Preconceito em relação à síndrome do pânico atrasa tratamento

Doença psiquiátrica tem sintomas físicos intensos e provoca sofrimento aos doentes

Tratamento é medicamentoso, com administração de ansiolíticos e antidepressivos, dependendo do caso
Tratamento é medicamentoso, com administração de ansiolíticos e antidepressivos, dependendo do caso Foto: Ricardo Duarte

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Vertigem, taquicardia, falta de ar, sudorese, sensação de impotência, certeza de que a morte se aproxima, desespero: embora mais conhecidas do que eram há 20 ou 30 anos, as sensações experimentadas pelas vítimas do transtorno do pânico ainda causam um impacto devastador na vida dos atingidos. Por ser uma síndrome psiquiátrica, a patologia gera preconceitos e mal-entendidos em todo o mundo. Em geral, ninguém imagina ou aceita ser vulnerável ao mal, cuja incidência, segundo especialistas, tem crescido ao longo do tempo.

Antes de passar pela primeira crise de pânico, a designer Débora*, 28 anos, já sabia do estrago que a desordem pode causar no dia a dia de quem sofre com ela.

? Minha irmã lida com o problema há pelo menos uma década. Eu via o sofrimento, as limitações que a doença insistia em impor a ela. Ainda assim, não é possível ter a exata dimensão e entendimento. Hoje, acredito que só vivendo na pele o desasossego de sentir pânico para se ter uma ideia da gravidade. Não tratar é agonizar. É ver a vida perder o sentido ? desabafa.

A primeira crise de Débora ocorreu no ano passado. Ao tentar embarcar para uma viagem de trabalho, ele foi acometida por uma sensação desesperadora de impotência absoluta diante das manifestações físicas e emocionais que lhe invadiram. Os sintomas clássicos da síndrome foram desencadeados de repente.

? Ao entrar no avião, comecei a chorar desesperadamente. Sentia que ia morrer. Comissários e piloto tentaram me acalmar. A sensação de medo era tão grande que saí correndo. Alguns meses depois, voltei a sentir o mesmo quando estava dirigindo. Sinto que sou extremamente frágil e incapaz de reagir. É desesperador ? conta.

O psiquiatra Fábio Leite explica que o transtorno do pânico é uma reação desproporcional de extrema ansiedade e medo a uma determinada situação, que pode ou não ser específica. Segundo ele, no decorrer da vida nos deparamos com ameaças que provocam temor, sentimento que mexe física e emocionalmente com qualquer ser humano e que é até saudável, porque acaba se revelando uma proteção. Porém, no paciente com pânico, as reações fisiológicas e emocionais ocorrem sem motivo aparente. A pessoa fica altamente insegura porque perde o controle, tem certeza de que nada pode fazer para sair da crise.

? A sensação é realmente de morte, de impotência. Então, o indivíduo passa a sofrer de uma ansiedade antecipatória e fica refém do medo de sentir o surto novamente. Boa parte deles desenvolve a agorofobia (meio de estar entre muitas pessoas) e, com todo esse transtorno, vem o constrangimento social. A sociedade não entende a doença. Muitos acham que é frescura, descontrole emocional ?  observa.

A origem do mal

O quadro é sério e diversas pesquisas sugerem que o funcionamento cerebral e corporal desse tipo de paciente é diferente do indivíduos que nunca desenvolverão a síndrome. Fábio lembra que algumas drogas, como anfetaminas, corticoides, maconha, cocaína e ecstasy, assim como algumas doenças, podem desencadear episódios de pânico. Mas há também a ocorrência de crises sem qualquer fator claramente identificado e isso a ciência ainda não conseguiu explicar. Existe também a forte suspeita de hereditariedade.

? É importante entender que qualquer ser humano pode ter um episódio de pânico, mas o diagnóstico do transtorno é confirmado somente quando a pessoa tem mais de uma crise em um curto período de tempo – em média, um mês. Também avaliamos os sintomas e o comprometimento da vida desse indivíduo em função delas e do medo que os surtos desencadeiam ?  enfatiza.

