Pediatras vão além da consulta e personificam a figura do médico da família

Especialista trabalha como "calmante" para as mães

O pequeno Rafael recebe a atenção da médica Marilene Moon
O pequeno Rafael recebe a atenção da médica Marilene Moon Foto: Diego Redel

Último clínico geral em atividade. O verdadeiro médico da família. Esses são alguns conceitos que tentam abranger a atividade dos pediatras. Há outros mais divertidos, como calmante de mãe. Só o pediatra para acalmar a mamãe de coração aflito que tem certeza que a gripe do filho evoluiu para algo grave. E lá vai para mais uma ligação ao celular do médico. É unânime entre eles a certeza de que metade das ligações recebidas não eram necessárias a não ser por aquele efeito calmante.

São mais de 20 ligações por dia (não é estatística, só uma conta rápida feita com os entrevistados). Às vezes, precisam desligar o celular para dormir, comer ou no plantão do hospital. Pois mesmo que o telefone fique off por poucas horas, são capazes de ficar com remorso depois.

? Domingo estava tão cansada que desliguei o celular e dormi das 14h às 18h. Acredita que acordei me sentindo culpada. Então, retornei as ligações ? conta Marilene Moon.

A médica é a pediatra dos sonhos de toda mãe. Vai a festinhas de aniversário dos pacientes. Atende o celular de madrugada. Sempre consegue um encaixe na agenda concorrida, o que a faz passar dias da semana sem almoço.

? Semana passada, almocei duas vezes. A gente ensina o certo para eles e faz o errado ? comenta.

Situações hilárias

A dedicação à profissão que escolheu há 35 anos faz Marilene colecionar situações que chegam a ser hilárias. Segunda-feira foi a um jantar de amigos. Antes, pela manhã, a mãe ligou para ela e disse: traz o estetoscópio porque a criança está com tosse.

As mensagens no celular também são, muitas vezes, engraçadas:

“Doutora, eu sou a mãe da Ana. Lembra? A loirinha de olhos azuis?”

“Mãe, assim você não ajuda. Tenho muitas Anas loirinhas e de olhos azuis.”

Tem a clássica do cocô verde. Bebês podem fazer cocô esverdeado. Normal. Uma vez, eram tantas ligações com essa dúvida, que o neto de Marilene, de cinco anos e que dormia com a vó, disparou:

? Vovó, fala pra elas que é porque o bebê comeu alface.

Segunda mãe

Pedro Henrique Martins Botelho tem 71 quilos. É paciente de Marilene desde que marcava 930 gramas. Conte-se 16 anos. Ele não pretende parar de ir ao consultório da Dra. Moon. Com sete anos, aprendeu a ligar sozinho para Marilene:

? Só de falar com ela, já passava a dor. É uma segunda mãe para mim.

? Benzedura de telefone ? brinca ela.

Por influência de Marilene, Pedro é músico e, a doutora, pianista.

? A música é meu lexotan nessa rotina maluca ? diz ela, com o bom humor típico de quem trabalha com o que ama.

Pediatra-educador

Além de médico e um pouco psicólogo, pediatra é um educador. Alguém capaz de ensinar desde os cuidados com o umbigo do bebê até as transformações hormonais da adolescência.

? O papel de educador do pediatra é fundamental na promoção e apoio ao aleitamento materno e na orientação de hábitos alimentares saudáveis, considerando os aspectos culturais, os de saúde pública e o contexto familiar. As orientações em relação ao estilo de vida também são realizadas pelo pediatra, objetivando a prevenção do desenvolvimento de doenças na vida adulta ? afirma Denise Bousfield da Silva, presidente da Sociedade Catarinense de Pediatria (SCP).

Denise destaca ainda a importância do pediatra na recuperação de crianças e adolescentes expostos a situações de risco psicossociais e afetivos.

Santa Catarina tem 1281 pediatras, sendo 391 em Florianópolis, de acordo com dados da SCP.

“A” doutora do posto

Jane Laner Cardoso tem 28 anos de pediatria, quase integralmente dedicados ao serviço público (também teve consultório e, atualmente, dá aulas no curso de Medicina da UFSC). Passou por todos os postos de saúde de Florianópolis e, até 15 dias atrás, era a pediatra da unidade do Bairro Trindade.

? Outro dia, um aluno chegou perto de mim e falou: “a professora foi minha pediatra, lembra?” Eu não lembrei do rosto dele, porque são muitas crianças que já passaram por mim. Mas foi comovente a lembrança ? conta.

A relação entre pediatra e mães no posto de saúde não é tão estreita como a que se desenrola no serviço privado. Mães não podem ligar para o celular do médico. Ao mesmo tempo, como moram na comunidade onde está o centro de saúde, a família tem facilidade de ir até o local. Sabe que o médico está lá. Este, por sua vez, já conhece a família e a criança. Por aí, estabelece-se uma relação de confiança. Foi assim com os netos de Carolina da Silva, 52 anos, que vê Jane como uma “pessoa abençoada”. A mais velha, Simone da Silva, cinco anos, nasceu com anemia. Jane acompanhou a menina nos primeiros anos de vida. Orientou sobre alimentação e receitou vitaminas. Simone se recuperou.

Jane tem aquele jeitão mãezona, característica de muitos pediatras. É apaixonada pela profissão que lhe dá a oportunidade de intervir positivamente na formação de uma criança.

? Isso não tem preço ? resume.

Doutor seriedade

 

José Eduardo Coutinho Góes é pediatra por um motivo aparentemente simples:

? Trabalhar com criança é muito gratificante ? explica ele, após 29 anos de profissão.

O doutor anda está com uma função nova e essencial aos pediatras: a prevenção de doenças crônicas. Refere-se a quatro tipos: diabetes, câncer, obesidade e doenças cardiovasculares.

? Hoje sabemos que as causas dessas doenças têm origem no início da vida. Podem se desenvolver a partir do meio. Refiro-me a alimentação, condição da gestação, ambiente familiar e genes relacionados com essas doenças ? reforça.

Neste contexto, José Eduardo trata com seriedade, clareza e didática as orientações básicas para o desenvolvimento infantil. Esse jeitão transmite responsabilidade e confiança aos pais.

? Sei como é correto. Essa postura nos deixa muito tranquilos ?  comenta Antonio José Bottion, pai de Antonio Rafael Bottion, um ano.

O acidente de carro com um menino de quatro anos, que teve o crânio perfurado por uma pedra, marcou a vida do médico:

? Era uma situação de quase morte ou de sequelas. Ele passou por cirurgia e, incrivelmente, uma semana depois, estava conversando. Crianças se recuperam bem mais rápido.

No ano seguinte, a família voltou ao hospital para visitar o pediatra José Eduardo.

:: Oriente-se

Consultas

? A primeira deve ser no último trimestre de gestação

? A última até 20 anos incompletos

? Até os seis meses de vida, uma consulta por mês

? De um até dois anos, uma consulta a cada dois meses

? De dois anos até o terceiro ano, uma a cada três meses

? De três anos até os 20 incompletos, uma ou duas vezes por ano.

:: Na alegria e na doença

? O pediatra não deve ser procurado só quando a criança não está bem. Ele é um profissional que orienta a família desde os primeiros dias de vida do bebê sobre cuidados básicos, vacinas e alimentação, até a adolescência. Pode diagnosticar e prevenir doenças.

:: Como escolher o pediatra

? Primeiro pela empatia. A família deve se sentir à vontade com o médico e ter confiança nele.

? Busque referências, como conhecidos que já consultam com o médico.

Leia mais
Comente

Hot no Donna