Querida Beth de 2003: “Esse câncer aí vai mudar muito mais do que a sua mama”

A aposentada Elizabeth Freitas (Foto: André Ávila)
A aposentada Elizabeth Freitas (Foto: André Ávila)

No mês em que se intensifica a campanha pelo combate ao câncer de mama, convidamos três mulheres que passaram pela doença a escrever uma carta para elas mesmas às vésperas do diagnóstico. Mas esta mensagem também é para você, que nunca passou por isso. Para saber que sempre é tempo de se prevenir e que mesmo uma notícia tão temida pode ser o ponto de virada e redescoberta. Veja abaixo o depoimento da aposentada Elizabeth Freitas, 64 anos.

 

Querida Beth de 2003

Se eu bem te conheço, você não anda com muito tempo para ler cartas. Não estou te condenando, lembro bem como é. Sair às seis da manhã de casa, em Canoas, trabalhar em Porto Alegre e voltar só às dez da noite. Que tempo sobra para ler ou para qualquer outra coisa, não é mesmo?

Pois é, Beth, quem sou eu para te condenar. Eu estou com 64 anos, aposentada há sete, porque não posso mais fazer faxina. Meus dias são compridos e tranquilos. Você, não. Você, aos 50 anos, está para lá e para cá. Não está dando bola para esse líquido estranho que está saindo do seu mamilo. Mesmo que o exame tenha dado que há algo de estranho nele, vão ser oito meses até que você entre em um consultório médico de novo pelo SUS. Quando a gente não dá importância para algo, o tempo passa voando, não é?

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Quando você finalmente der bola para o líquido nesse mamilo dolorido, vai entrar no Hospital Fêmina, apavorar o pobre do médico plantonista e nunca mais sair. Mas calma! Não é que você não vai mais sair por causa do câncer de mama. É porque você vai passar a trabalhar lá como voluntária, ajudando pessoas como você.

Já vou chegar lá. Mas, antes, eu gostaria de te alertar que esse câncer aí vai mudar muito mais do que a sua mama. O seu seio, na verdade, com o tempo será o de menos. Se isso te acontecesse em 2017, você teria direito a uma cirurgia para colocar uma prótese. Em 2003, sei que não é bem assim. Mas fica tranquila. Mesmo tendo o direito à cirurgia hoje, eu aprendi a me aceitar sem ela.

Aliás, faz tempo que eu tomei a decisão de que não quero ao meu redor ninguém que não me queira, ou que se envergonhe de mim. Por isso mesmo, fiz questão de ficar carequinha e exibir a minha cabeça faceira por aí. Esse marido aí que você tem hoje, por exemplo, vai pedir para você colocar um chapéu para ir até o portão de casa. Lamento dizer (não muito, na verdade) que você vai colocá-lo pra fora de casa daqui a uns meses. Boa parte dos amigos também vai se afastar. Nunca entendi muito bem o porquê disso, mas as pessoas ficam desconfortáveis com uma pessoa doente por perto. Não sabem como lidar e por isso se afastam.

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Outra pessoa que não vai te aceitar é quem abriu a casa e te deu emprego nos últimos 20 anos. Ela não vai querer que os filhos dela vejam você careca. Esses mesmos, em que você deu banho desde que nasceu. De todas as notícias tristes que te dou, essa é a única que é capaz de te fazer chorar um pouquinho, mas não fica magoada, não. A liberdade que você vai ganhar depois de sair daí só vai te fazer sorrir.

Como você vai perceber com o tempo, as pessoas que importam de verdade vão ficar do teu lado. Teus irmãos, tua amigas. A tua filha, Cristiane, por exemplo. Não é só do diploma dela de Direito na PUCRS, pago com horas de faxina e de babá de vocês duas, que será motivo de orgulho. Ela vai virar um pouco tua mãe também, e uma grande amiga para todas as horas.

Esse sorrisão aí de vocês duas pode ajudar outras tantas mulheres. Sabe o que você vai fazer depois de se aposentar? Ficar em casa é que não é, né? Você vai para as sessões de quimioterapia de outras mulheres, segurar na mão delas e ouvir os medos e as bobagens que elas dizem. Vai perceber que muitas delas estão com muito medo. Vai ver que algumas entram em depressão por perder o cabelo, por perder os amigos, por perder o marido. Mas a tua alegria é tão contagiante que você vai estar bem para segurar a mão delas mesmo quando outros é que poderiam estar segurando a tua. Começa a contar as vezes em que você vai ouvir: “Quero ficar bem como você”. Serão umas quantas.

Você é de Uruguaiana. Também sabe como funciona a cabeça das mulheres atarefadas do Interior, essas que desembarcam das vans no hospital para as sessões de quimioterapia. “Ah, eu preciso voltar pra roça”, “Ah, eu preciso cuidar do meu neto”. Não, gente. Vocês precisam cuidar primeiro de vocês. Fazer como dizem, lá, as palestrantes do Imama: se enxergar no espelho, se tocar, se conhecer. Queria que alguém tivesse me dito isso quando eu era mais jovem.

Se eu pudesse voltar para ainda antes de 2003, queria ter me dado o direito mais vezes para dizer às patroas que eu não iria trabalhar para ir ao médico. Queria ter recusado um presente, talvez, e pedido dinheiro para uma mamografia particular no lugar. Mas agora que nem você nem eu fazemos isso, paciência. Vamos sorrir e tocar a vida em frente.

Estou te escrevendo essas coisas todas sobre como será o câncer, mas eu também estou me recuperando de uma notícia difícil. Depois de 14 anos, o câncer reapareceu nos meus ossos. Mas hoje já me conheço o suficiente para receber essa notícia com mais tranquilidade do que você. A principal diferença entre nós duas, a Beth de 2003 e a Beth de 2017, não é que eu tenho uma mama a menos. É que eu me conheço melhor. Muitas mulheres, depois do primeiro câncer, se consideram vitoriosas e deixam de se cuidar. Um jeito bobo de evitar más notícias. Está errado. Depois de um câncer, aí sim temos que nos cuidar. E desta vez eu fui ao médico na primeira dor nas costas. Graças a Deus, participo de um tratamento com remédios experimentais e estou ótima.

Faz pouco a Cristiane me mostrou, na internet, a história da Frida Khalo. Desde então, eu compro tudo o que encontro dela. Bolsa, boneca, tudo. Soube que ela sofreu um acidente, precisou fazer mais de 30 cirurgias na coluna, vivia com dores muito fortes, mas nunca deixou de viver com gosto. Nunca deu satisfação a ninguém e transformou a tristeza dela em coisas bonitas. Nesta semana, tem festa à fantasia de Dia das Bruxas, e adivinha de que eu vou?

Com carinho,

Elizabeth Freitas

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