Felizes sem filhos

Foto: Carlos Macedo

Reportagem: Patricia Lima
Fotos: Adriana Franciosi

Uma nova configuração social cada vez mais comum pode dar, em pouco tempo, um trabalhão danado aos publicitários. Eles terão que reinventar a velha fórmula do comercial de margarina (e de mais uma porção de produtos, desde alimentos até móveis e seguros de banco), já que cada vez mais mulheres e seus companheiros admitem que não pretendem ter filhos. E estão muito felizes com essa decisão. O modelo tradicional de família, no qual o casal obrigatoriamente procria, está na berlinda para muita gente.

Números comprovam o que se percebe no convívio social: casais sem filhos são cada vez mais numerosos. E, mais curioso ainda, o inverso se comprova. Dados do IBGE revelam que o número de casais com filhos vem caindo – uma queda discreta, é verdade, mas perceptível. O censo de 2010 diz também que o Rio Grande do Sul é o estado com mais casais sem filhos do país. Somente em Porto Alegre foram registrados mais de 8,6 mil na época do recenceamento.

Na prática, isso significa uma cena cada vez mais corriqueira: pessoas solteiras e principalmente casais com muitos anos de convivência que assumiram a decisão de não ter filhos. Argumentos em favor da maternidade são abundantes desde sempre. A continuidade do que somos, a realização dos sonhos frustrados dos pais, o amor incondicional possível somente quando se tem filhos, a necessidade biológica da reprodução, a companhia e o cuidado na velhice, enfim, motivos nunca faltaram no discurso coletivo. A diferença é que, de uns tempos para cá, os motivos para não tê-los também aparecem. Liberdade, individualidade, trabalho e absoluta ausência de instinto maternal estão entre as justificativas mais ouvidas.

O que parece uma tendência da modernidade tem explicações já identificadas pela ciência. O casal sem filhos, que há 50 anos não passava de uma anomalia social, hoje é observado por pesquisadores que rastreiam todo o tipo de explicação. Um dos exemplos mais esquisitos dessa corrida dos cientistas na busca de justificativas para a mudança no comportamento reprodutivo dos seres humanos vem da London School of Economics, que conseguiu encontrar uma conexão entre a inteligência das mulheres e a sua disposição em procriar. Segundo o estudo, quanto maior o Quociente de Inteligência da mulher, menor a vontade de ter filhos. A cada 15 pontos a mais no QI, cai em 25% o desejo de ser mãe.

Um dos primeiros estudos a questionar a premissa de que a maternidade traz indiscutível felicidade foi elaborado em 2004 pelo economista americano ganhador do Prêmio Nobel, Daniel Kahneman. Ele entrevistou mais de 900 mulheres no Texas e descobriu que a tarefa de cuidar dos filhos estava em 16º lugar, num ranking de 19 atividades mais prazerosas. Coisas como cochilar, falar ao telefone e rezar são consideradas mais divertidas. Uma outra pesquisa, feita em 2008 na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, revela que a relação entre os casais esfria depois do nascimento dos filhos. Para as mulheres entrevistadas, a satisfação com o casamento caiu quatro pontos ao longo do primeiro ano do rebento.

A relação entre filhos e felicidade foi abordada de forma direta em uma pesquisa conduzida pela universidade americana de Wake Forest. Nos estudos, descobriu-se que os casos de depressão são mais frequentes em pais do que em pessoas sem filhos.

Recentemente, questões ecológicas foram evocadas para incrementar o debate. Em livro publicado nos Estados Unidos, o escritor Alan Weisman afirma de modo categórico que, ou a espécie humana desacelera as taxas de reprodução, ou comprometerá a própria sobrevivência na Terra. Countdown (Contagem Regressiva, em livre tradução), que ainda não tem tradução no Brasil, cita dados de cientistas, de governos e das Nações Unidas para alertar sobre o perigo que a superpopulação representa para a permanência do homem sobre o planeta.

Fato é que, com ou sem dados científicos, ter filhos já não é ponto pacífico, não é mais unanimidade, como no tempo da vovó. Não “tem que ter”. A maternidade não é mais o único caminho para a felicidade da mulher e para a harmonia conjugal. Aumentar a família é, neste nosso tempo, uma questão de escolha, motivo de reflexão e, por incrível que pareça, muita polêmica.

Não quer filhos? Como assim?

Em uma sociedade em que o normal aceitável ainda é casar e ter filhos, não desejá-los pode trazer alguns incômodos. Muitas vezes, mais difícil do que tomar a decisão é explicar para a família e os amigos que, sim, é possível ser feliz sem a maternidade. As mulheres ouvidas para esta reportagem e todas as outras com quem se conversou sobre o assunto são unânimes em afirmar que já foram questionadas, pressionadas e até mesmo constrangidas com perguntas e afirmações do tipo:

– Você diz isso agora porque não tem filhos. Quando tiver, vai pensar diferente.

– Que horror, não diz isso!

