Prazer, mais tesão, autoestima: um guia para tirar dúvidas e mostrar tudo o que a masturbação pode fazer por você

Ilustrações: Lidia Brancher
Ilustrações: Lidia Brancher

Você sabe dizer exatamente onde fica o clitóris? O que você curte mais na hora de uma relação a dois? E quais são os pontos do corpo que a deixam mais excitada? Descobrir o próprio prazer – e saber de pronto as respostas para as perguntas anteriores – é algo que vem apenas com o autoconhecimento. Na prática, resulta de uma atividade libertadora que passa longe da rotina de muitas mulheres: a masturbação.

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Cerca de 40% das brasileiras não têm o hábito de se tocar intimamente, segundo uma pesquisa conduzida por Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) da USP. Entre os homens, apenas 17,3% não se masturbam. Vai além: ainda de acordo com o estudo, entre as mulheres que não costumam se masturbar, uma em cada cinco sequer experimentou a prática ao longo da vida. Afinal, por que isso acontece? Para a sexóloga Carla Cecarello, o pudor e o tabu que envolvem a masturbação feminina estão intimamente ligados a questões culturais, inclusive os diferentes jeitos de educar meninos e meninas – o tal estereótipo de gênero.

– Muitas mulheres ainda veem a masturbação como algo vergonhoso, porque não somos incentivadas desde crianças a nos tocarmos, ver nossa vagina, andar sem calcinha. Somos estimuladas ao contrário, a ter jeito de mocinha. O tempo todo é passada uma mensagem subliminar de que temos de esconder a vulva, que dirá mexer. É diferente do menino, que é incentivado desde pequeno a mexer no pênis. São informações negativas que nos passam desde pequenos sobre o ato de se tocar – explica a terapeuta sexual, que é consultora do site especializado em encontros casuais C-Date.

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Tudo está interligado: por ter mais pudores em se tocar e conhecer o próprio corpo, muitas mulheres têm dificuldade em chegar ao orgasmo – e outras tantas nunca o atingiram. Isso faz também com que elas não consigam explicar ao parceiro ou parceira o que gostam mais na cama, como explica a ginecologista e sexóloga Sandra Scalco.

– Existe uma ligação entre a pessoa se conhecer, se tocar, conhecer o próprio corpo e a sua resposta e também ter resultado durante o ato sexual – afirma a médica, que é membro da Comissão Nacional de Sexologia da Febrasgo.

Para desmistificar de vez a masturbação – e esclarecer dúvidas de quem nunca experimentou –, Donna preparou um guia com tudo o que a mulher precisa saber para descobrir do que gosta e, claro, ter mais prazer.

E na prática?

Sozinha, na frente do seu par. Como preliminar, apenas recebendo ou em conjunto com a outra pessoa. Conhecer-se e não ter pudor em se tocar e descobrir o que mais a agrada é muito importante para ter uma vida sexual saudável e satisfatória. E isso tem tudo a ver com a masturbação: basta saber que mais de 80% das mulheres só conseguem ter um orgasmo quando o clitóris é estimulado.

– São pouquíssimas que conseguem somente com penetração, e muitas com o estímulo do clitóris e a penetração. Muitas mulheres chegam ao consultório se desculpando porque “só tem no clitóris”, quando na verdade isso é o normal – afirma a ginecologista Sandra Scalco.

Mas, para chegar lá, antes é preciso praticar e descobrir o que funciona melhor para você. Veja as dicas das sexólogas:

• Antes de partir para a ação, você precisa se conhecer

– Sempre recomendo que a mulher pegue um espelho, deite na cama e, com as pernas abertas, veja a sua vulva, vá passando a mão nos lábios e no clitóris. É uma forma de criar mais intimidade e descobrir a identidade de sua própria vagina. Aos poucos, vai perdendo a vergonha e vendo como se sente – sugere a terapeuta sexual Carla Cecarello.

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• Só o toque não é suficiente

– A mulher precisa associar um pensamento erótico. Algo que já viveu, algo que imagina, uma experiência romântica ou erótica que já teve ou gostaria de ter – diz Sandra Scalco. – Quando se associa a fricção com o pensamento erótico, a chance de conseguir um orgasmo é muito maior.

• Não se esqueça de que o clitóris não é um botão: para dar certo, você precisa levar em conta que a região é repleta de ramificações nervosas.

– Não é só tocar em cima do clitóris. Você precisa estimular a lateral também – lembra Sandra Scalco.

