Moda (ainda) não é para todas, mas desfiles como o da Dolce & Gabbana e o da Fenty trazem esperança

Moda (ainda) não é para todas, mas desfiles como o da Dolce & Gabbana e o da Fenty trazem esperança

O Um Plus a Mais também está na versão impressa da Revista Donna,
sempre tratando de temas relacionados a diversidade.
A coluna abaixo será publicada na edição de 29 de setembro

Eu sempre fui gorda. Quando era pequena, fofinha, e depois a adolescente gordinha. Hoje, adulta, sou gorda mesmo, e aprendi a ver essa palavra como o que ela é: uma característica, e só. Contrariando a regra, também sempre fui uma garota GG que gosta de moda. Lá pelos meus 13, 14 anos, gostava mais era de roupa mesmo. Só que, como é comum a 99,9% das gordas brasileiras, tinha dificuldade de achar coisas bacanas. Foi aí que, com a minha melhor amiga de infância, a Mari, comecei a desenhar e mandar fazer tudo que vestia em uma costureira da cidade. Descobri a magia dos panos e das linhas. Também pesquisava na internet (discada!) referências para o que eu iria “mandar fazer”. Foi então que meu flerte com a moda, de fato, começou. Aos trancos e barrancos desde sempre, já que ela nunca foi muito gentil comigo: sempre fiquei meio à margem, mas, insistente que sou, continuei ali, firme e forte.

Conheci estilistas que estão entre os meus preferidos até hoje, como Alexander McQueen, Jeremy Scott, Olivier Rousteing, Marc Jacobs, Alexandre Herchcovitch, Alessandro Michele… E fui (auto)apresentada também a marcas que, de fato, criavam e vendiam roupas para o meu tamanho – a maioria idealizada por gurias também gordas, independentes, que estavam na mesma situação de “órfãs fashion” que eu. Esse mercado, ainda bem, só faz crescer, ainda que esteja longe de chegar para camadas mais populares de mulheres gordas. E aí começou o boom do body positive, com gordas na propaganda de maquiagem, nas capas de revistas, em editoriais… Uma revolução lenta, mas constante. Confesso para vocês, isso me dá esperanças de que as coisas estejam realmente mudando, ainda que a passos de formiguinha.

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Mas aí a gente depara com verdadeiros sacolejos da vida, como o que rolou na última edição da São Paulo Fashion Week, uma das muitas que cobri como repórter de moda da Revista Donna. Sim, pasmem: nenhuma modelo gorda cruzou a passarela da semana de moda paulistana. Foram 33 desfiles. Trinta e três oportunidades de ter pelo menos uma mulher ou um homem gordo na passarela. Nenhuma marca quis. Para ser justa, a única tentativa de sair do padrão foi da Água de Coco, que trouxe uma modelo curve – mas que vestia 42. Passa bem longe do 50 da minha etiqueta, que ainda é pequena se pensarmos que existem mulheres de tamanho 54, 60, 62, que também estão aí nas ruas consumindo, vivendo. E querendo ser representadas. Não custa lembrar: 53,8% dos brasileiros são, pelo menos, gordinhos, segundo o Ministério da Saúde.

Mas a temporada de moda internacional, que está rolando agora, começa a dar sinais de que podemos sonhar com dias melhores. Em Nova York, estilistas como Michael Kors, Chromat e Prabal Gurung incluíram modelos curvy e plus size em seus castings. Christian Siriano, o nome mais inclusivo do line-up nova-iorquino, fez bonito novamente com muita diversidade em seu desfile. Marco Marco, por sua vez, trouxe drag queens, pessoas trans e não binárias para a passarela. Lindo de se ver!

Desfile de Christian Siriano. Foto: AFP

Desfile de Christian Siriano. Foto: Instagram

 

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Mas meus olhos brilharam mesmo com dois desfiles em especial: o da Savage x Fenty, grife de Rihanna, e o da italiana Dolce & Gabbana. Na marca de Riri (foto abaixo), um show de diversidade: teve modelo grávida, de cabelo curtinho ou longo, e com vários estilos de corpos, das mais magrinhas às gordas & gordinhas. O mais legal? O desfile uniu tops consagradas, como Gigi e Bella Hadid, e meninas normais, como eu e você. Prova de que, dá, sim, para representar todo mundo na passarela.

Savage X Fenty Fall/Winter 2018 - Runway

 

Assim como fez a Dolce & Gabbana, que levou mulheres de todas as idades – como Carla Bruni (50 anos, na foto) e Maye Musk (70) – e modelos com vários tamanhos de corpos, incluindo a top curvy Ashley Graham. Todas lindas e exuberantes, como a moda italiana gosta de mostrar. Tenho lá minhas ressalvas às personas de Domenico Dolce e Stefano Gabbana, que já falaram muita porcaria por aí, mas preciso reconhecer: ver uma das maiores grifes do mundo dando espaço à diversidade é algo lindo, fundamental e encorajador. Que sirva de exemplo – e como prova de que não é tão difícil assim fazer moda para todas.

