O chip da beleza: implante hormonal de silicone promete maravilhas para o corpo, mas há riscos

Foto: Pixabay
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 Camila Maccari, especial
À primeira vista, não tem como não se empolgar com as maravilhas prometidas: acabar com a menstruação e seus piores sintomas como a cólica e a TPM, dar um up na libido, reduzir a celulite, potencializar a queima de gordura, aumentar a definição muscular e garantir mais energia. O burburinho em torno do chamado chip da beleza pode ser ilustrado em números: são mais de 37 milhões de citações no Google, incluindo especulações sobre a lista de famosas “chipadas”. A modelo Babi Rossi teve sua ida ao médico e toda a expectativa em conquistar um corpo definido documentada por um canal de televisão. Seria incrível se a fórmula da beleza viesse contida em um chip, né?

Implante hormonal

Para começo de conversa, os médicos indicam deixar esse nome de lado porque não estamos falando, de fato, de um chip. O dispositivo é um implante hormonal de silicone, que varia de três a cinco centímetros e é colocado sob a pele do glúteo, podendo durar até um ano. Você só pode comprá-lo com prescrição médica. A base é a gestrinona, hormônio sintético com ação androgênica, que eleva o nível de testosterona no organismo e é responsável, por exemplo, pela maior facilidade no ganho de massa para quem treina frequentemente.
A endocrinologista Marcela Fontoura explica que, em alguns casos, o efeito anticoncepcional, verdadeira função do implante, não é efetivo: é preciso seguir com outros métodos para evitar a gravidez. Sua única função seria, então, questões estéticas, acompanhadas de alguns efeitos colaterais.
– Não existe essa coisa de milagre pela qual as pessoas esperam. Por causa do aumento na testosterona, pode ficar com a pele mais oleosa, a voz pode engrossar, pode aumentar a quantidade de pelo, além de outras consequências que a gente ainda não sabe porque não há estudos. E mesmo quanto à promessa de aumento de massa e emagrecimento, pode ajudar por causa da ação androgênica, mas é preciso aliar a uma rotina de dieta e exercícios – diz Marcela.
Foto: Unplash

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Uso estético questionado

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia não aprova o uso de hormônios para pessoas que não tenham deficiência. O Conselho Federal de Medicina também proíbe o uso de hormônios por motivações estéticas. Não é novidade aplicar hormônios no corpo, isso se dá há décadas, mas em casos onde estejam em falta no organismo, como por exemplo, o uso de testosterona a curto prazo para ver se há melhora em um quadro de falta de desejo sexual.
– Nesses casos, é um teste quase terapêutico e em uma quantidade que não ultrapassa o que aquela mulher deveria ter no seu organismo. Outro exemplo são os casos de mulheres que precisam fazer uma retirada brusca dos ovários na fase jovem: como os ovários também produzem hormônios andrógenos, esse desequilíbrio pode ser compensado com uma quantidade adequada de hormônio. Não é o caso do chamado chip da beleza, em que você coloca no seu corpo doses extras de hormônios de que não precisa – explica Amanda Athayde, diretora do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.
No entanto, segundo ela, não existe nenhum medicamento que tenha testosterona e que seja indicado para mulheres – nesses casos, o uso é sempre o que se chama de “off label”, que significa para uma função diferente daquela indicada na bula.
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Faltam estudos

Apesar dos efeitos imediatos prometidos e dos efeitos colaterais conhecidos, ninguém sabe o que acontece no organismo depois do uso a longo prazo da gestrinona. Amanda explica que, diferentemente do implante anticoncepcional tradicional de etonogestrel, esse não segue um padrão, o que faz com que fique ainda mais difícil saber quais são suas ações adversas no organismo:
– Pode causar sangramento atípico, resistência a insulina e um estado pré-diabético, além de queda do colesterol bom. Não existem testes que garantam a segurança da paciente.
Professora de Ginecologia da UFRGS, Maria Celeste Wender conta que a gestrinona era muito comum para tratar a endometriose nos anos 1980 e 90.
– Nessa época, as mulheres ficavam sem menstruar e reclamavam de acne, oleosidade na pele, algumas apontavam para o aumento dos pelos no corpo. A gestrinona tem ação androgênica muito forte. Desde que seu uso foi praticamente abandonado, parou de se produzir estudos seguros sobre a gestrinona e ninguém sabe quais os efeitos a longo prazo de ter o hormônio liberado diretamente na corrente sanguínea.
Maria Celeste lembra, ainda, que o hormônio não tem  liberação da Anvisa no Brasil, o que faz com que seja ainda mais difícil ter um acompanhamento sobre os efeitos a longo prazo.
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