Uma viagem pela mente: cresce uso de hipnose como recurso terapêutico para tratar doenças

Tratamento pode amenizar dores físicas e problemas psíquicos

Ricardo Feix conduz sessão em que Carmen entra em transe
Ricardo Feix conduz sessão em que Carmen entra em transe Foto: Emílio Pedroso

Trajando um vestido azul forte de flores miúdas, uma menina de três anos e cabelos pretos longos anda de um lado para o outro na sala de casa. A mãe, na tentativa de educá-la, acabara de repetir a frase: “se você não se comportar, o diabinho vai te pegar”. A cena está guardada na memória da administradora de empresas Carmem Paludo, 57 anos, e foi resgatada em uma sessão de hipnose há mais de 10 anos. Desde então, Carmem entendeu que as palavras da mãe fizeram com que carregasse a sensação de medo por toda a vida.

Durante o transe, sugestionada pelo médico, Carmem acolhia a criança e explicava que ela não era má, que a mãe a amava muito e que só teria dito aquilo para afastá-la do perigo. Após a emoção transbordar, aos poucos a paciente retoma os sentidos e escuta o hipnoterapeuta: “Você vai abrir os olhos e entender o significado de tanta angústia”. Essa foi a senha para uma vida longe da depressão.

? Depois de algumas sessões de hipnose, pude entender que a garotinha assustada que eu visualizei era eu. Aquela conversa entre os dois egos ? o adulto e o infantil ? serviu para apagar a sensação de que algo de ruim poderia me acontecer. É claro que meus pais não tinham a intenção de me traumatizar. Assustar as crianças é um comportamento típico dos adultos, mas que deve ser evitado ? diz Carmem.

O fenômeno vivenciado por Carmem é a capacidade que 95% pessoas têm de inibir o autossenso crítico, abstrair e reviver fatos do passado. Funciona assim: o profissional dá uma sugestão, e o paciente a aceita como verdade, desde que não contrarie suas crenças e valores.

A partir daí, o tratamento que varia entre seis e 12 consultas pode amenizar dores físicas e problemas psíquicos.

? Pesquiso muito antes de me entregar a um tratamento e só creio naquilo que a ciência pode comprovar. Nas primeiras consultas, o meu lado racional ainda era muito forte. Demorei a me entregar à hipnose e levar uma sessão até o fim ? disse Carmem, que passou pelas mãos de pelo menos dois terapeutas tradicionais, mas só conseguiu contornar a depressão com a hipnose.

A técnica pode ser coadjuvante em quase todos os tratamentos, inclusive, para doenças crônicas como câncer e hipertensão.

? É a cura de órgãos doentes pela imaginação ? diz Ricardo Feix, clínico-geral e presidente do Instituto Milton H. Erickson Brasil Sul, um dos 130 centros de formação de hipnoterapeutas espalhados em 30 países e reconhecido pelo Internacional Society of Hipnosys.

Contra dores físicas e emocionais

No passado associada a magia e curanderismo, a hipnose cada vez mais é vista pela ciência como um recurso terapêutico para amenizar dores físicas e emocionais. O psiquiatra Rogério Wolf de Aguiar, primeiro-secretário do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers), afirma que, apesar de pouco difundida, a técnica é reconhecida como prática médica.

O problema são os profissionais de todas as áreas, não necessariamente ligados à saúde, que se aventuram na técnica que, feita de modo errado, pode ser muito perigosa. O corpo e a mente do paciente ficam nas mãos do hipnotizador ? diz Aguiar.

No Brasil, os estudos sobre o tema avançam lentamente.

? Poucos profissionais são praticantes, principalmente no Estado. No centro do país, grupos de pesquisa têm a hipnose como técnica complementar em instituições de saúde ? afirma o médico Ricardo Feix.

