#GordofobiaMédica: mulheres relatam casos assustadores de preconceito nos consultórios e pedem respeito e dignidade

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sempre tratando de temas relacionados a diversidade.
A coluna abaixo será publicada na edição de 4 de agosto.

Quando o blog Um Plus a Mais e essa coluna nasceram, comecei falando de moda para mulheres gordas. Foi por causa do mundinho fashion – quase sempre ingrato com quem veste mais do que 46, vale dizer – que passei a me olhar no espelho de forma diferente. Perdi o medo de usar roupa mais ajustada ou curtinha, e hoje tenho que me controlar para não usar paetê no trabalho. Escolhi falar de moda GG porque é uma das áreas da vida que mais causam dor de cabeça para quem é plus size, e acredito, de verdade, que se vestir como você quer deveria ser um direito básico.

Mas, ainda mais básico – e necessário – do que encontrar uma roupa que te sirva, é direito à saúde. E é justamente esse o debate que ganhou força nas redes sociais na última semana: levantada pela ativista Flávia Durante, a #GordofobiaMédica revelou inúmeros casos de pessoas gordas que foram humilhadas em consultórios por aí. Quer mais? Há relatos, inclusive, de mulheres e homens que não foram diagnosticados corretamente porque a justificativa básica para qualquer doença seria a gordura. E, claro, o tratamento apontado por muitos médicos é simplesmente mandar emagrecer, independentemente do sintoma que você apresente.

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São relatos assustadores, mesmo, até para quem foi gorda a vida toda. Há uma mulher contando que foi chamada de rinoceronte pelo médico na mesa de parto. Outra diz que, após perder o bebê, ouviu da médica que fazia a curetagem que deveria se preocupar em emagrecer em vez de fazer filho. Mais: nos comentários de um post do Buzzfeed sobre o tema, uma leitora lembra a vez em que foi ao oftalmologista com a vista embaçada e ouviu do médico que deveria parar de comer lanches. Até visitas ao dermatologista renderam preconceito: uma mulher lembra o dia em que chegou ao consultório reclamando de problemas na pele e teve como resposta que era por conta do peso. Dias depois, outro profissional a diagnosticou com psoríase. Quando comecei a ler os depoimentos, lembrei também de uma situação que passei. Não chega nem perto da gravidade dos casos compartilhados, mas é inegável que me fez mal. Ao consultar com uma ginecologista, a primeira pergunta que ouvi quando sentei na cadeira é se pretendia emagrecer – ela sequer havia me examinado ou perguntado sobre o meu histórico clínico.

Veja alguns relatos compartilhados pela #GordofobiaMédica

“Eu tive algumas crises de vômito quando eu era criança. Ia no PS e MAIS DE UMA VEZ ouvi que era porque eu tinha “comido demais e o corpo não aguentava”. Mas era intoxicação mesmo, magro também tem”

“Fui fazer o exame de médico do Detran e a médica disse que eu deveria procurar ajuda psicológica, pois não era normal carregar o peso de duas pessoas normais em um só corpo! Além disso, esse tipo de gente incomoda no avião”

“No meu trabalho, um médico aleatoriamente me falou que preciso cuidar da cabeça porque gordas ficam loucas muito fácil, na frente da equipe toda!”

“Procurei um otorrino por causa de dores de garganta muito recorrentes. O médico me disse que todo mundo tem a garganta ruim mesmo, e que eu tava passando por isso porque era gorda. Na consulta de retorno, sem contexto algum, me falou para fazer dieta”

“É você ter um pelo encravado, que virou um furúnculo e, na sala da médica, ela olhar para você e dizer: “Para de comer besteira e tomar refrigerante que você não terá mais isso”. Detalhe, era minha primeira consulta e ela nem sabia qual a dieta que eu sigo e que não tomo refri”

“Teve uma vez que fui à ginecologista e disse que tinha cólicas. Ela disse que eu deveria emagrecer, e eu perguntei se era a causa da minha cólica. Ela não pediu exame nenhum além dos normais. Eu pesava, naquela época, 65 quilos, não estava nem perto de sobrepeso”

“A médica perguntou como estava meu colesterol, glicose, etc. Quando ela viu os resultados e constatou que eu não tinha problemas de saúde, disse que não se deve confiar em exames laboratoriais, porque nesse caso meu peso falava mais alto do que os resultados”

“Teve um neurologista que se negou a me atender (depois de passar no plano) dizendo que se alguém da minha idade se permitia chegar nesse estado, não queria melhorar e ele só tinha interesse em paciente que queria ficar bem (sic)”

“Ir à psicóloga e ouvir: “A ansiedade pelo menos te fez emagrecer, né? Olha aí que bom. Nem precisou se esforçar”. Depois de ficar um mês em crise e vomitando tudo que eu comia.

“Até hoje eu tenho pavor de ir em médico. É terrível você ir procurar ajuda de um médico e ele dizer que se eu emagrecer aquela doença vai sumir, sendo que uma coisa não tem nada a ver com a outra”

“Uma colega técnica lesionou o joelho no trabalho. Dor A-GU-DA. nunca teve dor no joelho antes. O cara mandou ela emagrecer. E disse para ela continuar trabalhando (SOU PEDIATRA E SABIA QUE ERA LESÃO). Ela foi em outro médico. Rompeu o ligamento. Por mau jeito”

Além de um tratamento desumano, para dizer o mínimo, esses supostos profissionais deixam de examinar e diagnosticar minimamente uma pessoa gorda porque só conseguem enxergar o exterior. Sequer pedem exames para analisar níveis de colesterol e já atestam que o peso é a causa de absolutamente qualquer problema que venham a ter, da unha encravada ao câncer. Negam o direito fundamental de tratar o paciente com dignidade e respeito, como atesta o próprio Código de Ética Médica no artigo 23: “Tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto”.

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Sabe qual a consequência disso? Para além de diagnósticos errados ou levianos, faz com que as pessoas gordas tenham medo de encarar os consultórios médicos. Não querem sofrer humilhação de um profissional que, no final das contas, está sendo pago para lhe prestar um serviço de saúde. Deixam de se tratar por medo de sofrer em situações degradantes. Ou acham que é inútil recorrer aos doutores porque, afinal, o receituário pode vir com uma única suposta solução mágica para tudo: emagreça. Não estamos negando que o sobrepeso pode, sim, ser um fator de risco e até a causa de problemas de saúde, mas não é o único.

Não custa dizer que casos como esses, embora chocantes, provavelmente são a exceção e não a regra. Cabe a nós denunciarmos situações em que, por um motivo ou outro, não tenhamos sido atendidas com dignidade ao Conselho Federal de Medicina. Profissionais que não ajam como tal precisam, sim, ser punidos para que não repitam esse tipo de comportamento com outras pessoas. Saúde é um direito básico de todos nós, independentemente do número que a balança aponte.

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