E a diversidade de corpos, hein? NENHUMA modelo gorda cruzou a passarela nesta SPFW – e por que isso é preocupante

Eu sempre fui gorda. Quando era pequena, fofinha, e depois a adolescente gordinha. Hoje, adulta (jovem adulta! haha), sou gorda mesmo. E, ainda assim, sempre gostei de moda. Lá pelos meus 13, 14 anos, gostava mais era de roupa mesmo. Só que, como é comum a 99,9% das gordas brasileiras, tinha dificuldade de achar coisas bacanas. Foi aí que, com a minha melhor amiga de infância, a Mari, comecei a desenhar e mandar fazer tudo o que vestia em uma costureira da cidade. Descobri toda a magia dos panos e das linhas, e também pesquisava na internet (discada!) referências para o que eu iria mandar fazer. E foi então que meu flerte com a moda, de fato, começou. Aos trancos e barrancos desde sempre, já que ela nunca foi muito gentil comigo: sempre fiquei meio à margem, mas, insistente que sou, continuei ali, firme e forte.

Conheci estilistas que estão entre os meus preferidos até hoje, como Alexander McQueen, Jeremy  Scott, Olivier Rousteing, Marc Jacobs, Alexandre Herchcovitch, Alessandro Michele… E conheci também marcas que, de fato, criavam e vendiam roupas para o meu tamanho, a maioria idealizada por gurias também gordas, independentes, que estavam na mesma situação “órfãs fashion” do que eu. Esse mercado, ainda bem, só faz crescer, ainda que esteja longe de chegar para camadas mais populares de mulheres gordas. E aí começou o boom do body positive, com gordas na propaganda de maquiagem, nas capas de revistas, em editoriais… Confesso para vocês, isso me deu esperanças de que as coisas estavam mudando, ainda que a passos de formiguinha.

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Quando a LAB – aka Laboratório Fantasma -, marca de Emicida e Fióti, estreou na São Paulo Fashion Week com modelos gordos como a maravilhosa Bia Gremion e o muso Akeen Kimbo, meu coraçãozinho fashionista se aqueceu. Conversei com eles no backstage, e me lavei chorando no desfile. Foi a primeira vez na minha vida que vi uma mulher com o corpo parecido com o meu na passarela (aliás, já comecei a lacrimejar aqui lembrando…). Acreditei que, de fato, eu ia começar a me ver representada na maior semana de moda do país. Aquele evento em que vou duas vezes por ano para cobrir todos os desfiles como repórter de moda do Donna, mas que nunca, nunquinha me enxergava de fato. Em que escrevia sobre roupas que não eram feitas para mim, vestidas por modelos que não eram como eu.

Na temporada seguinte, a LAB estava lá de novo, com modelo gorda – inclusive a rainha MC Carol na última edição. E teve também Fluvia Lacerda, maior modelo plus size brasileira, que só estreou na passarela do principal evento de moda do país ano passado, na passarela do Ronaldo Fraga. Dava para contar nos dedos o número de mulheres gordas que desfilaram? Dava, e sobrava dedo em uma mão só. Mas era um começo – e eu sou otimista. Acreditei.

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Bia e Akeen na SPFW

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Mas, nesta temporada, o barraco desabou. Foram trinta e três desfiles. Trinta e três oportunidades de ter pelo menos uma mulher ou um homem gordo na passarela. Nenhuma marca quis. Para ser justa, a única tentativa de sair do padrão foi da Água de Coco, que trouxe uma modelo curve – mas que vestia 42. Passa bem longe do 50 da minha etiqueta, que ainda é pequena se pensarmos que existem mulheres de tamanho 54, 60, 62, que também estão aí na rua consumindo e vivendo. E querendo ser representadas. Não custa lembrar: 53,8% dos brasileiros são, pelo menos, gordinhos, segundo o Ministério da Saúde.

E por que não tem gorda na passarela, hein? Sinceramente, não sei responder para vocês. Não sei os meios de produção, as filosofias, os meandros técnicos de cada uma destas trinta e três marcas. O que sei, trabalhando neste meio, é que é mais fácil criar para modelos padrão: você confecciona toda a sua coleção de passarela em tamanho 36, contrata um casting inteiro de meninas 36 e pronto, qualquer uma serve em qualquer roupa. Mas nem todas as clientes vestem 36, sabia? E o resto, fica como? Imaginando como ficaria aquela roupa em seu corpo tamanho 42, 44? E nem falo de mim, porque sei que a maioria das marcas que desfilaram não têm roupa para o meu corpo, mesmo que eu pudesse pagar por elas. E isso é excludente demais.

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MC Carol na SPFW

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Parece que voltamos a estaca zero, pelo menos quando se fala da maior semana de moda do Brasil. Na teoria, diversidade é lindo, né? Para ganhar likes no Instagram, só se for, porque, na prática, vejo pouquíssimas mudanças quando se fala de moda feita por grandes grifes. Continuamos sendo invisibilizadas. E, se antes contávamos pelo menos com a cota da gorda para ganhar manchete, agora nem isso. No que se refere a diversidade de corpos, essa temporada de moda foi triste demais. E não sei se a mudança está tão perto assim, sabe? Susana Barbosa, diretora de redação da Elle Brasil – para mim, a maior revista de moda do país, e que tem de fato tentado ser mais inclusiva -, diz que, sim, a diversidade de corpos é ainda o maior tabu para a moda:

“Quando a gente fala de diversidade, na questão racial, do cabelo, do gênero, está andando com mais velocidade, mas nos tamanhos é onde mora o grande problema da moda. Falo que esse é o maior tabu do setor. Já demos alguns passos, mas estamos longe do ideal”, falou a editora, em matéria do jornal Hoje em Dia, assinada pela minha colega querida de imprensa Flavia Ivo.

Sinceramente, estou desacreditada demais. E são questões como essa que me fazem querer dar mais e mais visibilidade a marcas independentes plus size, a mulheres gordas que fazem acontecer. Isso me faz ter vontade de incinerar todas as roupas que comprei em fast fashion que não vendem para gordas. Cansei de dar o meu dinheiro para quem não se importa comigo, sabe? Não sei qual é a solução mágica para mudarmos esse cenário, mas convoco vocês, manas gordas: a gente precisa cobrar, a gente precisa xingar, a gente precisa expor. Se não quer vender para a gente, tudo bem, mas não usem nosso corpo como marketing barato. Queremos mudança.

Eu torço, de verdade, para que na próxima temporada de moda o cenário seja outro. Quero acreditar. Mas, hoje, está difícil.

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