Atriz magra usa enchimento para viver personagem gorda em novela: por que isso é tão absurdo e nocivo?

Se você fosse diretora de elenco e precisasse escolher uma atriz para viver uma personagem que, segundo o roteiro, precisa ter o tipo físico “gorda”, o que você faria?

A. Buscaria uma atriz que seja gorda
B. Selecionaria uma atriz magra e faria ela usar enchimento para parecer gorda.

Parece surreal dizer isso em pleno 2018, mas a opção B foi a escolhida pela direção da novela Deus Salve o Rei, atual trama das 19h da TV Globo. No folhetim medieval, quem dá vida a personagem Glória é a atriz Monique Alfradique. Mas lembra que a descrição é de uma mulher gorda? A “solução” encontrada foi fantasiar Monique, uma mulher de cerca de 50 quilos e 1m60cm, de gorda. Sim, fazer com que ela use enchimentos para parecer ter braços, barriga e quadris gordinhos. E até prótese para simular um rosto mais arredondado.

Essa é a personagem vivida por Monique:

moniquealfra

E essa é a Monique “pessoa civil”:

É, gente… por onde eu começo?

Você talvez já tenha ouvido falar do blackface, que é quando uma pessoa branca usa tinta escura para se “fantasiar” de pessoa negra. É uma prática totalmente condenável pelo movimento negro (e por qualquer pessoa com NOÇÃO), com TODA a razão. Em uma coluna publicada na revista Época, a antropóloga Rebeca Campos Ferreira explica o porquê:

“O blackface é uma técnica de maquiagem teatral, na qual pessoas brancas pintam-se de negras para imitá-las de forma caricata, o que reforça características físicas, estereotipando-as com o intuito de fazer piadas. (…) O blackface renova o preconceitos, essencializa estereótipos e é uma forma de exclusão, uma vez que opera ao negar espaços a atores negros. Blackface é opressão que longe de ser uma forma de humor, é uma forma racista que, se hoje é mais sutil, não é menos ofensivo. É mais um mecanismo de discriminação”, escreve Rebeca.

Consideradas as devidas proporções – nem de longe aqui quero comparar o racismo ou minimizar o preconceito que as pessoas negras sofrem diariamente -, o que acontece com a personagem de Monique é uma “versão” (muitas aspas aqui!) do blackface. Só que, claro, aplicado a pessoas gordas. Tem nome: fatsuit, que é quando alguém magro usa uma roupa de espuma, um enchimento mesmo, para se “fantasiar” de gordo. O resultado vocês já imaginam: fica tosco demais, justamente porque ridiculariza o corpo gordo. Quem usa fica totalmente amorfo, não consegue nem andar direito. Parece um boneco de posto de gasolina, sabe? No fundo, a imagem que passa é que essa é a visão que as pessoas têm de quem é gordo: uma criatura sem forma, sem identidade. Já deu errado quando Gwyneth Paltrow fez isso em 2001, no filme O Amor é Cego, lembra? Para que repetir agora, alguém explica?

Aqui no Um Plus A Mais
:: Por que Ashley Graham não considera “mulher real” um elogio
:: Gordas na telinha: Um Plus a Mais ganha programa semanal ao vivo
:: Por que, afinal, as pessoas estão tão preocupadas com os seios da Bruna Marquezine?
:: Beleza em dose dupla! Ashley Graham posa para campanha de biquíni ao lado da mãe
:: Alalaô! Uma seleção de peças plus size para montar seu look de Carnaval – e arrasar nos bloquinhos
:: As melhores marcas plus size de moda praia para encontrar o biquíni do seu verão
:: Barriga, celulite e estrias sem filtro: youtuber mostra seu corpo como é para inspirar outras mulheres

Mas a versão caricata e extremamente estereotipada do corpo gordo com o fatsuit é só a pontinha do iceberg, acreditem. Não parei de me fazer outras perguntas quando vi Monique fantasiada de gorda:

Por que, afinal, não chamaram uma atriz gorda?

