A gorda da academia: como foi voltar a fazer exercícios físicos por vontade e prazer

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A coluna abaixo será publicada na edição de 24 de novembro.

Todo início de ano, a mesma cena: elencamos mil e uma metas para cumprir nos 365 dias que se avizinham. Algumas mais fáceis, como ler pelo menos um livro por mês. E outras mais complicadas, como deixar de fumar. Para 2018, minha lista incluía apenas uma: voltar a me exercitar. À primeira vista, parecia simples. Vestir uma legging, uma camiseta e bater ponto na academia mais próxima. Mas, assim que pisei em um destes centros fitness, perto de casa, revivi uma sensação bem conhecida de outros tempos menos felizes: eu não pertencia àquele lugar. E ele não me fazia bem.

Hoje, consigo olhar para trás e perceber quando essa relação ruim começou a se desenhar: exatamente na adolescência, quando passei a ganhar mais peso. Não tinha nem três aninhos de idade e já fazia balé duas vezes por semana. Depois, pelos sete, passei a incluir também na rotina aulas de jazz. Lá pelos 12, decidi que não queria mais sapatilhas e saias rodadas. Só agora, mais de 15 anos depois, entendo o porquê: talvez tivesse a ver com o meu corpo, que, claramente, se mostrava bem diferente do das outras bailarinas. Pré-adolescente, não conseguia entender isso. Dizia para a mãe e para mim mesma que balé “não tinha a ver comigo”.

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As imagens que ilustram esse post são da marca fitness Wonder Size, que oferece opções de looks para as gurias gordas se exercitarem.

Com o fim da atividade física regular, os hormônios a mil e uma clara predisposição genética para ser gordinha, acabei ganhando peso. Era uma adolescente gordinha. E, claro, passei a ser cobrada, pelos outros e por mim mesma a “dar jeito” nisso. Pouco antes dos meus 15 anos, comecei a frequentar uma academia pela primeira vez. E não consigo esquecer a sensação de estar sendo vigiada o tempo todo. Se fazia mais devagar uma sequência? É porque é gorda, né? Se eu me puxava mais, ou aparecia por lá dois dias seguidos? Gorda que quer emagrecer, claro. Faz tempo, mas as memórias ainda são claras: pelo menos nos horários em que fazia, era a única gordinha. E, claro, atraía olhares. Me sentia vigiada e julgada, se me puxasse ou se estivesse num dia mais devagar. Como sempre amei dançar, naquela época arrisquei também umas aulas de jump. Com mais de uma década de balé e jazz, é óbvio que tinha uma certa desenvoltura para pular e fazer coreografias na caminha elástica. E isso era motivo de choque para as colegas magras. Várias vezes ouvi: “Mas como tu consegue fazer a coreografia e pular, hein?”. Embasbacadas porque uma guria gorda consegue, sim, se exercitar. E fazer direito.

Fiquei um bom tempo por lá, mas chegou um dia em que não dava mais. Aquele ambiente me fazia mal. Embora quisesse suar e me manter ativa, os olhares e comentários eram mais fortes para a minha versão adolescente. Talvez, se fosse hoje, seriam um estímulo para me puxar mais e fazer melhor. Mas diz isso pra uma guria de 17 anos?

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Os anos passaram, vieram a faculdade, os primeiros anos de formada e a autoobrigação de trabalhar mais e focar no profissional – as desculpas perfeitas para que eu não encaixasse uma hora de exercício a cada dois dias na agenda. Mas uma hora a conta chega, né? Há alguns meses, estava subindo com as compras do mercado os três andares de escadas do meu prédio e cheguei esbaforida. Não dava mais para adiar. Era a deixa que eu precisava para me obrigar a buscar uma atividade física.

A primeira opção foi, claro, a academia. Cheguei a visitar algumas, mas o ambiente me fez lembrar automaticamente daqueles fantasmas da adolescência. Embora hoje minha cabeça seja totalmente outra, sabia que precisava de algo que me fizesse bem, e não onde precisasse provar que posso o tempo todo. Aí, uma amiga me falou da aula de ritmos que ela fazia: ao som de músicas da Ivete e da Anitta, dava para se exercitar feliz. Ganhava mais condicionamento físico – minha meta – e ainda se divertia. Já na primeira aula, me apaixonei. Além das três vezes na semana, estou pensando em incrementar minha nova rotina com outra atividade. Porque percebi o quanto aquilo era necessário e me fazia bem.

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E o que foi fundamental nessa empreitada? Me sentir bem e acolhida. E é isso que recomendo a para quem está no mesmo barco. Minhas aulas são com mulheres de todas as idades – tem uma garota de 18 e uma senhora de quase 70. Com corpos variados. E que estão ali para buscar qualidade de vida e não em uma competição frenética para ver quem tem mais quadradinhos no abdômen. Não me sinto observada, não me sinto julgada. E sei o quanto isso é fundamental para que eu siga comparecendo as aulas e me sentindo confortável de verdade por lá. Quer dizer que não me sentiria bem em uma academia convencional? Não sei, talvez até sim, e pode vir a ser o próximo passo. Sei que a primeira coisa que vão perceber é sempre o meu tamanho. E que, invariavelmente, vou ouvir perguntas sobre quantos quilos já emagreci – ainda que meu objetivo com a atividade física não seja esse.

Hoje, não me incomodo mais em ser a gorda da dança ou, amanhã, a gorda da academia. Mas não funciona assim com todo mundo. Esse texto é, sim, um estímulo às gurias que, como eu, estão deixando seu bem-estar de lado para evitar serem constrangidas nestes ambientes que podem ser hostis, eu sei. Mas também um toque às meninas magras que, muitas vezes sem maldade, acabam colaborando para criar esse terror. Não sejam essas pessoas. Não julguem a capacidade de alguém pelo tamanho – ou credo, raça, orientação sexual, como vocês já sabem. E, gurias gordas, a gente pode!

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