Relações entre irmãos andam na linha tênue entre o cíume e a compaixão

Ciúmes, raiva, amor, proteção...quem tem irmão especial vive numa confusão de sentimentos

Deficiência não impede que André e Sofia se divirtam juntos
Deficiência não impede que André e Sofia se divirtam juntos Foto: Felipe Carneiro

O nascimento de um irmão sempre acarreta transformações na dinâmica familiar. Os sentimentos tomam novas proporções: o irmão mais velho terá que dividir as atenções com o menor; o ciúme, as rivalidades e a raiva podem surgir. O mais velho acaba por se deparar com sentimentos intensos e de difícil compreensão. Em situações normais, ter um irmão já é “complicado”. Pode ser ainda mais difícil se a chegada for de um irmão muito especial.

O nascimento de uma criança com necessidades especiais exige toda uma reorganização familiar, quer no aspecto afetivo quanto no aspecto financeiro. O “irmão saudável”, muitas vezes precisa renunciar às suas atividades ou interesses em prol da saúde do outro.

No livro Irmãos – como entender esta relação, o psiquiatra infantil Marcel Rufo ressalta que, quando nasce um filho especial, em geral, os pais exigem autonomia imediata dos “filhos sadios”, de modo que possam dedicar mais tempo ao “irmão doente”, como, por exemplo, ir e voltar da escola sozinho desde muito pequeno, fazer compras no supermercado, serviços domésticos, pagamentos de contas…

? Este fato pode reforçar o sentimento de que não é o filho predileto, o “queridinho”, ou seja, aumenta o ciúme ? diz.

Parceria sem limites

Fim de tarde. A professora de Educação Física Helenize Lückmann Correia, 42 anos, estaciona o carro na garagem do prédio. André, 12 anos, sabe que precisa ajudar a mãe a desembarcar a irmã, Sofia, oito anos, que é cadeirante. Depois, já em casa, brinca com ela, deitam juntos para ler livros cada um lê uma página, este é o trato e ensina a menina a manejar com precisão o joystik do videogame.

André e Sofia têm uma ligação muito forte. São irmãos de sangue, mas só isso não garantiria a afinidade. São irmãos de alma também. André tinha quatro anos quando Sofia nasceu. Ainda durante a gestação, Helenize e o marido, Nelson Correia Júnior, descobriram no ultrassom que o bebê tinha mielomeningocele (malformação congênita da coluna vertebral) e hidrocefalia.

Após o nascimento, Sofia ficou 21 dias internada no hospital. A menina sempre teve a saúde frágil, e os pais precisavam dar mais atenção à ela do que a André, que crescia forte e saudável.

? Por mais que quiséssemos nos dividir igualmente entre os filhos, é claro que aquele que precisa mais de cuidados sempre recebe mais atenção ? comenta a mãe.

Pouco antes de Sofia completar dois anos, o pai das crianças teve um infarto agudo e morreu. De uma hora para a outra, Helenize viu-se sozinha com duas crianças para criar, sendo uma delas cadeirante. Os primeiros tempos foram muito difíceis, suportados graças à presença da família, sempre por perto. Depois, Helenize sentiu que cabia a ela a tarefa de criar os filhos, e foi à luta.

André e Sofia não são de falar muito, pelo menos com quem não têm intimidade, mas é visível a cumplicidade entre eles.

? Às vezes a minha irmã me incomoda um pouco, principalmente quando eu estou no meio de um jogo de videogame e ela pede alguma coisa. Mas eu sei que ela pede porque não pode caminhar ? explica André.

Sofia só sorri e balança afirmativamente a cabeça, quando indagada se o irmão é um amigo de verdade.

? O que você gosta de fazer com ele? ? pergunto.

Com a voz baixa, a menininha responde:

?Tudo.

Realmente, ela não precisa falar mais nada.

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