• Vá com calma

– Mesmo fazendo sozinha, é importante que a mulher descubra a sensação com o toque no clitóris ou ao introduzir o dedo na vagina. Ela primeiro vai identificar como gosta que se mexa, rápido, devagar, com muita pressão, de um jeito contínuo ou parando – diz Carla Cecarello. – Estimule o clitóris, sempre com um espelho na frente e, então, teste para saber como você se sente fazendo tudo isso. Depois, não vai precisar mais do espelho.

• O foco não precisa – nem deve – ser só o clitóris

– Ao mesmo tempo, acaricie os seios e o corpo todo, para despertar para sensações que isso tudo vai provocar – ensina a sexóloga do C-Date.

• O ambiente também é importante

Escolha um lugar calmo, onde você se sinta bem e busque uma posição confortável, como sugere Carla:

– Deitada é legal, desde que você coloque um apoio nas costas. Ou também sentada no banheiro, na pontinha do vaso. Tem muitas que colocam almofadas entre as pernas, e outras, o chuveirinho do banheiro diretamente no clitóris. Também tem quem aperte bem as pernas para deixar a região pressionada. São formas de encontrar o melhor estímulo.

• Não tenha medo de pensar em sexo – nem de ver, ouvir e imaginar cenas eróticas

– A mulher precisa erotizar sua mente com leituras, filmes, papo com amigas. Não fazemos isso com frequência, precisamos aprender – afirma Carla Cecanello.

Na busca de repertório, você vai descobrir o que mais funciona para estimular sua mente. Calma: nem tudo o que dá certo para a amiga – e principalmente para seu namorado – vai excitar você.

– O que é erótico para o homem, em geral, não é para a mulher. Precisamos acabar com a ideia de que a mulher é muito complexa. Ela não é mais complexa, é diferente – defende a sexóloga Sandra Scalco. – A mulher tem seu próprio jeito de ficar erotizada.

Filmes, por exemplo, são uma boa opção para criar o clima. Geralmente, as mulheres preferem os eróticos, não necessariamente os pornográficos. Na internet, há sites especializados, inclusive, em filmes eróticos apenas para elas ou até a chamada pornografia feminista.

– Mulheres gostam de filmes que têm uma sequência, uma história. Não gostam dos que vão diretamente ao ponto. Várias se chocam, então não acho que devam começar por aí – indica Carla.

– Muitas dizem que não gostam, mas nunca viram. Eu digo que precisa testar, e ter o livre-arbítrio de não fazer mais se não gostar. Às vezes, o tabu está aí: nunca fez, mas nem sabe bem por quê. É uma influência cultural – completa Sandra. – E há também quem ache o cheiro importante, mas, em muitos casos, o visual e, geralmente para elas, o sinestésico (mais de um sentido). Podemos testar todos estes recursos.

• E o vibrador?

O aparelho virou parceiro de muitas mulheres, tanto na masturbação solo quanto no sexo a dois. Mas, se você está começando na prática, vale maneirar no uso:

– Não recomendo, para quem está iniciando na prática da masturbação começar com o vibrador porque tem um ritmo, frequência e pressão que nenhum dedo, língua ou pênis têm. Se você se acostuma daquele jeito, quando você vai para a relação com o outro, ele nunca vai atingir o que quer. Sempre que possível, faça com os dedos – indica Carla Cecarello.

Não custa lembrar também que existe uma infinidade de produtos que podem ajudar. A sexóloga dá a dica: entrar em sites de sex shops para conhecer as novidades também pode dar um up na sua vontade.

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Mito ou verdade?

As sexólogas consultadas por Donna respondem às questões que mais ouvem no consultório – e que podem ser a sua dúvida também.

Masturbação faz perder o interesse na parceria?

Esta é uma dúvida comum de muitas mulheres que estão casadas ou em um relacionamento sério – ou seja, que têm um par frequente para o sexo. Mas pode ficar sossegada: você não vai ter menos desejo por seu companheiro ou companheira porque está tendo prazer sozinha. Aliás, o que acontece é justamente o contrário, diz Sandra Scalco:

– A masturbação nunca vai substituir um relacionamento a dois. Muitas mulheres chegam ao consultório dizendo que preferem a relação a dois, e, de fato, isso não tem discussão. Mas uma coisa não anula a outra, só acrescenta.

Vale frisar que a masturbação também pode – e deve, se o casal curtir – ser feita em dupla nas preliminares. Ou até somente por você na frente do seu parceiro ou parceira. Na relação hétero, não custa lembrar que os homens são muito visuais, e presenciar a cena provavelmente vai dar um up na vontade dele.