– Se teu marido não tiver filho contigo, vai ter com outra.

– Não vais saber o que é o amor até seres mãe.

– Isso é egoísmo da tua parte.

– Que vida triste tu vais ter!

– Só serás mulher de verdade quando tiveres um filho.

Diante da patrulha, muitas mulheres desenvolvem mecanismos para driblar as situações desconfortáveis. A psicóloga Fabiane Machado, por exemplo, responde que é estéril aos que a interpelam com insistência. Ocorre que ela nunca sequer tentou engravidar. Explicar sempre a mesma coisa, no entanto, já não é mais tolerável. Então, simplesmente inventa uma história mais constrangedora que a pergunta. E assim se livra dos inconvenientes interrogatórios sobre sua intimidade.

A necessidade de uma explicação para não desejar a maternidade tem raízes culturais. Um estudo coordenado pela socióloga britânica Katherine Hakim chamado Childless in Europe revela que, antes do aparecimento dos anticoncepcionais e da revolução sexual dos anos 1960, as mulheres não tinham filhos por causa da pobreza ou das guerras. Não tê-los era sinônimo de desgraça, miséria ou algum tipo de castigo divino que as fez inférteis. Hoje, ao contrário, cerca de 20% das européias não são mães – e somente 2% ou 3% delas não o são por infertilidade.

O mito da mãe que padece no paraíso e a aura de sublimação em torno da maternidade também ajudam a explicar o estranhamento que a decisão de não procriar ainda provoca. Mas até isso está em transformação. Parir e criar filhos já não é sinônimo de indiscutível felicidade graças a relatos de pais e mães dispostos a desvelar as faces nada divertidas de se ter filhos, sem idealização, sem romantismos. Uma das primeiras a tirar o véu que encobre os problemas da maternidade foi a bibliotecária americana Selena Giampa, que criou o blog Because Motherhood Sucks (Por que a maternidade enche o saco, em livre tradução). Ela afirma que adora ser mãe e que tem momentos de intensa felicidade. O problema é que, entre um desses momentos e outro, tudo que ocorre é desgastante e chato. Relatos como o dela abrem caminho para que outros pais e mães sintam-se menos culpados ao admitir que a função não é só alegria e que requer, sim, altas doses de paciência, renúncia e esforço. E que está permitido recusar-se a enfrentar tamanho desafio.

Algumas celebridades, que já manifestaram publicamente a decisão de não ter filhos, também ajudam as mulheres comuns sem instinto materno a sentirem-se menos extraterrestres. As atrizes Cameron Diaz, Helen Mirren, Oprah Winfrey, Renee Zellweger e a brasileira Totia Meirelles são algumas das que já declararam que fihos não têm espaço em suas vidas. E que são bem felizes desse jeito.

Sem filhos, sem culpa

As coisas foram acontecendo sem muito planejamento na vida da advogada Vera Martini, de 55 anos. Quando jovem, queria casar-se e ter filhos. Mas o amor da vida tardou a chegar e ela nunca pensou em produção independente. Quando encontrou seu companheiro e casou, aos 42 anos, já era tarde para a maternidade.

– Não havia mais espaço na minha vida para filhos. Não queria abrir mão de tudo para ser mãe.

E foi assim que a vida se encarregou de mostrar a ela que a felicidade seria possível, mesmo com o desvio do plano inicial. Hoje, mais madura, compreende que a maternidade nunca foi uma necessidade, um desejo visceral. Era mais um apelo cultural, que ainda causava eco em sua geração de mulheres, para quem a única felicidade genuína residia na formação de uma família. Na verdade, segundo Vera, isso nunca foi importante.

Observá-la com os sobrinhos e afilhados, no entanto, prova que não é preciso parir filhos para exercer o amor maternal. Ela os mima, convive com eles, fez de todos gremistas fanáticos e os carrega para a Arena sempre que pode. Apesar disso, e talvez por causa disso, nunca sentiu falta de filhos seus.

– Não ter filhos mais cedo foi circunstância. Depois, foi decisão.

Do jeito que ela quer

A publicitária Leah Macedo, de 48 anos, tem um único motivo para não querer ter filhos. Não é a preocupação com o corpo, não é a dedicação exclusiva ao trabalho, não é a indiferença às crianças, não é a falta de amor. O motivo é o gosto. Gosto, não. É a necessidade vital de liberdade. Não ter amarras, poder estar aqui e lá, estar livre para transitar pelo mundo, é o que verdadeiramente a motiva para escolher a vida que tem.

– Quando era pequena, adorava as minhas bonecas. Mas elas ficavam intocadas na prateleira. Nunca tive muita vontade de brincar de verdade com elas. Gostava mesmo era de brincar de executiva, que tinha muitas reuniões e viajava pelo mundo – comenta Leah.

Além de não desejar filhos, ela também não queria casar. Tudo para manter-se livre. Preservou a convicção da solteirice até os 37 anos, quando conheceu um grande amor.