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Ashley Graham. Foto: AFP

 

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O dia em que me descobri feminista – e como o movimento mudou minha maneira de ser e pensar

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O Um Plus a Mais também está na versão impressa da Revista Donna,
sempre tratando de temas relacionados a diversidade.
A coluna abaixo será publicada na edição de 18 de agosto.

Ser repórter de comportamento – e assinar reportagens sobre temas complexos como o feminismo, a exemplo da capa desta edição – faz com que a gente se questione. A cada nova entrevistada, um ponto de vista que ajuda a esclarecer ou contribui para confundir ainda mais. Mas, acima de tudo, faz com que a gente reveja o nosso próprio comportamento.

Caí num túnel do tempo desses enquanto conversava com a Angélica Kalil, que comanda o canal Você é Feminista e Não Sabe. No papo, a jornalista me contou que questiona a cada entrevistada, qual é, afinal, a sensação de se descobrir feminista. Assim que coloquei o telefone no gancho, parei para pensar em que resposta eu daria. E a resposta foi um misto de certa vergonha e, claro, de libertação.

Comecei a lembrar da Thamires do colégio. Que, embora fosse razoavelmente bem-resolvida, sempre ficava com o pé atrás se questionando o que os outros iriam pensar daquele cabelo roxo. Ou do All Star de cano altíssimo. Que deixou, muitas vezes, de usar a camiseta de banda que tinha vontade porque as colegas patricinhas iam olhar torto. Era bem feliz sendo amigona dos guris, sentando na turma do fundão, mas às vezes batia aquela invejinha das menininhas loiras e de batom brilhante que pareciam ter saído de um filme de colégio americano da Sessão da Tarde. Não tenho lá muito orgulho de lembrar que julguei colegas porque se vestiam de rosa. E não gosto de lembrar também que fui escanteada algumas vezes porque não era como elas.

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Pensei também nas (muitas) vezes em que já fiz merda com outras mulheres. Que adolescente nunca falou mal do vestido decotado da colega nas festinhas de 15 anos, hein? Ou da guria gostosona que pegava geral? Embora muitas de nós quiséssemos, sim, estar naquela posição “desejada” quando se é adolescente, nosso escudo natural era falar mal. Do cabelo, da roupa, do sapato, até da risada da criatura.

Não foram poucas as vezes em que estive nesses grupinhos em que se falava demais – se não dando com a língua nos dentes, ouvindo sem questionar. E brigar por causa de crush, hein? Teve uma vez em que discuti com a minha melhor amiga de infância porque, veja bem, ela adicionou no MSN um boy de quem eu (achava que) gostava. Vê se tem cabimento?

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Olhando para trás, vejo o quanto fiz mal a mim mesma e deixei de ser legal com os outros. E se a gente não se importasse com a guria do vestido curtíssimo, que só diz respeito a ela mesma? E se tivéssemos ido puxar papo com as loiras patricinhas para ver se elas não eram legais? E a colega pegadora? Por que a gente não pediu a ela uns conselhos de paquera? E por que a gente achava problema ela ser pegadora e queria ficar com o guri garanhão da sala? Hein, hein? E se eu não tivesse deixado de usar as roupas que queria? Ou, como guria que sempre foi gordinha, como é que teria sido a vida sem dietas mirabolantes para tentar ser como as patricinhas de quem eu nem gostava? E se…

São dúvidas que jamais serão respondidas. Mas, olhando para trás, só consigo pensar que eu teria me cobrado muito menos se tivesse conhecido o feminismo antes. Teria julgado muito menos as gurias à minha volta e respeitado mais as escolhas de cada uma delas. E talvez pudesse até ter investido meu tempo fazendo coisas que sempre ouvi que eram para os guris – como jogar futebol, que nunca tentei porque achava que seria bruto demais para mim, que já não tenho tanta habilidade com esportes assim.

A Angélica Kalil me contou que, quando se descobriu feminista, era como se subisse em um muro e conseguisse ver os dois lados da mesma realidade. No meu caso, é como se tivesse tirado um casaco apertado, sabe? Daqueles de três invernos passados e uns quilos a menos, que você coloca e parece que está o tempo todo presa, mesmo ainda conseguindo vestir. Você se sente desconfortável, mas até esquece o porquê, já que aquela peça é tão tradicional no seu armário, não é? Mas, quando tira depois de um dia inteiro, fica pensando: “Como é que consegui usar esse troço por tantas horas?”.

