“Dietland”: por que assistir à série que fala sobre as (muitas) cobranças que as mulheres enfrentam

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A coluna abaixo será publicada na edição de 1º de setembro.

Eu sempre fico com o pé atrás quando me dizem: “Tu precisa assistir a esta série, é a melhor coisa dos últimos tempos”. Tenho preguiça do hype exacerbado – e já perdi o timing de ver produções incríveis como Stranger Things, à qual só me rendi depois de muito tempo lançada. Meu pavor só aumenta quando me dizem que se trata de uma série com personagens gordas. É batata: posso contar nos dedos de uma mão só as vezes que colocaram mulher gorda nas telas sem que a mocinha da vez demonstrasse problemas com o próprio peso. Às vezes, ela quer emagrecer (Bridget Jones), outras ela se “descobre” bonita no final (Sexy por Acidente), ou, claro, luta contra os altos e baixos da própria autoestima (This Is Us). Parece que peso é o único “problema” passível de enredo na vida de uma mulher gorda.

Quando vi o título da série da vez, Dietland, indicada pela minha amiga Vanessa Scalei, que assina a coluna sobre TV aqui de GaúchaZH, bateu aquela curiosidade, confesso. Mas a preguiça de talvez deparar com mais uma representação estereotipada me fez enrolar, enrolar… Até a última segunda-feira. Resolvi dar o play e dei de cara com Alicia Kettle (Joy Nash). Já nos primeiros minutos, ela revela que seu apelido é Plum (ameixa, em inglês). “Porque sou suculenta e arredondada”, explica. Logo, viria a reviravolta – e o porquê de Dietland ser, sim, a melhor coisa que vi nos últimos tempos. “Também conhecida como gorda. Eu posso dizer isso”, completou.

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Já nas primeiras cenas, Plum avisa que a versão dela que estamos conhecendo pertence ao passado. Ou seja, começa, claro, com a mulher gorda que sonha em perder peso. Aos 30 e poucos anos e com mais de 130kg, ela se submete a mais uma dieta rigorosíssima, um dos passos para a cirurgia de redução de estômago que pretendia fazer. Em certo momento, a protagonista mostra um vestido vermelho, vários manequins menores do que o dela – era o modelito que se enxergava vestindo no futuro, quando seria Alicia, “magra e feliz”, e não mais Plum. O tom da série começa a ficar claro quando, numa reunião de um grupo de emagrecimento, uma das participantes levanta, indignada com o teor dos discursos na roda de conversa. “Eu me sinto bem gorda, eu me amo. Vim aqui porque preciso de ajuda para emagrecer pois tenho problema na coluna, não porque odeio meu corpo”, dispara uma moça de roupa moderninha e cabelo colorido. Não, amigas, não se trata de mais uma série bobinha, definitivamente.

Joy Nash as Plum Kettle - Dietland _ Season 1, Episode 1 - Photo Credit: Patrick Harbron/AMC

Mais um pouquinho do enredo: no estilo ghost writer (uma escritora fantasma, sem assinatura), Plum responde todas as cartas enviadas a Kitty Montgomery (Julianna Margulies, na foto abaixo), editora de moda de uma revista. Pausa: sim, é a Alicia Florrick da ótima série The Good Wife, e ela está ainda mais maravilhosa aqui! Na caixa de entrada de Kitty – e, por tabela, de Plum -, chegam correspondências de garotas aflitas, que relatam desde problemas de autoestima até estupro e assédio. Gurias desesperadas, que refletem os relatos de casos bárbaros e horrorosos que vemos todos os dias nas redes sociais, na TV, nos jornais. É por causa dessas meninas que Plum é abordada por Verena Baptist, filha de uma guru das dietas – cujo objetivo é acabar com a herança de sofrimento causada pela mãe. Junte a isso um grupo de guerrilha feminista – que, na trama, caça estupradores e abusadores de mulheres. A tribo das justiceiras ganha um nome certeiro: Jennifer.

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A partir daí – porque tudo isso rola no primeiro episódio –, Plum entra de cabeça numa verdadeira revolução pessoal, que vai muito além do número na balança. Dietland é uma série mais do que atual: em tempos de #MeToo, discute como pouquíssimas outras produções a opressão que atinge as mulheres desde as pequenas situações do dia a dia. Do olhar intimidador no elevador ao medo de andar sozinha na rua. Da cobrança por usar um saltão à necessidade de ser magra. Coloca o telespectador na mesma ótica da personagem – e, independentemente do seu peso ou sexo, é impossível não se sensibilizar com a vida de Plum e das garotas dos emails. O seriado é uma representação das angústias e absurdos que as mulheres vêm denunciando, cada dia mais. E vale cada minutinho na frente da TV. Se você está sem programa para este fíndi, fica a dica: está disponível na Amazon Prime. Para quem gosta de ler, Dietland é inspirada no livro homônimo de Sarai Walker – e está na minha lista.

Assista ao trailer de Dietland

 

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