Não tem como ser mais óbvio, né? Me custa a acreditar que ninguém, absolutamente ninguém, pensou nessa possibilidade. Se a personagem, pela trama, precisa ser uma mulher gorda, nada mais correto do que contratar uma atriz gorda. E, gente, o que não falta é gorda nesse mundo. A maravilhosa Mariana Xavier, da própria Globo, é uma delas. Mas tem muitas, muitas mais por aí, não tenho dúvida. Seria, inclusive, mais um jeito de dar oportunidade a uma atriz gorda que, sejamos sinceros, tem espaço reduzido (para não dizer quase nulo) na TV.

E você pode contra-argumentar: “Ah, mas a direção usou esse recurso porque é televisão, precisam gravar as cenas rapidamente. Não dá para emagrecer tão rápido. Se fosse cinema, talvez, mas aqui a produção exige velocidade”. Pois bem, isso nos leva ao segundo questionamento…

Mas por que a atriz precisava ser gorda?

Olha, eu posso contar nos dedos as vezes que colocaram uma atriz gorda na telinha para viver uma personagem cuja trama não fosse relacionada ao corpo. Como se as mulheres gordas passassem o tempo todo só pensando nisso, sabe? Como se ser gorda reduzisse você ao seu corpo, excluindo qualquer outra característica sua – uma profissional incrível, uma supermãe, whatever. Para ser bem correta aqui, vale lembrar da personagem da própria Mari Xavier na novela A Força do Querer (2017), também da Globo. Era exatamente a mulher gorda maravilhosa e bem-resolvida, que não tinha problemas (pelo menos aparentes na trama) com o próprio manequim. O filme Gostosas, Lindas e Sexies (foto abaixo), com atrizes como a Cacau Protásio, seguiu a mesma linha, mostrando mulheres gordas e felizes. Salvo poucos resvalos nas respectivas tramas, belos exemplos. Mas os dois únicos que posso citar quando se fala de TV brasileira.

:: 5 razões para assistir “Gostosas, Lindas e Sexies”, longa com quatro protagonistas plus size

sexiesss

Segundo a definição da própria Monique no site GShow, a personagem é uma “jovem insegura, com problemas de autoestima, que sofre por não se amar”. De novo, o estereótipo: quando a trama inclui uma mulher gorda (na real, uma gorda fantasiada ainda por cima!), ela tem problema de autoestima. E o que deve rolar? Os spoilers noveleiros denunciam que a personagem vai atrás de uma feiticeira, que a fará emagrecer. Aquele velho papo de gata borralheira e Cinderela, né? Tudo indica que a personagem Glória ficará “bonita” aos olhos do mundo porque estará magra. Enquanto era gorda, prevalecia a imagem de Gata Borralheira. Simples assim.

Vou ser sincera: o meu maior medo é que o tal emagrecimento da personagem Glória ganhe o viés de volta por cima. O conhecidíssimo makeover. Que repita aquele conhecido enredo de que só assim, magra, ela estará bonita aos olhos dos outros. Ou que role aquela cena de espanto, de todos admirando a nova versão da personagem – magra, claro, e por isso admirada, porque enquanto era gorda… Torço MESMO para que não seja esse o desenrolar da trama (que já vimos se repetir tantas e tantas vezes…)

Sabe o que eu queria ver de verdade? Uma novela com protagonista gorda. Cadê a Helena gorda do Maneco, hein? É tão difícil assim conceber que podemos ter atrizes gordas vivendo empresárias bem sucedidas, mães de família felizes? Imagina que doido uma CEO gorda no horário nobre? A gente fala de representatividade todos os dias (e cada dia mais), mas essa realidade me parece estar tão longe de ser percebida na prática, sabe?  Bate-se na tecla do body positive, do amor próprio, clama-se por valorizar todas as belezas, mas na hora de assumir e mostrar isso na TV e no cinema, todo mundo se esquiva. Parece que as pessoas não estão prontas para abrir os olhos ainda.

Só uma lembrança: 2018, gente! 

 

Veja também
:: Semana de moda de NY apresenta desfile com modelos plus size; inspire-se nas tendências

:: Look de Fabiana Karla no Emmy Internacional quebra mitos sobre moda plus size
:: Modelos plus size desfilam na SPFW e comemoram: “As pessoas precisam saber que o gordo existe”
:: Por que essa foto de Ashley Graham andando de bike é tão inspiradora – para gordinhas ou não

Plus a Mais também no Face!

O blog ganhou sua própria página no Facebook. Clica aqui para conhecer (e dar aquele like amigo! haha)

pluscardnovo