O dia em que me descobri feminista – e como o movimento mudou minha maneira de ser e pensar

O Um Plus a Mais também está na versão impressa da Revista Donna,
sempre tratando de temas relacionados a diversidade.
A coluna abaixo será publicada na edição de 18 de agosto.

Ser repórter de comportamento – e assinar reportagens sobre temas complexos como o feminismo, a exemplo da capa desta edição – faz com que a gente se questione. A cada nova entrevistada, um ponto de vista que ajuda a esclarecer ou contribui para confundir ainda mais. Mas, acima de tudo, faz com que a gente reveja o nosso próprio comportamento.

Caí num túnel do tempo desses enquanto conversava com a Angélica Kalil, que comanda o canal Você é Feminista e Não Sabe. No papo, a jornalista me contou que questiona a cada entrevistada, qual é, afinal, a sensação de se descobrir feminista. Assim que coloquei o telefone no gancho, parei para pensar em que resposta eu daria. E a resposta foi um misto de certa vergonha e, claro, de libertação.

Comecei a lembrar da Thamires do colégio. Que, embora fosse razoavelmente bem-resolvida, sempre ficava com o pé atrás se questionando o que os outros iriam pensar daquele cabelo roxo. Ou do All Star de cano altíssimo. Que deixou, muitas vezes, de usar a camiseta de banda que tinha vontade porque as colegas patricinhas iam olhar torto. Era bem feliz sendo amigona dos guris, sentando na turma do fundão, mas às vezes batia aquela invejinha das menininhas loiras e de batom brilhante que pareciam ter saído de um filme de colégio americano da Sessão da Tarde. Não tenho lá muito orgulho de lembrar que julguei colegas porque se vestiam de rosa. E não gosto de lembrar também que fui escanteada algumas vezes porque não era como elas.

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Pensei também nas (muitas) vezes em que já fiz merda com outras mulheres. Que adolescente nunca falou mal do vestido decotado da colega nas festinhas de 15 anos, hein? Ou da guria gostosona que pegava geral? Embora muitas de nós quiséssemos, sim, estar naquela posição “desejada” quando se é adolescente, nosso escudo natural era falar mal. Do cabelo, da roupa, do sapato, até da risada da criatura.

Não foram poucas as vezes em que estive nesses grupinhos em que se falava demais – se não dando com a língua nos dentes, ouvindo sem questionar. E brigar por causa de crush, hein? Teve uma vez em que discuti com a minha melhor amiga de infância porque, veja bem, ela adicionou no MSN um boy de quem eu (achava que) gostava. Vê se tem cabimento?

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Olhando para trás, vejo o quanto fiz mal a mim mesma e deixei de ser legal com os outros. E se a gente não se importasse com a guria do vestido curtíssimo, que só diz respeito a ela mesma? E se tivéssemos ido puxar papo com as loiras patricinhas para ver se elas não eram legais? E a colega pegadora? Por que a gente não pediu a ela uns conselhos de paquera? E por que a gente achava problema ela ser pegadora e queria ficar com o guri garanhão da sala? Hein, hein? E se eu não tivesse deixado de usar as roupas que queria? Ou, como guria que sempre foi gordinha, como é que teria sido a vida sem dietas mirabolantes para tentar ser como as patricinhas de quem eu nem gostava? E se…

São dúvidas que jamais serão respondidas. Mas, olhando para trás, só consigo pensar que eu teria me cobrado muito menos se tivesse conhecido o feminismo antes. Teria julgado muito menos as gurias à minha volta e respeitado mais as escolhas de cada uma delas. E talvez pudesse até ter investido meu tempo fazendo coisas que sempre ouvi que eram para os guris – como jogar futebol, que nunca tentei porque achava que seria bruto demais para mim, que já não tenho tanta habilidade com esportes assim.

A Angélica Kalil me contou que, quando se descobriu feminista, era como se subisse em um muro e conseguisse ver os dois lados da mesma realidade. No meu caso, é como se tivesse tirado um casaco apertado, sabe? Daqueles de três invernos passados e uns quilos a menos, que você coloca e parece que está o tempo todo presa, mesmo ainda conseguindo vestir. Você se sente desconfortável, mas até esquece o porquê, já que aquela peça é tão tradicional no seu armário, não é? Mas, quando tira depois de um dia inteiro, fica pensando: “Como é que consegui usar esse troço por tantas horas?”.

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Não é que eu vivesse mal ou não fosse feliz sem o feminismo. Eu era, mas me sentia presa, e não sabia por quê. O feminismo me ensinou a olhar para as outras mulheres com mais compaixão. Aprendi que é, sim, meu dever tentar entender a outra antes de julgar – para julgar cada vez menos. Me fez entender que eu não preciso do aval dos outros para fazer o que quero e ser quem eu quero.

O feminismo me ensinou a brigar mais – não por bobagem, mas por tudo aquilo que é desigual sem motivo. Também me ajudou a entender e ser mais solidária e empática com brigas que não são minhas. Me fez olhar menos para o meu próprio umbigo.

É fácil? Claro que não. É, na verdade, bem doloroso entender o quanto a gente perdeu tempo na vida com picuinhas desnecessárias, enquanto há causas bem mais verdadeiras para se engajar. Mas também é libertador. Se você tiver a oportunidade de tentar entender um pouquinho mais o que há por trás desse movimento – e vai bem, bem além da casquinha superficial de que falei aqui –, asseguro que vale a pena. Vamos juntas?

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