– Cedi ao me casar e então pensei: “Ah, pode ser que me dê até vontade de ter filhos”. Mas acontece que a vontade não veio.

O casamento terminou e hoje Leah considera a possibilidade de engatar um novo relacionamento. Mas a convicção de não ter filhos permanece intacta. Afinal, é uma mulher feliz, resolvida e cheia de amor, sem filhos por perto.

E quem vai te cuidar na velhice?

À mais clássica e recorrente das perguntas feitas a quem não pretende ter filhos, estatísticas elaboram a resposta. São as amigas, e não os filhos, que tomam conta das mulheres na maturidade. É o que diz uma longa pesquisa feita pela antropóloga Mirian Goldenberg e publicada em seu mais recente livro, A Bela Velhice. Segundo a estudiosa, existe a ilusão de que filhos são a garantia de uma velhice menos solitária e mais feliz. O problema é que, na maior parte dos casos, essa expectativa não se confirma, gerando enorme frustração nas idosas.

– O que percebi na pesquisa é que as amigas cumprem esse papel de cuidado e carinho na velhice. Um vínculo gerado exclusivamente pelo afeto, e não pela obrigação, origina relações de grande cumplicidade entre as amigas, que se divertem, se acompanham e se cuidam mutuamente – comenta Mirian.

Outra percepção revelada por Mirian é a idealização da maternidade e da família, outra fonte de frustração na maturidade.

– Muitas idosas falam da família como uma prisão, como algo que as privou de muitas coisas boas, como a liberdade. E dizem que ao final da vida percebem que o sacrifício não valeu a pena.

A antropóloga deixa claro, no entanto, que o objetivo do livro não é desestimular a maternidade ou a crença na família. Quer somente alertar para os perigos de depositar nos filhos a esperança de uma velhice feliz. Para garantir felicidade e cuidados na etapa final da vida, ela aconselha as mulheres a cultivarem suas amizades e suas relações sociais.

Escolha simples

Para a professora do Método De Rose, Naiana Alberti, de 37 anos, não ter filhos foi uma escolha fácil, pois desde muito jovem soube que não queria ser mãe. Não tem o tal instinto materno e, principalmente, não pretende abrir mão da liberdade de ir e vir a hora que quiser, sem ter que pensar que alguém depende dela.

– Ter filhos é uma responsabilidade enorme. E eu simplesmente não estou disposta a assumi-la – afirma.

Equacionar essa decisão como casal também foi simples, já que o companheiro de Naiana pensa como ela e não deseja ser pai. A quem lhe repete as velhas perguntas, ela responde que é feliz assim, do jeito que está.

– Não há vazios para preencher no meu relacionamento, não quero um enfermeiro para a minha velhice e não me sinto sozinha, pois tenho amigos e estou constantemente cercada de amor. Há muitas formas de ser feliz e cada um tem que achar a sua.

O trabalho, que é um dos fatores que afastam as mulheres da maternidade, não está entre os motivadores da decisão de Naiana. Sócia da escola em que dá aulas, ela se considera uma apaixonada pela atividade profissional que exerce. No entanto, não tem sua vida inteiramente voltada para o negócio. Tem tempo livre – pouco, diz ela, mas tem – e faz questão de viver tudo o que gosta, ao lado do marido e dos muitos amigos que cultiva. E nunca perde a oportunidade de deixar claro que renunciar à maternidade é uma decisão pessoal, íntima e sobre a qual as pressões externas não costumam funcionar.

– Até pela natureza do meu trabalho, busco o autoconhecimento constantemente. E estou muito segura e tranquila com a minha decisão. Isso, para mim, é a felicidade.

Alegria a dois

Não ter filhos sempre foi um caminho natural para a psicóloga e professora universitária Fabiane Machado. Aos 40 anos, ela não sente a mínima falta de ser mãe e se diz satisfeita com a vida que tem. Ainda mais nos últimos cinco anos, depois da união com o advogado Marcelo Machado, que divide com ela a predileção por viver sem a presença de crianças. Com a cumplicidade que surgiu pela convergência de espíritos afins, o casal preserva a liberdade de que tanto gosta – e não tem qualquer intenção de mudar. Quando começaram a se envolver, uma das primeiras coisas que Fabiane perguntou ao novo namorado foi se ele desejava ter filhos. A resposta negativa foi a senha para o início de um grande amor.

– Somos muito felizes assim, tenho a vida que sempre quis.

Mas engana-se quem pensa que eles excluíram as crianças das suas vidas. Tios atenciosos e cheios de sobrinhos, Fabiane e Marcelo participam ativamente da vida de seus pequenos, a quem amam e com quem fazem questão de conviver. Baixinha, Fabiane comenta causar identificação imediata com as crianças, o que é motivo de alegria. Com a vantagem que, depois de brincar, cada filho vai para a casa de seus pais, devolvendo o casal ao seu adorado cotidiano a dois.

 

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