Um deles é o grupo da dor crônica do Hospital das Clínicas de São Paulo. Lá, o psicoterapeuta João Augusto Figueiró utiliza o método para aliviar doenças como enxaquecas, lombalgias e fibromialgias.

? É possível reduzir a intensidade da sensação dolorosa ? diz Figueiró.

Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o médico hipniatra Osmar Colás é ginecologista e coordena um grupo de vítimas de violência sexual. Ele induz suas pacientes ao transe. Colás afirma que, com a hipnose, 80% dos casos deixam de evoluir para quadros de síndrome do pânico, fobias e vícios como o alcoolismo.

Na mesma universidade, Paulo de Mello lidera o Grupo de Estudos e Pesquisa em Neuropsicanálise. Entre 2000 e 2002, atendeu um paciente de Parkinson que buscou ajuda para melhorar suas atividades.

? Com a hipnose, foi possível reduzir a amplitude do tremor. Sugeri a ele, durante o transe, que o tremor diminuiria ? conta Mello.

Experiências como essas da Unifesp e outras tantas espalhadas pelo mundo, principalmente nos Estados Unidos, onde os estudantes de Medicina tem disciplinas voltadas para o tema, permitem que especialistas julguem possível amenizar e até mesmo curar males físicos.

? Não existe milagre no processo hipnótico, mas sim uma indução para que o cérebro busque recursos biológicos e funcionais não usualmente utilizados no cotidiano ? diz Mello.

:: Tire dúvidas

A hipnose pode ser prejudicial à saúde?
Se feita de maneira correta e por profissionais sérios não há riscos.

A pessoa pode ficar presa ao transe e não acordar?
Impossível. Como o transe é o estado entre a vigília e o sono, o paciente pode ser acordado a qualquer momento. Um paciente em regressão não vai para lugar algum, apenas acessa informações relacionadas a eventos de sua história passada.

Nem todo mundo, contudo, está psicologicamente pronto para rever, sentir e reeditar partes de sua história. Às vezes é necessário tempo, terapia e vínculo com o profissional para que a hipnose funcione. Sessões malfeitas podem deixar sequelas no paciente, como disfunção erétil, hipertensão e problemas emocionais.

Durante o transe, a pessoa perde a consciência?
Durante a hipnose, a pessoa fica com a atenção focalizada em um único ponto, o que nada tem a ver com a perda de consciência. Entretanto, em níveis mais profundos de transe ocorre um desligamento total do mundo exterior. O paciente pode retornar do transe, lembrando ou não do que aconteceu.

:: Indicações

? Problema familiar e conjugal

? Problemas de sexualidade, como impotência

? Hipertensão

? Neurologia (enxaqueca, paralisia, lesões por esforço repetitivo)

? Preparação para o parto normal ou cirurgias em geral

? Dor crônica

? Hábitos indesejáveis, como gagueira e tiques nervosos

? Dependentes químicos

? Distúrbios de ansiedade, alimentares e do sono

? Estresse, depressão, fobias e síndromes pós-traumáticas

? Doenças psicossomáticas

? Problemas de pele

? Quem busca melhorar a performance em concursos, nas artes e nos esporte

:: Contraindicações

? Psicóticos e esquizofrênicos, pois já vivem no transe da doença. Podem entrar em um transe desgovernado

? Epilépticos, já que, durante a hipnose, é necessário que todas as áreas de conexões cerebrais funcionem bem

? Cardiopatas graves , devido às fortes emoções e oscilações de batimentos cardíacos

? Pessoas com demências

:: Saiba mais

O Brasil não tem uma legislação específica sobre o uso da hipnose. Na década de 1960, o ex-presidente Jânio Quadros havia assinado um decreto que proibia o uso da hipnose em espetáculos públicos. Mais de 30 anos depois, Fernando Collor revogou a documento.

Desde então, médicos, dentistas e psicólogos são orientados pelos próprios códigos de ética sobre a utilização da hipnose para fins científicos. Psicólogos também estão autorizados à prática.

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