Saiba os prós e os contras da cirurgia bariátrica, conhecida como redução do estômago

Brasil é o segundo no ranking de cirurgias bariátricas, atrás dos EUA

Material versátil substitui o couro com estilo
Material versátil substitui o couro com estilo Foto: Reprodução

As histórias se repetem com enredos semelhantes, carregados de sofrimentos e frustrações. O perfil dos protagonistas também é o mesmo: são obesos desde muito jovens, que já tentaram emagrecer de todas as formas possíveis, sem sucesso. Dietas? Passaram por várias, das mais sérias às bizarras. Medicamentos? Dezenas. Tudo o que surge no mercado.

Exercícios físicos, spas, tratamentos psicológicos, espirituais… Nada resolveu. Pelo contrário: depois de cada emagrecimento temporário, eles engordaram ainda mais do que antes. Até chegarem à obesidade mórbida, com sérias complicações para a saúde.

São pessoas com estas características que estão se beneficiando da cirurgia bariátrica (ou da obesidade mórbida), um tratamento cada vez mais comum em todo o mundo. Popularmente conhecida como “redução de estômago”, mas que é bem mais complexa do que isso, a cirurgia proporciona excelentes resultados, desde que o paciente tenha consciência de que também precisa fazer a sua parte.

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? É tratamento, e não mágica ? enfatiza o gastrocirurgião Celso Empinotti, professor de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFSC e autor de quase 2 mil cirurgias bariátricas realizadas nos últimos 13 anos em Florianópolis.

Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) mostram que foram realizadas 60 mil operações no país no ano passado ? alta de 275% em relação a 2003, ano em que foram coletados os primeiros registros.

Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mesmo com filas de espera de até oito anos, o número de cirurgias cresceu 23,7% entre 2007 e 2009, chegando a 3.681 ocorrências. Os números fazem do Brasil o segundo no ranking de cirurgias bariátricas, atrás dos EUA, com 200 mil procedimentos em 2010.

? O crescimento da cirurgia bariá-trica no Brasil está relacionado ao aumento da população obesa no país e ao reconhecimento de que este é um procedimento seguro e eficaz ?  explica o presidente da SBCBM, Ricardo Cohen.

Qual o seu IMC?

Não basta ser gordo para ser candidato a uma operação para redução do peso. Os pacientes com indicação de cirurgia são aqueles com Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 40, ou então os que apresentam IMC entre 35 e 40 e que tenham alguma doença causada ou agravada pela obesidade.

:: CALCULE

O Índice de Massa Corporal é estabelecido em uma equação: peso dividido pelo resultado de altura X altura. O número final significa quantos quilos a pessoa tem por metro quadrado de superfície corporal.

IMC 20 a 25 – Peso normal

IMC 25 a 30 – Sobrepeso

IMC 30 a 40 – Obesidade

IMC 40 a 50 – Obesidade mórbida

IMC maior que 50 – Super obesidade

:: Noivos magrinhos

Celso Empinotti, pioneiro em Santa Catarina e um dos primeiros cirurgiões a operar obesos mórbidos no Brasil, comenta que estes são os pacientes mais suscetíveis de serem enganados, porque vêm com toda uma história de frustrações no passado e já tentaram de tudo para emagrecer, sem sucesso.

? Eles chegam aqui na esperança de um milagre para a sua doença. Isso não existe, e o médico que oferecer mágica estará enganando o paciente. A cirurgia vai ajudá-los, com certeza. Mas eles também terão que se comprometer a mudar totalmente o estilo de vida, com apoio e orientação de endocrinologistas, nutrionistas e psiquiatras ou psicólogos, o que é determinante para o bom resultado.

