Hábito de correr torna-se um estilo de vida

Em todo o Brasil, pessoas de todas as idades estão aderindo ao esporte

A arquiteta Maria Cristina de Souza, 50 anos, começou a correr há quatro anos
A arquiteta Maria Cristina de Souza, 50 anos, começou a correr há quatro anos Foto: Ricardo Duarte

Sete horas, cinquenta e quatro minutos. Este foi o tempo que a jornalista que escreve esta matéria demorou para correr a faixa de 82,4 quilômetros de areia que separa Torres de Tramandaí no último final de semana. Pode parecer loucura fazer toda esta distância sozinha e ainda bater o recorde da prova. Mas o desafio da ultramaratona serve bem para ilustrar como funciona a mente de um corredor. Se para muitos só a ideia arrepia, para outros é o curso natural de uma trajetória que é traçada diariamente, ano após ano, treino após treino. Não há pesquisas que comprovem, mas a revolução que este esporte provoca no comportamento humano é, no mínimo, intrigante. Por que, afinal, tanta gente, em toda parte, está correndo? Como explicar esta nova paixão por algo tão ancestral como correr?

Esse fenômeno tem uma série de explicações. A mais simplista está atrelada à saúde. Mas, segundo Sérgio Xavier – chefe de redação da Runner’s World no Brasil, a revista mais lida do mundo no segmento -, vai muito além das preocupações com peso, coração, colesterol ou qualquer outro parâmetro diagnosticado em consultórios médicos.

– Tem a ver com autoestima e com a necessidade do ser humano de superar desafios. Depois que a pessoa tem esses ganhos, que são enormes, ela muda demais. E muda para melhor, em todos os sentidos. Quem conhece a corrida de perto não quer largar mais – afirma Xavier.

É visível que há algo mais profundo que explique esta febre. De uma década para cá, explodiu o número de praticantes em território nacional, incluindo o Rio Grande do Sul. Difícil encontrar alguém que não conheça algum corredor. Virou, para muitos, um sinônimo de status. Não é mais só esporte: virou um estilo de vida. Diga que você corre em uma mesa de bar. Ou conte a notícia na empresa, como quem não quer nada.

– Não é difícil entender por que as empresas estão preferindo este tipo de profissional. Eles têm hábitos e características que agradam o ambiente corporativo, como determinação, força de vontade e saber encarar os desafios de frente. Se o funcionário vence metas difíceis no esporte, pode fazer muito mais na empresa – afirma José Rubens D’Elia, comentarista das modalidades de fôlego do SporTV, como maratona, triatlon e ciclismo.

Quanto aos benefícios para a saúde, não há dúvidas. Os reflexos são vistos após poucos meses de prática regular.

– É provado que, ao praticarmos exercícios, o nosso organismo libera várias substâncias, como a endorfina, que promovem o bem-estar, aumentando nossa motivação, alegria e disposição. Esses hormônios fazem a sensação de bem-estar durar por horas após a corrida. Não há remédio que produza esses sentimentos de forma tão natural – afirma a psicoterapeuta Luciana Kotaka.

Correr emagrece e faz bem para o coração? Especialistas são unânimes em afirmar que sim, quando há, em conjunto, disciplina e reeducação alimentar. Mas essa é só a parte menor e menos interessante da história. A melhor você pode ler a seguir, com exemplos de pessoas que mudaram radicalmente de estilo de vida depois de serem apresentadas a esse democrático e apaixonante esporte, no qual superação é a palavra-chave.

Encontro de gerações

Se os bons hábitos passam de mãe para filha, o mesmo se dá ao contrário. A arquiteta Paulla Leite, 27 anos, começou a frequentar a mesma academia da mãe, Neusa Cainelli Leite, 62. Quando ambas faziam exercícios lado a lado, Paulla aproveitava para aumentar a velocidade da esteira de Neusa, só para ver como ela reagia. O que era para ser uma brincadeira virou entusiasmo. A professora aposentada começou a achar monótono caminhar e hoje não fica só torcendo pela filha nas provas: também participa.

– Vou para minha quinta competição de cinco quilômetros. A meta agora é baixar o tempo – conta, animada.

Se é moda ou não, Neusa não quer saber. O que ela acredita – e sentiu na pele – é que contagia.

– É como um vício. Não dá para parar mais. Vou ficar velhinha correndo – acredita.

A lenda do Morro do Diabo

Márcia Machado, 41 anos, fisioterapeuta e Nilo Quaresma, 35 anos, administrador de empresas, faziam parte de um mesmo grupo de corrida. Foram se conhecer mais a fundo depois de participarem de uma prova de revezamento na Capital. Ambos recém-separados, passaram a treinar juntos de manhã e podem dizer que a corrida é a melhor madrinha do casamento, já marcado para este ano.

– Conversamos, rimos e até já discutimos a relação em movimento. Mas sempre falamos a mesma língua, que é a corrida – afirma Márcia.

O casal é um dos muitos formados em competições e treinos. Mas já houve casos de separação. O educador físico Gabriel Espíndola menciona que já foi testemunha de dois casos que aconteceram com alunos seus.

– Como a corrida exige disciplina de treinos e provoca uma mudança de rotina, há mulheres que não entendem e acabam se estressando.

O mais curioso desses dois casos é que ocorreram após os atletas fazerem a Trilha do Morro do Diabo, percurso de uma das provas de revezamento mais disputadas do país, a Volta à Ilha, realizada anualmente em Florianópolis. Márcia emenda que já soube de um outro caso, bem mais peculiar.

– Conheci um cara que era casado, com filhos. Foi fazer esse trecho e, na volta, assumiu que era gay. Se apaixonou pelo dupla dele de corrida. Ambos largaram as famílias para ficarem juntos – lembra.

Entre encontros e desencontros amorosos, a corrida é sempre preservada.

Corredora peregrina

Uma boa justificativa para conhecer o mundo. A corrida “pilhou” ainda mais a administradora de empresas Anahi Michelini, 53 anos. Londres, Amsterdam e Paris foram algumas das cidades visitadas, onde correu meias maratonas (21 quilômetros) e trouxe na bagagem, além de presentes para os amigos, medalhas de participação nas provas e momentos inesquecíveis.

– Conheci as cidades a fundo, de tênis, correndo. E o mais bacana é que rola uma empatia direta. Quem corre se reconhece em qualquer lugar do mundo. É uma linguagem universal.

O que mais encanta Anahi, porém, é a diversificação de amizades.

– Sair do seu ambiente de trabalho e de família e conversar com pessoas tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão iguais, é o maior ganho de ter me tornado corredora. Sem a corrida, eu jamais teria conhecido tudo isso.

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