silêncio). Que tal?

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PARA LER
O Peso das Dietas (Sophie Deram, Editora Sensus, 2014)
Baseada em estudos científicos, a autora mostra que fazer regime é a principal fonte de ganho de peso das pessoas, a longo prazo, e mostra alternativas para manter uma vida mais saudável e equilibrada.

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PARA ASSISTIR
Embrace (Netflix)
A ativista Taryn Brumfitt lidera uma cruzada para acabar com o constrangimento que somos levados a sentir de nosso corpo e criar uma nova forma de percepção corporal.

PARA PARTICIPAR EM PORTO ALEGRE

• A psicóloga Maria Isabel Mattos e a nutricionista Tamara Goldstein Chazan coordenam um grupo de apoio semanal para mulheres que brigam com a comida e a balança. Ocorre toda segunda-feira, das 19h30min às 20h30min, na Alimentas Ideias Nutritivas (Av. Ipiranga, 7.464 sala 1124, Jardim Botânico), com valor mensal de R$ 220.

• A psicóloga Melissa Triska e a nutricionista Karina Costa ministram no dia 5 a palestra “Faça as pazes com sua fome”, para aprender a distinguir a fome da vontade de comer. Será no Espaço Terapêutico Bem Viver (Avenida Arlindo Pasqualini, 308, em Ipanema), às 19h30min. Entrada mediante doação de material escolar ou brinquedo.

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