A assistente administrativa Gabriela Ossanes Bondan, 24 anos, está noiva do administrador Gilberto Vieira Júnior, 27 anos. O casamento será dia 24 de junho. Além do amor, outro sentimento forte os une: o desejo de livrarem-se da obesidade mórbida. Decidiram, juntos, enfrentar a cirurgia bariátrica. Gabriela operou dia 9 de dezembro. Dos cem quilos ? excessivos para o seu 1,54 metro de altura ? , já perdeu 15. Gilberto vai operar-se na próxima terça-feira, dia 15. Ele espera livrar-se, também, de várias doenças ligadas à obesidade, como dores articulares, refluxo e hipertensão.

? Há anos tentamos emagrecer com dieta, fizemos vários tratamentos, mas sempre engordávamos mais depois ? diz Gabriela.

Ela até já escolheu o vestido de noiva para o grande dia: um modelo fácil de apertar, para ficar justinho no novo e esbelto corpo que ela está adquirindo.

:: Cuidado!

As cirurgias de obesidade mórbida, como todas as outras, envolvem riscos, ainda mais que geralmente os pacientes obesos apresentam outras doenças associadas.

Nos melhores centros de referência do mundo, estatísticas demonstram que pode morrer um paciente em cada 200 a 400 operados, isto é, cerca de 0,25% a 0,5% de risco de mortalidade. As principais causas destas mortes são as fístulas (vazamentos) nas linhas de grampeamento do estômago, embolia pulmonar e infecções cirúrgicas.

? É claro que estes riscos aumentam se a cirurgia for feita em um hospital ou clínica que não esteja equipada para cirurgias deste porte nem preparada para o caso de alguma complicação ? ressalta o gastrocirurgião Celso Empinotti.

As dicas do especialista são: não opere em hospital que não tenha UTI e siga as regras de segurança básica. E procure referências do profissional que fará a cirurgia.

A longo prazo, as complicações mais comuns são desnutrição, obstrução do intestino ou do estômago e úlcera no estômago, todas de controle e tratamento menos complicados, desde que o paciente faça um bom seguimento pós-operatório.

? Ele precisa realizar os exames de controle. Quem não respeita estes cuidados pode sofrer sérias consequências, desde anemias a hipovitaminose, passando por depressão, desnutrição e anorexia ? explica o gastrocirurgião Thomas Szergo.

A funcionária pública Marília Machado fez a cirurgia há oito anos, depois de uma vida de dietas. A operação, por videolaparoscopia, foi rápida, porém, já estava no quarto, no hospital, quando notou que sangrava muito pelos orifícios da cirurgia. O médico foi chamado às pressas, e ela precisou voltar para a sala cirúrgica. Desta vez, para estancar a hemorragia no abdômen, foram mais quatro horas. Depois de emagrecer, Marília começou a engordar novamente e optou por fazer tratamento com um endocrinologista e apostar todas as suas fichas na reeducação alimentar.

:: Doença social

Massoterapeuta Regina Doerner May antes e depois

Tão grave quanto as doenças físicas, o obeso mórbido sofre, também, com pressões psicológicas. Costuma sentir-se constrangido, perde a autoestima, falta ao emprego, afasta-se das relações afetivas, enfim, passa a ter uma vida unicamente voltada para o problema da obesidade, sem lazer, sem afeto, sem objetivos, isolando-se da sociedade, explica o gastrocirurgião Thomas Szego, ex-presidente da SBCBM.

Foi o que aconteceu com a massoterapeuta Regina Doerner May, hoje com 28 anos. Ela vem de uma família de obesos ? um dos irmãos já fez a cirurgia bariátrica e o outro se prepara para o procedimento.

? Nós tínhamos supermercado, e comíamos o que tínhamos vontade, sem ninguém para regular. Quando meu pai morreu eu tinha 11 anos, e foi aí que começou meu martírio. Comia para espantar a tristeza. Depois, quando fiquei mocinha, tive distúrbio hormonal e não parei mais de engordar. Cheguei a 116 quilos. Fiz várias dietas, tomei remédios, engordei, emagreci.

