Modelos plus size desfilam na SPFW e comemoram: “As pessoas precisam saber que o gordo existe”

De todos os desfiles que já acompanhei – de longe, pelo computador, ou nas temporadas cobrindo a SPFW para a Revista Donna –, nunca me senti tão parte daquele mundo como na noite deste segunda-feira. Já me emocionei com nomes como Isabela Capeto, Ronaldo Fraga e Lino Villaventura, desejei tudo o que Alexandre Herchcovitch criou e suspirei com o frescor da Cotton Project, mas nada se compara ao sentimento de ver alguém com um corpo parecido com o seu cruzando a passarela. E foi isso que aconteceu no desfile da LAB, que entra para a história da fashion week paulistana como o desfile mais cheio de representatividade REAL que tive o prazer de assistir.

Teve (muitos) negros, teve gorda e teve gordo. Aliás, teve mais de um. Teve gente que foge aos padrões da passarela e, no fim das contas, representa quem a gente vê nas ruas todos os dias. Teve gente de verdade, que consome tanta moda quanto qualquer outra pessoa – e só não consome mais, muitas vezes, porque as marcas lhes negam isso ao oferecer numeração até o 44.

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Na noite desta segunda, quem cruzou a passarela foi a modelo Bia Gremion: 19 anos, manequim 60, 140 kg. A maior modelo a atravessar do backstage ao pit de fotógrafos, e que me fez lacrimejar e borrar todo o delineador. Sim, isso mesmo: Bia foi a modelo mais gorda da história da SPFW, e tê-la lá é mais um passo para dar poder, voz e visibilidade a todas as gordas desse Brasil. E aos gordos também: junto com ela, estava Akeen Kimbo, modelo masculino plus size. Teve também a Ellen Oléria (foto à direita na montagem acima), dona de um vozeirão que a tornou campeã do The Voice – e um mulherão cheio de curvas.

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Poucas horas antes do desfile, cruzei com Bia e Akeen no backstage da SPFW. Eles me contaram que participaram de um casting cheio de “modelos padrão”. Ficaram tímidos, de cantinho: mal sabiam eles que seriam alguns dos protagonistas do desfile mais cheio de representatividade da semana de moda paulista.

“Além das perspectivas para a minha carreira, tenho perspectivas para as pessoas gordas circularem mais nesse meio. Pessoas gordas existem e elas consumem moda. Eu amo moda, ele (Akeen Kimbo, ao lado) ama moda, então a gente precisa circular nesses lugares sim”, me disse Bia.

“As pessoas precisam saber que o gordo existe. Em um país que mais de 60% das pessoas estão acima do peso, não dá para fazer marca só para magras. Tem que viabilizar a gente também”, completou Akeen.

Não pode ser mais verdade. Não faz sentido que as marcas fechem os olhos para a maioria da população, que veste e compra tanto quanto a minoria que usa até 44. Se não para ser justo e fazer roupa para todos os clientes, que seja pelo poder financeiro: será que elas sabem quanta grana estão perdendo?

Eu sou apaixonada por moda desde que conheço por gente, mas acho que a moda, de fato, nunca amou quem eu sou e o que represento. Nunca quis me vestir, nunca quis mostrar um corpo como o meu na passarela. Ignorou por muitos anos e renegou a araras escondidas as peças em que eu poderia caber. Insistente que sou, sempre rodei lojas e lojas pra talvez achar um vestidinho, que “era pra ser soltinho, mas em mim tá justo e como serviu, coloco uma jaquetinha por cima e resolvo”. Eu ouvi piadas de vendedoras, me espremi em roupas para tentar ser parte daquilo, chorei em muito provador. Mas, agora, foi a vez de chorar por ver na passarela uma guria gorda e linda ali, ao lado de gurias magras e lindas, ambas em pé de igualdade. Finalmente, me senti parte daquilo. E que seja apenas o primeiro de muitos desfiles com gordas, gordos e muitos modelos negros no casting, na passarela e na moda.

“É básico, é roupa, é moda. As pessoas gostam disso, é uma forma de se expressar. É um marco”, resume Bia – e não posso concordar mais.

Obrigada Emicida, obrigada Evandro Fióti, obrigada João Pimenta. Obrigada Laboratório Fantasma. Finalmente, obrigada, SPFW.

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