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Não é que eu vivesse mal ou não fosse feliz sem o feminismo. Eu era, mas me sentia presa, e não sabia por quê. O feminismo me ensinou a olhar para as outras mulheres com mais compaixão. Aprendi que é, sim, meu dever tentar entender a outra antes de julgar – para julgar cada vez menos. Me fez entender que eu não preciso do aval dos outros para fazer o que quero e ser quem eu quero.

O feminismo me ensinou a brigar mais – não por bobagem, mas por tudo aquilo que é desigual sem motivo. Também me ajudou a entender e ser mais solidária e empática com brigas que não são minhas. Me fez olhar menos para o meu próprio umbigo.

É fácil? Claro que não. É, na verdade, bem doloroso entender o quanto a gente perdeu tempo na vida com picuinhas desnecessárias, enquanto há causas bem mais verdadeiras para se engajar. Mas também é libertador. Se você tiver a oportunidade de tentar entender um pouquinho mais o que há por trás desse movimento – e vai bem, bem além da casquinha superficial de que falei aqui –, asseguro que vale a pena. Vamos juntas?

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Nenhuma marca brasileira quis criar um vestido de gala para Fluvia Lacerda, modelo plus mais famosa do Brasil

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Sempre que vou a Minas Gerais – no caso, para cobrir o Minas Trend -, dou um jeito de passar numa fast fashion gringa que só vende a coleção plus lá em Beagá e em Campinas. Sai faceira com minhas sacolinhas e até comentei com o namorado: “Não acredito que achei sutiã, body e saia na mesma loja, sério”. Embora o pobre guri esteja superacostumado com minhas reclamações sobre a moda ser ainda tão excludente com quem veste mais do que 44, ele me perguntou: “Mas ué, não deveria ser sempre assim?”.

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Óbvio que sim. A gente não deveria precisar entrar em tudo o que é loja e se contentar com o que cabe. Ainda mais em grandes magazines que costumam oferecer de tudo: da lingerie ao sapato. Mas não pra nós, gordas.

Não teve como deixar de lembrar desse diálogo quando, rolando o feed do meu Instagram, deparei com o comentário de Fluvia Lacerda para uma seguidora. Fluvia contava que nenhuma marca, NENHUMINHA, quis criar um vestido para ela ir ao baile da amfAR, evento de gala cuja renda é revertida para pesquisas de combate a AIDS. Se você não conhece a Fluvia, eu explico: ela é apenas a modelo plus size mais famosa do Brasil, e uma das top do mundo também. Tem mais de 15 anos de carreira, já apareceu na Vogue Itália, lançou livro. Um currículo absurdo, que, olha, é mais do que o suficiente para que as marcas quisessem vesti-la. E não por caridade, viu? As grifes se digladiam para vestir as famosas neste tipo de evento porque é exposição massiva na certa: sai em Instagram com centenas de milhares de seguidores, em revista, em jornal, na TV. Todo mundo quer saber o que as celebs estão usando. Tem marcas que, inclusive, pagam as atrizes globais e blogueiras para vestir sua marca, sabia? Menos quando você é gorda.

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Quando você é gorda, como Fluvia, as marcas somem. Eu não sei se é medo da cliente magra e esnobe ver que uma mulher gorda está usando a mesma grife que ela. Ou se é preguiça dos estilistas de criarem um vestido para uma mulher com curvas. Mas é fato que, nestas horas, todo mundo que sempre esteve ali babando o ovo da Fluvia sumiu. “No começo, as marcas mostraram-se super abertas e com aquele discurso de “nossa, amo muito o seu trabalho”. O tempo foi passando e nenhuma delas me respondeu mais”, contou Fluvia à revista Quem. A solução? Fluvia desenhou seu próprio vestido, que foi executado por Mario Catto e Malu Maya. Ela queria vestir uma grife brasileira, mas nenhuma grife brasileira quis vesti-la. É isso.

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Nessas horas, eu fico pensando: se tá difícil pra Fluvia, imagina para nós? E se me convidam para um baile de gala (vai que, né?), vou fazer o quê? Negar o convite porque nenhuma marca da minha cidade faz roupa de festa para gorda? Se isso acontece no eixo Rio-SP, que tem muito mais opção, o que sobra para Porto Alegre? Isso é, sim, um puxãozinho de orelha: povo da moda da Capital, do Interior, da Região Metropolitana, vamos olhar com mais carinho para o público que veste mais do que 44? Nós também consumimos, temos poder aquisitivo e, tal qual vocês, gostamos de moda. E queremos nos vestir bem. Se não é para ser inclusivo – e isso não é obrigação de ninguém, ainda que devesse -, que seja pela grana que o público 44+ tem. A gente reclama de crise, mas que tal expandir o mercado para um nicho que está sedento por consumir melhor? Não custa lembrar: mais da metade da população brasileira está “acima do peso”. Reflitam!

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