Fertilização in vitro: o que saber antes de apostar no procedimento

Foto: Pexels
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Por Jane E.Brody, The New York Times

Compreensivelmente, muitas jovens foram seduzidas pela mensagem, amplamente divulgada, de que se escolhessem atrasar a gravidez e depois fossem incapazes de engravidar, poderiam ainda ter bebês através da fertilização in vitro, também conhecida como FIV.

Miriam Zoll foi uma delas. Quando se casou, aos 35 anos de idade, achava que tinha tempo de sobra para começar uma família. “Afinal, minha mãe me teve aos 40 anos e, desde 1978, a indústria de fertilidade alardeia sua capacidade de ajudar as mulheres a terem filhos em idade mais avançada”, pensava.

Quando aos 39 ela e o marido decidiram começar uma família, descobriram que a natureza se recusava a cooperar. Quatro ciclos de fertilização in vitro, física e emocionalmente desgastantes (e dois ciclos com óvulos doados) depois, eles continuavam sem filhos.

“O que não dizem é que a taxa de sucesso para mulheres mais velhas é bem mais baixa e que o setor se baseia nos 20 por cento das pacientes que conseguem, não nos outros 80. Evita dizer que a tecnologia não funcionou para aproximadamente 20 milhões de mulheres em todo o mundo durante os últimos 40 anos.”

As que não tiveram sucesso com a FIV são menos propensas a falar abertamente sobre o procedimento do que aquelas para quem a técnica funcionou.

Chocada com o que lhe aconteceu e percebendo que muitas outras enfrentavam um desapontamento semelhante, Miriam, que vive em Conway, Massachusetts, decidiu escrever um livro, “Cracked Open: Liberty, Fertility, and the Pursuit of High-Tech Babies” (Falando às claras: liberdade, fertilidade e a busca por bebês através da alta tecnologia), para colocar a reprodução assistida em uma base mais realista e contrariar a imagem perfeita da FIV.

Sua história me levou a verificar as últimas estatísticas do governo federal compiladas pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças em quase 500 clínicas de fertilidade do país sobre os procedimentos de FIV feitos em 2013. Usando óvulos ou embriões frescos (não congelados), após os 40 anos de idade, menos de 30 por cento daquelas que se submetem ao tratamento engravidaram e menos de 20 por cento deram à luz bebês que sobreviveram como resultado do procedimento.

A taxa de sucesso foi um pouco melhor quando a FIV foi feita com embriões congelados dos óvulos da própria mulher: cerca de 42 por cento engravidaram e 30 por cento tiveram bebês que sobreviveram.

O Dr. Mark V. Sauer, ex-diretor da clínica de FIV no Centro Médico Presbiteriano de Columbia, que usa a técnica há três décadas, concorda com a frustração de Miriam com a autopromoção do setor.

“Programas se gabam dizendo ser os melhores, com taxas de gravidez extraordinariamente altas, mesmo em mulheres com mais de 40 anos. Não há praticamente nenhuma idade recusada pelas clínicas”, disse Sauer em uma entrevista. E citou relatos na literatura leiga e na médica de mulheres pós-menopáusicas que deram à luz através da FIV.

“Nos sites das clínicas pode haver deturpação de dados, muitas vezes combinando informações de vários anos para maquiar os resultados. E a taxa de gravidez de uma clínica não reflete necessariamente a taxa de bebês que nascem vivos. Esses nascimentos são o que realmente importa.”

“Além disso, quanto mais jovens forem as mulheres que se submetem à FIV, melhores as taxas de gravidez”, acrescentando que essas também são mais propensas a ter gestações saudáveis que terminam com o nascimento de bebês saudáveis.

Em um relatório que publicou no ano passado em Fertility and Sterility, Sauer escreveu: “A idade avançada é um fator de risco não só para a infertilidade feminina, mas também para gravidezes que não chegam a termo, anomalias fetais, morte fetal e complicações obstétricas”.

“Embora esses riscos sejam conhecidos há séculos, mais do que nunca, um número maior de mulheres está atrasando a gravidez em busca de objetivos educacionais e profissionais. Dados americanos demonstram um aumento drástico de partos de mães que já foram consideradas ‘idosas’. Isso é particularmente evidente nas mulheres com mais de 40 anos, uma idade em que há um aumento significativo da infertilidade, bem como taxas mais elevadas de aborto natural entre aquelas que conseguem engravidar “, escreveu ele.

Sauer defende a ideia de que os médicos “promovam visões mais realistas” das realidades da gravidez em idade avançada. E os aconselha a “educar as pacientes e o público, mostrando que existe um perigo real de acabar sem filhos se elas optam por atrasar a reprodução”. O otimismo com que promovemos uma gravidez tardia deveria ser diminuído, porque os riscos para a mãe e a criança estão invariavelmente presentes; e porque muitas tentativas fracassadas também ocorrem, a hipótese de uma vida sem filhos deve sempre ser frisada.

O médico reconhece o dilema enfrentado por mulheres que querem continuar seus estudos e se estabelecer em uma carreira antes de tentar começar uma família. “Num mundo ideal, a gravidez também deveria ocorrer quando encontram um parceiro de vida que partilhe a tarefa de criar os descendentes”.

Todavia, assinala, os fatos da biologia são irrefutáveis. “Biologicamente falando, as mulheres são mais férteis entre os 15 e os 30 anos; porém, quando há uma perspectiva de carreira, muitas não estão dispostas a começar uma família, e as idades entre 35 a 45 representam o declínio terminal da fecundidade normal, além de um elevado risco de produção de óvulos e embriões com anomalias cromossômicas e outros problemas.”

A experiência devastadora de Miriam com a FIV a transformou. “De consumidora confiante, virei uma pessoa que agora sabe que é preciso fazer minha própria pesquisa, mesmo antes de ver o médico, e que é preciso fazer várias perguntas. Acreditei no que os médicos me disseram e depois fiquei chocada com minha própria ingenuidade. O consumidor devem sempre pedir para ver as provas.”

Depois de gastar muito dinheiro (em grande parte, felizmente nesse caso, coberto por um seguro do estado de Massachusetts) e sete anos tentando ter um bebê, Miriam disse que ela e o marido optaram pela adoção. “Sete meses depois de preencher os papéis do processo, nosso filho chegou”. Ela descreve o filho, agora com sete anos, como “determinado, inteligente e engraçado. Não consigo imaginar alguém mais querido”.

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