Por que a música “Gordinha”, de César Menotti & Fabiano, NÃO É uma homenagem às gordas

Em uma daquelas (várias) atualizadas do Facebook diárias, na segunda-feira caiu na minha timeline o lyric video de Gordinha, a nova música da dupla sertaneja César Menotti & Fabiano. Nem preciso dizer que logo fiquei curiosa e mandei ver no play. Já nos primeiros versos, comecei a me incomodar: mais parecia uma coleção de “desculpas públicas” por namorar uma mulher gorda do que, de fato, uma homenagem.

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Confesso para vocês que, de cara, achei que estava vendo coisa onde não tinha. “Mas tu tá problematizando algo que é realmente necessário?”, pensei comigo mesma. Resolvi tirar a prova lá na página do Facebook do Um Plus A Mais (espia aqui!), e a opinião da maioria das leitoras não poderia ter sido mais parecida com a minha. Espia só alguns dos comentários:

“Usam muito a palavra “MAS”, poderiam usar a palavra “E”, incluindo, e não excluindo… dizendo que sim, as gordinhas são fora do padrão…que padrão é esse? O que mais a gente quer é lutar contra os padrões!“, disse a Elisa.

“Coleção dos piores estereótipos possíveis”, escreveu a Clarissa.

“Também não gostei da música. Achei de péssimo gosto a parte do “mas” e a parte do “não vai pra academia”. Horrível”, afirmou a Carol, do blog Lady Fofa (aliás, vale super a visita!).

“Essa música não me representa de forma alguma. Quer dizer que porque sou gordinha não me exercito, não faço nada. Uma visão muito errada, a música  começou mal com o “mas” e só foi piorando“, comentou a Dani.

E o debate rolou solto! Pois bem, fato é que me livrei da auto-culpa de problematizadora sem causa e constatei que aquela letra incomodou não só a mim, mas a várias gurias que enfrentam os mesmos  obstáculos diários que eu. E se a música é, teoricamente, dedicada a nós, nada mais justo do que explicar por que, afinal, a gente não se sentiu representada – aliás, bem pelo contrário.

Antes de tudo: que fique bem claro que nada aqui é contra a dupla César Menotti & Fabiano (até porque adoro a música Leilão deles), tampouco contra o estilo sertanejo (que amo/sou desde criancinha com Leandro & Leonardo, Chitãozinho e Xororó e Zezé & Luciano). Também vale frisar que esse texto é feito de uma guria gorda para gurias (e boys também!) gordas – então peço empatia aos demais de se colocar no nosso lugar antes de dizer que é mimimi, combinado?

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Vambora ver o que tem de errado nessa “Gordinha”, verso a verso:

“Ela tá fora do padrão que você quer
Mas eu gosto dela assim

Ela não faz seu tipo de mulher
Mas é fora do normal pra mim”

Quando a gente vê um mas, já pressente coisa ruim na sequência, não é?

yes

“Ela não anda, não malha, não corre”

Começou a chuva de estereótipos. Quem foi que disse que gorda não malha? E que não pode correr? Nem vamos falar sobre esse “anda”. Isso só reforça a ideia de que o gordo só é gordo porque quer – e porque tem preguiça de malhar, de andar, de correr. Existe gordo preguiçoso? Claro que sim, assim como tem magro que não vai à academia nem que paguem. Não é o fato de SER gordo que te limita. E não quer dizer que você é gordo só porque não é geração malhação. Precisamos acabar com essa ideia de que gordinhxs não se exercitam – isso é, inclusive, um desestímulo para quem quer começar uma atividade física e tem medo de lidar com os olhares jocosos dos preconceituosos de plantão.

pole

“Mas ela se cuida como ela pode”

Como assim ela se cuida como pode? Me pareceu algo tipo “ela é gorda, cara, mas faz um esforço porque pelo menos tenta se arrumar e dar uma melhorada”.

Não quer saber de malhação, ela tá linda”

Entendo a boa intenção do “ela é linda assim”, mas a leitura implícita é “mesmo que seja gorda, é linda”. Porque o mas? Porque não pode ser gorda & linda? 2016, né? Não dá mais para vincular magra = bonita, gorda = “ainda” assim, dá para o gasto. Como disse a Elisa, que tal se a gente começasse a somar e não restringir?

michelle

“Vai comigo pro boteco mas não vai pra academia”

Aqui, um estereotipo que talvez fique até implícito: gorda é sempre a divertida, a sem nojinho, a que vai para o bar com você. Já a magra é a que você leva para a festa de casamento, o jantar da firma, a boate badalada. Porque a gorda não pode ser a mulher que te acompanha no casamento – e a magra no bar? É absurdo que as gordinhas sigam condicionadas a ser as mulheres que fazem rir, que não têm frescura, que para o bar chinelão porque, afinal, elas precisam compensar o fato de ser gordas com muita boa vontade de agradar e simpatia. De uma vez por todas: a gorda não precisa ter “algo a mais” só porque é gorda. Ela não precisa ser engraçada para valer o date com uma guria com barriga e coxa grossa. Você não precisa justificar para os amigos que tá pegando uma gordinha “porque ela é bróder”. Se você acha isso necessário, é melhor nem se envolver com a moçoila, porque ela não precisa de você se desculpando ao mundo pela existência dela.

E o “mas” aqui de novo? Ai, essas gordas que ficam no bar em vez de estar malhando, né? [ironia mode on]

“Ela é gordinha mas é minha, eu não troco por nada
Quando sai comigo ela arrasa na balada
Ela é gordinha mas é minha, tem gente querendo
Olha que sucesso minha gordinha tá fazendo”

Mas, mas, mas. De novo ele aqui para justificar o fato da voz masculina em questão “fazer o favor” de pegar a gorda. E outra: porque ressaltar o tempo todo que é gordinha? Não pode só tratar de namorada, ficante, peguete ou o status que seu coraçãozinho mandar?

Sobre o sucesso, volto ao ponto: olha a pobre gorda precisando provar que é sucesso para ser respeitada.

Deu, coloquei tudo para fora! E gurias, quero ouvir vocês por aqui também: concordam? Discordam? Fiquem à vontade para deixar opiniões, viu?

 

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