Aos 23 anos, com 105 quilos e 1m64cm de altura, Regina decidiu fazer a cirurgia bariátrica. Era janeiro de 2006. Na época, sentia muitas dores nos pés e já não conseguia mais trabalhar como massagista. Marcou a operação para dezembro. Durante todo o ano, despediu-se da comida: ingeriu tudo o que tinha vontade. Chegou aos 136 quilos.

? Morria de vergonha do meu tamanho. Me isolei do mundo, ficava em casa, só comendo, depressiva ? lembra Regina.

Hoje, mantém-se com 75 quilos. Engorda um pouco, fecha boca, intensifica o exercício e emagrece. A massoterapeuta é dedicada. Nunca deixa de comparecer às consultas de revisão e segue a suplementação de vitaminas recomendada pelo médico.

A psiquiatra Maria Elisabeth do Valle Pereira ressalta que o acompanhamento médico do paciente que faz a cirurgia é imprescindível.

? Não adianta só mudar o corpo. O paciente precisa mudar a cabeça também. Conheço muitos que ficaram deprimidos depois da cirurgia por não poderem mais comer como antes. É preciso achar outras atividades que proporcionem prazer e bem-estar que não seja a comida, mas sem criar novas compulsões ? explica.

:: Diabetes

Há cerca de 10 anos, médicos norte-americanos começaram a notar que obesos mórbidos portadores de diabetes do tipo II passavam mal após a cirurgia para redução de peso. Descobriram, através de exames e estudos clínicos, que o mal-estar era causado pela queda inesperada da taxa de glicemia. Concluíram, então, que a cirurgia de obesidade mórbida ? em 85% a 90% dos casos ? melhora a diabetes do tipo II. Nos últimos anos, a cirurgia de obesidade mórbida é usada rotineiramente para pacientes diabéticos com IMC 35 ou mais, e já se discute usar a mesma técnica para operar pacientes diabéticos do tipo II com qualquer IMC.

Risco de obesidade

A obesidade mórbida é o acúmulo excessivo de gordura no corpo, que pode causar riscos à saúde. Os principais:

? Dificuldades respiratórias, problemas musculoesqueléticos, doenças de pele e até mesmo a infertilidade.

? Doenças crônicas como diabetes, hipertensão e câncer.

? Doenças cardiovasculares e da vesícula biliar. Entre elas a pressão alta, infarto, alterações do ritmo cardíaco, aumento de colesterol e triglicérides no sangue, problemas articulares e pulmonares.

Cirugia aberta x vídeo

Todas as cirurgias de obesidade mórbida podem ser realizadas com abdômen aberto ou por videolaparoscopia.

Aberta: significa que terá que ser feito um grande corte para poder acessar os órgãos que ficam dentro do abdômen.

Videolaparoscopia: É a forma de acesso endoscópico, sem grandes cortes (somente pequenos orifícios), que permitem ter o mesmo acesso aos órgãos dentro do abdômen com um trauma bem menor.

A segunda modalidade tem sido a mais usada por apresentar vários benefícios para o paciente: cirurgia mais rápida e menos agressiva, com pós-operatório mais confortável e alta hospitalar e recuperação mais rápidas, diminuição do risco de infecções e de embolia pulmonar.

:: Direitos ainda em discussão

A cirurgia de obesidade mórbida custa, em média, entre R$ 15 mil e R$ 20 mil, se for particular. Os convênios de saúde, segundo a Lei 9656, devem, obrigatoriamente, cobrir o procedimento. O problema é que após a perda do peso, muitas vezes é necessária uma cirurgia para a retirada do excesso de pele, que só pode ser feita pelo cirurgião plástico. Não raro, os casos são resolvidos na Justiça, porque os convênios negam o procedimento, argumentando tratar-se de uma cirurgia estética. O Superior Tribunal de Justiça vem dando ganho de causa aos pacientes.

A cirurgia pelo SUS é feita desde desde 2001, mas as filas de espera são grandes. Em 2008 foram realizadas 3.119 cirurgias bariátricas pelo Sistema Único de Saúde no Brasil. Destas, 344 ocorreram em Santa Catarina.

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