Mulheres encontram na dança apoio para superar o câncer

OncoArte. Foto: Carlos Macedo
OncoArte. Foto: Carlos Macedo

Camila Maccari, especial

Se exercitar para recuperar os movimentos do braço, debilitado depois da cirurgia de mama, reconectar- se com o próprio corpo durante e após o tratamento do câncer e contar para o mundo que a doença não é uma sentença. Tudo isso com muita risada, conversa séria e amizade. Assim é o OncoArte, grupo de dança que também tem teatro e poesia e atualmente une 12 mulheres que encontram na arte – e umas nas outras – uma força a mais para passar por um dos momentos mais difíceis de suas vidas.
No dia 22 deste mês, elas subirão ao palco do Teatro da Hebraica para celebrar os 10 anos do grupo.
Mas não só isso. A coordenadora do grupo, a fisioterapeuta Iara Rodrigues da Silva, pode também comemorar as muitas transformações que teve a chance de assistir nesta década de ensaios, espetáculos e companheirismo:

– A dança dá a consciência corporal e reeducação postural dentro das limitações de cada uma.
Mas, principalmente, possibilita a essas mulheres conhecer o próprio corpo. Antes da dança, elas eram corporalmente introspectivas por causa do câncer e de todos os tratamentos. Tenho relatos de mulheres que não conseguiam se olhar no espelho depois da cirurgia. A dança lida com essa questão, você passa a encarar o próprio corpo.

OncoArte. Foto: Carlos Macedo

OncoArte. Foto: Carlos Macedo

A agente aposentada da Polícia Federal Elizete de Oliveira Kockhann sentiu na pele essa evolução. Ela foi apresentada ao grupo quando se recuperava da retirada de parte do seio, depois de ter passado por sessões de quimioterapia e radioterapia:

– É incrível perceber que hoje meu corpo pode mais do que podia ainda antes do câncer. Além disso, elevei a minha autoestima, me senti mais bonita e até mesmo mais sensual.

Elizete

Elizete de Oliveira Kockhann. Foto: Carlos Macedo

Além da queda de cabelo, provocada pela quimioterapia, muitas mulheres com câncer de mama passam por cirurgias para a retirada total ou para a reconstrução mamária – o que impacta na forma como veem o próprio corpo. E aí a dança entra como uma alternativa para trabalhar a autoimagem, como destaca Alessandra Morelli, oncologista no Hospital Moinhos de Vento de Porto Alegre:

– Trata- se de uma forma de expressão maravilhosa, onde se pode liberar sentimentos que, muitas vezes, as palavras não são suficientes para expressar.

Não que faltem palavras. Um dos fatores que leva e mantém as participantes no grupo é a oportunidade de compartilhar experiências com quem enfrenta ou enfrentou a mesma situação e de passar uma mensagem positiva para outras mulheres com câncer de mama. Iara conta que o sentimento geral é de uma missão a cumprir: contar para todo mundo, por meio das apresentações em eventos, hospitais e teatros, que os estigmas que vêm com o câncer podem ser eliminados.

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Oncoarte. Foto: Carlos Macedo

A procuradora legislativa Daniele Viégas Centeno descobriu o câncer de mama em 2010, com 32 anos, e teve que retirar todo o seio esquerdo. Ficou sabendo do grupo naquele mesmo ano e, depois de assistir a uma apresentação, decidiu conhecer aquelas mulheres que, segundo ela, tinham uma postura positiva em relação à vida:

– Eu sabia que o OncoArte era formado por pacientes e ex- pacientes oncológicos, que ninguém era profissional de dança, canto ou teatro, a maioria, inclusive, nunca havia feito algo parecido até a oportunidade surgir. Esse “ dar a cara a tapa”, essa coragem de se apresentar para o público, a motivação para levar uma mensagem de vida e de fé, me deixou muito emocionada.
Saí de lá decidida a conhecê- las. No início, meus objetivos eram esses, além de melhorar a amplitude dos movimentos do braço esquerdo. Mas aconteceu o inevitável: passei a pertencer 100% ao grupo, e o grupo a mim. É como se você segurasse novamente as rédeas de sua vida, só que agora com muito mais força.

Daniele

Daniele Viégas Centeno. Foto: Carlos Macedo

Hoje aos 39 anos, Daniele é a participante mais jovem do OncoArte. A mais velha é a Irmã Maria do Carmo Ramos, com 88 – oito de dança. Essa diferença de idade é só a ponta do iceberg de um grupo tão plural quanto poderiam ser mulheres com histórias, profissões e visões de mundo diferentes – oito delas foram diagnosticadas com câncer de mama, outras duas com outros tipos. Mas elas se encontram em um dos momentos mais difíceis da vida e, afirmam, de cara passam a fazer parte daquela família.

maria do carmo

Maria do Carmo Ramos. Foto: Carlos Macedo

– A palavra- chave é companheirismo. Sempre que chega alguém, é bem recebida e acolhida. O grupo traz esse conforto emocional que todas precisam nesse momento ou depois de ter passado por ele.
Passar por um diagnóstico e tratamento de câncer traz muitos sentimentos conflituosos, a pessoa não sabe o que vai acontecer e participar de uma rede faz a diferença – explica a fisioterapeuta Iara Rodrigues da Silva.

As experiências compartilhadas, às vezes, são muito difíceis: em um grupo onde muitas tiveram câncer há relativamente pouco tempo e algumas seguem fazendo exames de monitoramento a cada seis meses, há chances de a doença voltar. Como explica a oncologista Alessandra Morelli, o contato com outras pacientes nessa situação pode ser complicado, mas receber o apoio umas das outras ajuda muito:

– Costumo sempre dizer para minhas pacientes que a história de cada uma é única e que não devemos fazer comparações, apesar de ser difícil.

OncoArte. Foto: Carlos Macedo

OncoArte. Foto: Carlos Macedo

– Nós somos amigas, conversamos sobre isso, um papo normal e sincero – destaca Iara. – Sempre pode acontecer a projeção, mas para todas parece mais importante estarmos unidas.

A empresária Marta Ré Girotto, 47 anos, faz parte do OncoArte desde 2014, mesmo ano em que descobriu o câncer de mama. Começou a participar do grupo depois de passar por três cirurgias e sessões de quimioterapia. No começo de 2016, teve uma recidiva e contou com o apoio das companheiras.

– Demora um pouco até você digerir que aquilo está acontecendo com você e que só tem uma opção que é encarar tudo da melhor maneira possível. E elas me deram muita força, sempre com palavras de incentivo, dizendo que tudo daria certo e que estariam sempre comigo. Como fiz cirurgia e também quimioterapia, que me deixava enjoada e muito cansada por vários dias, fiquei um período sem participar dos ensaios.

Marta

Marta Ré Girotto. Foto: Carlos Macedo

Mas, com o apoio das amigas, Marta já está de volta. E o show continua no dia 22.

PRÓXIMA APRESENTAÇÃO
• O grupo celebra 10 anos no dia 22, às 20h, no Teatro da Hebraica.
Ingressos a R$ 25, à venda na Fisiomama ( Tomás Flores, 129) e na Clinionco ( Dona Laura, 226, 3 º andar)

INFORMAÇÕES
• oncoarte.com.br
• facebook.com/oncoarte

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