E o ponto G, hein?

Sim, até na masturbação solo o tão falado ponto G vira assunto. Ele existe e pode ajudar você a ter mais prazer, mas, se você tiver dificuldade de encontrá-lo, ou até de estimulá-lo, não se desespere.

– Diria que o o ponto G é o coadjuvante. O clitóris é o ator principal: sem ele, não tem graça – garante Carla Cecarello. – Se achar e conseguir estimular, melhor para ela. Se não conseguir, não vai fazer diferença, desde que estimule bem o clitóris.

Quer tentar? O ponto G fica mais ou menos no segundo terço da vagina, mas não há nenhuma saliência ou nervura que ajude a identificá-lo. Para buscar, o que funciona é o estímulo na região.

– Nem sempre as mulheres conseguem encontrá-lo, e por isso saem frustradas. O ponto G ajuda, sim, mas, se não for encontrado, não faz diferença.

Masturbação vicia?

Sim, você até pode se viciar, mas é raríssimo de acontecer. Só há problema se, por exemplo, a mulher deixa de lado tarefas do dia a dia para se masturbar ou se está sofrendo por conta da prática compulsiva, explica a ginecologista Sandra Scalco. A sexóloga Carla Cecarello alerta também para o uso do vibrador, principalmente quando você tem dificuldade de chegar ao ápice no sexo a dois:

– Não recomendo que a mulher use vibrador com frequência logo que começar a se masturbar ou pode querer ficar somente com o aparelho.

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Os benefícios

A prática da masturbação oferece muito mais do que instantes de prazer:

Autoconhecimento

A ginecologista Sandra Scalco faz a seguinte analogia: quando você vai viajar, não planeja o que quer fazer antes de chegar ao seu destino? Ao desembarcar, você sabe exatamente que lugares quer visitar. Com o sexo, funciona de forma semelhante: se você conhece seu corpo e descobre, sozinha, que caminhos percorrer para chegar onde deseja.

– Ela vai descobrir como quer o sexo, de que forma gosta de ser tocada, e isto é fundamental – explica a terapeuta Carla Cecarello.

Autoestima

Em algum momento da vida, é provável que todas nós tenhamos preocupações com o corpo, a aparência e, claro, com a performance na cama. Essas neuras podem afetar seu desempenho no sexo e dificultar o orgasmo – até que você perca a vontade.

Mas, quando você sabe que é possível chegar lá sozinha, só aumenta sua confiança no momento em que está com seu par. É o que a sexóloga Sandra Scalco chama de “autoerotismo”: você aprende a se ver como alguém sexy, que consegue ter e, por consequência, dar prazer.

Intimidade

Falar como você se sente, revelar quem você é o do que (não) gosta é fundamental para uma relação saudável. Então, por que deixamos de falar sobre nossas preferências no sexo? Quando você já treinou sozinha, sabe melhor o que dizer.

– Isso contribui para aumentar a proximidade, e o relacionamento ficar mais estreito. Você melhora o diálogo à medida que fala como você gosta, como você quer – afirma Carla Cecarello.

Liberdade

Ter intimidade também significa deixar de lado alguns pudores. Não são poucas as mulheres que ainda têm medo de afirmar que gostam, sim, de sexo. Ter iniciativa e até conduzir a relação, então, é algo ainda mais difícil.

– É muito raro ver uma mulher que, pelo menos em metade das vezes, tenha iniciativa – expõe Sandra Scalco.

Tocar-se em frente do parceiro – e aqui falamos especialmente da relação heterossexual –
é algo que muitas mulheres nem cogitam. Mas, se você estiver com vontade, por que não se permitir?

– A masturbação na frente da parceria faz com que a mulher se livre de qualquer tipo de vergonha ou constrangimento – assegura Carla Cecarello.

Mais (e mais) vontade

Vez ou outra, a vontade de transar pode até vir do nada. Mas é fato: quanto mais você pensa no assunto e erotiza a mente, explica Sandra Scalco, mais o tesão vai aparecer. E isso passa, claro, pela masturbação solo.

– Quanto menos a mulher faz sexo e se masturba, menos vontade vai tendo. Nosso cérebro facilmente se acostuma a uma condição não sexualizada – afirma a sexóloga. – Às vezes, você não tem parceria, ou tem mas o sexo não acontece com a frequência que você espera. A masturbação é uma forma de manter seu ritmo e se satisfazer.

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