Saúde pessoal: abuse mais cedo do protetor solar

Proteção contra os efeitos do sol devem ser observados toda a vida

Não é só no verão que o protetor solar deve ser usado
Não é só no verão que o protetor solar deve ser usado Foto: Jessé Giotti

Este é um apelo a todas as crianças e adolescentes, seus pais, professores e médicos que tratam deles: por favor, levem a exposição ao sol mais a sério.

Muitos pais, se não a maioria, são conscientes quanto a proteger os bebês do sol, enquanto forem de colo ou andarem de carrinho. Porém, assim que os filhos passam a caminhar, a proteção solar costuma ficar em segundo plano em meio à miríade de desafios de sair de casa com a molecada ou levá-los à escola na hora certa.

Se as práticas de proteção solar não foram estabelecidas cedo na vida como hábitos invioláveis, da mesma forma que usar cintos de segurança num veículo, as crianças se tornam cada vez mais complacentes em relação à prevenção de queimaduras de sol que podem levar a cânceres mortais décadas mais tarde. Num estudo com 360 alunos da quinta série ao longo de três anos, Alan C. Geller, diretor de epidemiologia do melanoma do Massachusetts General Hospital, e seus colegas constataram que conforme as crianças entravam na adolescência, a proporção de quem usava protetor solar “com frequência ou sempre” declinou de 50 por cento para 25 por cento.

E assim que as crianças se tornam adolescentes, a proteção solar sucumbe às sensações explosivas de independência e invulnerabilidade, sem mencionar a crença popular entre os adolescentes de que se tornam mais atraentes quando estão bronzeados. Poucos pareciam preocupados com as chances de desenvolver peles enrugadas, manchadas ou curtidas feito couro décadas mais tarde. Menos ainda pareciam saber que correm o risco de desenvolver câncer.

Contudo, a infância é o momento mais crítico para evitar danos provocados pelo sol. Cerca de 80 por cento da exposição aos raios ultravioletas danificadores da pele na vida de uma pessoa acontecem até os 18 anos. Estudos mostraram que quanto mais os jovens forem expostos ao sol em tenra idade, principalmente se sofrem queimaduras solares graves, maior é o risco de vir a desenvolver cânceres superficiais de pele e melanomas mortais.

A questão da proteção solar é ainda mais importante hoje em dia em função da redução da camada de ozônio, tornando todos mais suscetíveis à radiação solar prejudicial à pele.

Um risco evitável

Mesmo com todas as suas propriedades maravilhosas estimuladoras da vida, a luz solar também pode ser nociva e, às vezes, letal, mesmo para quem “nunca” se queima, se bronzeia facilmente ou tem a pele naturalmente escura.

A maioria dos bebês nasce com a pele livre de manchas, mas uma vez expostos à radiação ultravioleta, os destinados a se tornarem louros ou ruivos costumam ganhar sardas, um sinal da vulnerabilidade aumentada à ação prejudicial do sol. Algo ainda mais sério, em populações brancas, é o fato de a exposição ao sol na infância aumentar o risco de desenvolver nevos (manchas de pele), as lesões ricas em melaninas que podem se tornar melanomas.

Ao contrário de formas superficiais de câncer de pele, os carcinomas basocelulares e espinocelulares, os melanomas são cânceres muito mais sérios que se formam na parte mais profunda da pele, podendo se espalhar e ameaçar a vida antes de serem detectados. E não apenas quem tem pele clara corre risco. Os melanomas também podem se desenvolver em pessoas com pele bem escura; embora talvez não queime tão facilmente, a pele escura é rica em células pigmentadas nas quais os cânceres se formam.

Pesquisadores canadenses mostraram há mais de uma década que o uso rotineiro de protetor solar por crianças em idade escolar diminui o risco de desenvolver manchas de pele. O estudo, dirigido por Richard Gallagher, da Agência de Câncer da Colúmbia Britânica, Vancouver, acompanhou 458 alunos do primário por três anos. Inicialmente, todas foram examinadas e tiveram suas manchas contadas e medidas.

A seguir, as crianças foram divididas em dois grupos. Pediu-se aos pais a elaboração de diários detalhados da exposição solar das crianças durante os meses de verão. Um grupo de pais recebeu material educativo e um suprimento de protetor de amplo espectro, com Fator de Proteção Solar (FPS) 30, e instruções de aplicá-lo sempre que os filhos fossem expostos ao sol por pelo menos 30 minutos. Todos os meses, a quantidade remanescente de creme nos frascos era medida para conferir sua aplicação.

O segundo grupo de pais não recebeu material educativo nem o protetor solar gratuito, embora muitos deles aplicassem protetor nos filhos por conta própria. No fim do estudo, o número e tamanho de manchas nos dois grupos de crianças foram reavaliados.

Não havia diferença na quantidade de tempo que as crianças passavam ao sol ou em quanta roupa usavam. Contudo, as crianças cujos pais receberam a informação educativa e o protetor solar desenvolveram menos manchas do que as do segundo grupo. Segundo os pesquisadores, o número menor de manchas significa que as primeiras terão menor probabilidade de desenvolver melanoma quando crescerem.

– É um verdadeiro estudo de prevenção – disse Gallagher.  Os pais precisam saber que se agirem cedo, provavelmente poderão reduzir significativamente o risco dos filhos terem câncer de pele no futuro.

Num estudo de dez anos com 1.621 australianos, com idades entre 25 e 75 anos, Adele C. Green, do Instituto de Pesquisa Médica de Queensland, e colegas constataram que quem usava protetor diariamente na cabeça e braços desenvolveu metade do número de melanomas de quem usava com menos frequência.

Programas úteis

Durante entrevista, Geller, professor da Escola de Saúde Pública de Harvard, citou vários programas que poderiam ajudar a mudar os hábitos de proteção solar. Um deles se chama SunWise, criado para as escolas pela Agência de Proteção Ambiental; ele inclui um “caixa de ferramentas” com materiais instrutivos que podem ajudar os professores a incorporar mensagens relativas à proteção solar em disciplinas como matemática, estudos sociais e educação física. Outro programa é o Pool Cool, desenvolvido por Karen Glanz, professora de epidemiologia e enfermagem da Universidade da Pensilvânia, e voltado para crianças entre cinco e dez anos. Pais e salva-vidas em piscinas recebem instruções sobre o uso de protetor solar, camisas e bonés para reduzir a exposição ao sol.

– Uma camiseta tem FPS entre sete ou oito – contou Geller. Uma quantidade equivalente a uma dose de bebida de protetor solar deveria ser aplicada a toda pele exposta, incluindo orelhas, nuca e peito dos pés, geralmente negligenciados.

Na Austrália, onde o câncer de pele se tornou epidêmico há tempos, uma política pregando que “sem boné, não tem brincadeira”, integrante de uma ênfase maior à proteção solar, tornou o país um dos primeiros do mundo nos quais a incidência do câncer de pele está caindo, de acordo com Geller.

Ele também solicitou que os pediatras “levem a exposição solar mais a sério”, enfatizando a prevenção às queimaduras solares em todas as consultas. Segundo ele, o protetor solar deveria ser facilmente encontrado em piscinas e praias.

– Deveríamos aplicar as lições aprendidas com o tabaco, usando anúncios inteligentes pelos serviços públicos e mais ênfase nas escolas quanto aos aspectos negativos da queimadura de pele. As crianças necessitam ouvir mensagens sobre o impacto da proteção ao sol várias vezes de fontes múltiplas.

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