Depois de edição com casting padrão, SPFW tem desfile com modelos curvy: “Moda é para todos, não só para as magrinhas”

É fato: nunca se falou tanto em diversidade. E também nunca houve tantas cobranças do público por representatividade de corpos na moda. A passos lentos, este cenário vem mudando: na última temporada de moda internacional, por exemplo, grifes consagradas como Michael Kors e Prabal Gurung e a novata Fenty, de Rihanna, trouxeram modelos fora dos padrões que estamos acostumadas para seus shows. De acordo com um balanço do site Fashion Spot, 1,2% do casting das fashion weeks de Londres, Milão, Paris e Nova York vestiam mais do que o costumeiro 36, um total de cerca de 30 modelos curvy ou plus size. Muito pouco se compararmos com o total de mulheres que usam manequins maiores, mas, ainda assim, um começo.

Aqui no Brasil, o cenário já foi bem mais animador. Nos tempos em que a Laborário Fantasma, de Emicida e Fióti, desfilava na São Paulo Fashion Week, presenciamos modelos plus size femininos e masculinos na passarela – vale dizer que homens gordos são ainda mais raros. Detalhe: vimos modelos gordas negras também, ainda mais excluídas das passarelas. Mas esse tempo de esperança, infelizmente, passou. Com a saída da etiqueta do line-up, a diversidade de corpos também se foi. Houve outros destaques, como a presença da top Fluvia Lacerda (foto abaixo) em um fashion show de Ronaldo Fraga. E, na última temporada, não vimos absolutamente nenhuma curvy ou plus size entre os 33 desfiles do evento. Um retrocesso triste para quem já havia conquistado alguns degraus.

Relembre:
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Fluvia Lacerda, modelo plus mais famosa do país e uma das mais conhecidas do mundo, só estreou na passarela da SPFW no ano passado

Na 46ª edição, que terminou nesta sexta-feira, um alento: no desfile que encerrou o evento, finalmente, tivemos a presença de duas modelos curvy no fashion show da Água de Coco. No seu último desfile, no final do ano passado, a etiqueta de beachwear já havia trazido uma top curvy, mas agora resolveu investir um pouquinho mais na diversidade de corpos. Uma das garotas curvilíneas era Muriel Segovia, 27 anos, que atua como modelo há seis. Feliz que só, comemorava a oportunidade inédita de estar na maior semana de moda do país:

– É um sonho. Nunca imaginei que, em algum momento da minha carreira, isso iria acontecer. Foi um choque. Estou extasiada – confessa a modelo de São Paulo ao blog Um Plus a Mais.

Quem também fez seu début na passarela foi Fernanda Machado, 28 anos. Para ela, estar nesta posição de destaque na fashion week é motivo de orgulho – por ela e pela “conquista” do segmento.

– Estou orgulhosa por mostrar que a moda é para todas, nao só para as magrinhas. A moda foi cruel por muito tempo conosco, o que gerou problemas de autoestima e distorção de imagem em muitas mulheres. Estou muito feliz de estar representando (as mulheres curvy e plus size). Quero cooperar para mudar essa visão que a moda tem.


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Momento épico com a minha musa @muri_segovia 💃🍾#spfwn46 #spfw #plussize

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Para Muriel, iniciativas como a da marca Água de Coco são mais um degrau em busca da representatividade real – que ainda parece distante da nossa realidade.

– É um passo. E melhor um passo do que nada. As outras marcas vão ver e querer se espelhar nisso – acredita. – Querendo ou não, o mercado está crescendo e abrindo portas para o nosso universo plus size. Outras marcas podem pensar: “Vamos testar o retorno?”. E vão ver que dá. Um dia, a gente chega lá.

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Para Liana Thomaz, estilista da Água de Coco, os reflexos de apresentar desfile com diversidade de corpos vem das clientes – prova de que investir em modelos com corpos mais próximos aos da maioria das mulheres também dá retorno financeiro.

– As clientes estão adorando! Ficam com mais vontade de comprar, de ir na loja e ter vontade (de experimentar). Antes, ficavam um pouco retraídas, e agora não. Pessoas mais velhas, ou com mais peso não têm mais tanta vergonha – conta a criadora, direto do backstage da SPFW. – Acho que a pessoa tem que se gostar da maneira que é.

Se dá dinheiro, afinal, porque outras marcas não abrem as portas para modelos de manequins variados? As explicações são muitas. Para o blog Um Plus a Mais, no caso dos desfiles, tem a ver com a dificuldade que alguns estilistas ainda demonstram para vestir modelos maiores. Se todas as modelos vestem 36 e têm altura parecida, diminuem as provas de roupa antes e a produção das roupas segue o mesmo padrão. No caso das curvy ou plus size, há garotas com mais quadril ou mais peito, que tem mais ou menos barriga, o que demandaria mais trabalho. Mas, se avaliarmos o retorno financeiro e publicitário que um casting minimamente diverso traz, é um trabalho que tem tudo para compensar. Mas precisamos ser sinceros: há estilistas que, simplesmente, não querem fazer roupas de tamanhos maiores – seja pelo custo ou para manter a identidade de sua marca. Ou porque simplesmente não tem interesse nenhum em criar para manequins plus size – às vezes, por pressão da própria clientela, que não quer mulheres gordas usando a mesma roupa que elas. A modelo Fernanda Machado resume nossa análise:

– É preconceito! É dificil falar. Mas dou um conselho para os estilistas: invistam grandemente no segmento plus, porque damos muito dinheiro. O mercado é escasso e tem muita gente que precisa e gosta de moda de verdade. Que quer entrar em qualquer loja e ter sua numeração disponível para comprar.


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Representatividade na #spfw46 🙏 Foi mágico!

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Enquanto grandes grifes preferem não investir no segmento plus size, a nossa dica é: valorize e prefira as marcas independentes e autorais que se importam e se dedicam a fazer roupas com boas modelagens e informação de moda para nós. Por aqui, fazemos questão de sempre indicar criadores que estão atentos e preocupados com o mercado plus size. Se não querem nos vestir, também não vamos dar dinheiro para estas empresas, não é? Infelizmente, nem todas têm oportunidade e condições financeiras para comprar de marcas plus size, que, muitas vezes, têm preços mais elevados, e é justamente por isso que também cabe a nós cobrar do mercado, sempre que possível, oferecer opções para todos. É um trabalho de formiguinha, mas, aos poucos, a gente pode chegar lá.

Não custa lembrar: representividade não é caridade, é obrigação. E, quando se fala de diversidade de corpos, é o obstáculo mais difícil para a moda – e que encontra ainda muita resistência. Como jornalista e mulher gorda que acompanha o evento há anos, torço para que na próxima edição não tenhamos apenas modelos curvy, mas também modelos plus size (grade que começa no 46, mas que inclui também mulheres que vestem 52, 56, 60 ou mais). São conquistas graduais, sabemos, mas necessárias. Vamos, #modas! A gente acredita!