O adulto jovem, entre 30 e 40 anos, é o alvo predileto da síndrome. As mulheres são mais vulneráveis. Além das alterações cardiorespiratórias, alguns pacientes sentem manifestações físicas menos comuns, como formigamento e contraturas musculares.

Tratamento

O tratamento é medicamentoso, com administração de ansiolíticos e antidepressivos, dependendo do caso. Sem os remédios, a tendência é a piora do quadro e o prognóstico tende a ser depressão e, eventualmente, chega a provocar tentativas de suicídio.

Os psiquiatras alertam que a terapia cognitivo-comportamental é essencial para que o paciente entenda o problema e se coloque diante da situação sem perder o controle. Quanto mais precoce o tratamento, maiores as chances de superação. As terapias são tão bem-sucedidas que, em alguns casos, é possível alta dos medicamentos.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um estudo conduzido pelo psiquiatra Marco André Urbach, mostrou que a tontura, sintoma muito comum do pânico, é pouco investigada e tratada.

? Verificamos que 30% dos pacientes com transtorno têm alterações vestibulares, ou seja, no ouvido interno. Esse sintoma precisa ser avaliado, porque quando não tratado é um empecilho à recuperação dos pacientes ? revela. O médico adianta que uma linha de pesquisa promissora na UFRJ trata o paciente com a realidade virtual. O instrumento é eficaz na avaliação dos sintomas respostas ao tratamento.

? Com óculos especiais simulamos a realidade e colocamos o paciente diante da situação que ele não controlaria sozinho na vida real. Isso permite a percepção de que a situação por si só não desencadeia a crise. O que a provoca é o medo dela ? pondera.

Resistência dificulta tratamento

O preconceito em relação às doenças psiquiátricas atrasa o tratamento. Muitos pacientes se negam a procurar ajuda especializada. Alguns chegam ao psiquiatra, mas resistem em aderir à terapia. Enquanto isso, o transtorno avança e leva ao isolamento social.

A servidora pública Ana Maria*, 54 anos, passou um bom tempo sem sair de casa. No dia em que o pânico se manifestou pela primeira vez, ela estava trabalhando e imaginou estar tendo um ataque cardíaco.

? Do nada, vieram a taquicardia, a sudorese e a vertigem. Meus pés e minhas mãos gelaram. Achei que não chegaria viva ao hospital. Depois de uma série de exames, os médicos disseram que eu não tinha nada – e aí está a crueldade dessa doença. O mal não aparece em exames. A pessoa passa a imaginar que está louca ? considera.

Antes de iniciar o tratamento, Ana viveu uma situação de total dependência. Ela não conseguia trabalhar e saía de casa apenas acompanhada do marido. O medo de voltar a ter uma crise a aterrorizava noite e dia.

? Já cheguei a acordar no meio da madrugada com um episódio de pânico. Ainda com todo o sofrimento, tive a sorte de reconhecer que precisava me tratar. Até hoje faço terapia. Ela me ajudou a entender a doença. Em momento de crise, não é possível reagir, mas agora sei que ela vai passar e que é possível superar. É uma questão de paciência e tempo ? pondera.

* Nomes fictícios a pedido das entrevistadas

Pavor de espaços abertos

A agorafobia é a aversão a espaços abertos, marcada pela ansiedade e pelo temor que aparecem quando a pessoa se encontra em locais ou situações em que imagina grande dificuldade ou embaraço para escapar ? na maioria das vezes, em ocasiões nas quais ? auxílio imediato seria difícil, caso venha a passar mal. A ansiedade agorafóbica pode ser, inclusive, antecipatória, ou seja, aparecer diante da simples possibilidade de ter que participar de determinados eventos, sejam eles cotidianos ou não.

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